perspectivas

Segunda-feira, 17 Setembro 2012

O problema da ideologia política ou religião de Estado

« Ali, umas centenas de ricos, muito ricos, de vários países do mundo assistem a uma palestra proferida por um consultor estrangeiro sobre “como Portugal é a melhor escolha fiscal em 2012″, pois “às vezes as medidas de austeridade em Portugal para os mais ricos são mais aparência do que realidade”… Isto é dito e está escrito num slide da sua apresentação. »

via De Rerum Natura: "Isto não é socialmente aceitável, pois não?".

Eric Voegelin dizia que as ideologias são “religiões políticas”.

O que move Passos Coelho & Comandita, é uma religião política, ou seja, é uma religião imanente e materialista. Enquanto que as religiões propriamente ditas decorrem de uma teologia complexa que, por sua vez, assenta na metafísica — em contraponto, a ideologia é a redução de um qualquer sistema filosófico ou corrente filosófica a uma crença dogmática fundada em princípios inflexíveis e inconformes com a realidade. Podemos dizer que Passos Coelho é uma espécie de Jerónimo de Sousa da direita.

Só neste contexto se compreende a fé do Ministro das Finanças :

« Ministro espera que pressão da opinião leve a EDP e Galp a baixarem preços com o jackpot da TSU. »

via Vítor Gaspar tem fé na redução do gás, da luz e dos combustíveis | iOnline.

O dogma ideológico — o dogma da ideologia política ou da “religião política” — impõe a necessidade de uma fé, mas ao contrário da “fé racional” que podemos extrair da religião transcendental por intermédio da razão [Fides quaerens intellectum*], a fé da religião política é irracional na medida em que não toma em consideração a realidade no seu todo, ou seja, concentra-se apenas em uma parte muito restrita da realidade.

A religião política conduz à irracionalidade — como pudemos ver na decisão de Passos Coelho em alterar a TSU. Subjacente a essa decisão está uma fé, ou seja, Passos Coelho pretende impôr a toda a sociedade as consequências da sua própria fé. No fundo, estamos em presença exclusivista de uma religião secularista de Estado que o próprio secularismo de Estado proíbe em relação às religiões propriamente ditas.

Portanto, quando alguém diz que “a religião de Estado acabou em Portugal”, só pode ser míope: não só a religião de Estado não acabou, como temos hoje mudanças de religiões de Estado ao sabor das modas e do espírito do tempo, e são religiões políticas de Estado cuja mundividência é restrita, restritiva e imanente, conduzindo, ao longo da passagem das gerações, ao embotamento intelectual e espiritual progressivo dos cidadãos.

* Santo Anselmo, no seu Proslógion, diz que é a fé e a intuição que procuram a razão, e não é a inteligência que procura e encontra a fé. Quando a fé procura a razão, é a realidade total que é objecto da procura através a intuição que é uma forma de conhecimento sem intermediação.

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1 Comentário »

  1. Diz o caro Orlando:
    “…não só a religião de Estado não acabou,…”
    Claro que não acabou; antes pelo contrário!
    “…como temos hoje mudanças de religiões de Estado ao sabor das modas e do espírito do tempo,…”
    Ter-se-á eventualmente esquecido dos interesses mais ou menos inconfessáveis dos amigalhaços dos pulhíticos, que hoje por hoje, ditam leis…
    “…e são religiões políticas de Estado cuja mundividência é restrita, restritiva e imanente, conduzindo, ao longo da passagem das gerações, ao embotamento intelectual e espiritual progressivo dos cidadãos.”
    Não será preciso esperar pela próxima geração; o aborto gráfico já fez uma parte importante desse trabalho, pelo que, doravante, tudo se tornará mais fácil.
    Cumpts

    Comentário por Inspector Jaap — Terça-feira, 18 Setembro 2012 @ 5:30 pm | Responder


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