perspectivas

Sábado, 15 Setembro 2012

Sobre a correspondência entre Leibniz e Clarke

Filed under: filosofia,Ut Edita — orlando braga @ 10:40 am
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A correspondência entre Gottfried Wilhelm Leibniz e o inglês Samuel Clarke [amigo de Isaac Newton] começou com uma missiva enviada por Leibniz a SAR a Princesa de Gales, em 1715, que, por sua vez, a enviou a Clarke, e desta forma iniciou-se a famosa correspondência entre os dois.

A correspondência é extensa e aborda várias áreas, mas ao contrário do que ficou assente naquela época, foi Leibniz que, em termos gerais, ganhou o debate, embora em algumas temáticas tanto Newton [por intermédio de Clarke] como Leibniz estivessem muito próximos. Porém, a correspondência for menos marcada por divergências das ideias de um e de outro, do que por uma certa animosidade pessoal entre Leibniz e Newton.

O conceito de “Espaço Absoluto” de Newton foi absolutamente necessário para que o físico inglês pudesse trabalhar na sua teoria da Dinâmica e da atracção gravitacional. O “espaço absoluto” de Newton é um conceito transcendental, que ultrapassa o mero espaço do universo e entra na metafísica do infinito. O conceito de “espaço absoluto” é ainda hoje utilizado, embora já corrompido pela ideologia ateísta e naturalista [o que não acontecia com Newton], pelos defensores da “teoria de cordas” e/ou dos “universos paralelos”: o “espaço” entra pela metafísica axiomática adentro, embora excluindo Deus e a Criação.

Naturalmente que Leibniz, ao contrário de Newton, não tinha uma visão panteísta da realidade [não há nenhum filósofo ou cientista de ascendência judia, de que eu tenha conhecimento, que não tenha, pelo menos, uma tendência para o panteísmo, devido à influência cultural da tradição da Cabala; o próprio naturalismo é hoje uma corruptela do panteísmo]. Em oposição a Newton, a visão de Leibniz era panenteísta. E tal como Leibniz contrariou Espinoza, também não concordou com Newton.

“Se o espaço é uma realidade absoluta, longe de ser uma propriedade ou acidentalidade oposta à substância, será mais subsistente do que as substâncias. Deus não o poderia destruir, nem mesmo mudá-lo em nada. Ele é não somente imenso no todo, mais ainda mutável e eterno em cada parte. Haverá uma infinidade eterna de coisas fora de Deus.” — Gottfried Wilhelm Leibniz, Quarta Carta, 10. [vemos aqui o panenteísmo de Leibniz e a crítica ao conceito de “espaço absoluto” de Newton]

Ou seja, Newton, sendo um panteísta, precisou do conceito transcendental e supranatural de “espaço absoluto” para fundamentar a sua teoria da Dinâmica e da atracção gravitacional. E foi esta (entre outras) contradição intrínseca de Newton que foi alvo da crítica de Leibniz.

Depois, Newton defendia a ideia segundo a qual o universo precisava de uma intervenção constante da parte de Deus para que fosse mantida uma ordem universal; e Leibniz dizia que o universo foi construído de tal forma por Deus, com as suas leis da natureza, que não precisava de uma manutenção divina constante no sentido da preservação da ordem universal [a não ser quando existe o milagre, que segundo Leibniz, é uma situação excepcional].

Mais uma vez, o problema não é o de saber qual dos dois tinha razão, porque os dois tinham, cada um à sua maneira, razão parcial: o problema de Leibniz em relação a Newton era a visão panteísta deste último. Ou seja, segundo Leibniz, Newton até tinha razão mas partia de um princípio errado.

De facto, é possível estarmos dentro de uma certa verdade partindo de princípios errados ou falsos.

A razão é a capacidade de abstracção em relação aos fenómenos [por exemplo, objectos] e de descobrir os princípios que lhe estão subjacentes. Estes princípios, descobertos pela razão, podem ser falsos ou verdadeiros; e podem até ser considerados falsos sendo verdadeiros, e ser considerados verdadeiros sendo falsos. E podemos adoptar um princípio verdadeiro a partir de pressupostos falsos.

Embora fosse considerado naquela época que Newton teria ganho o debate, a verdade é que a base conceptual da filosofia quântica defende hoje o contrário: Leibniz tinha razão.

Para além dos problemas físicos insolúveis do universo macroscópico — por exemplo, o problema da “matéria negra”, o problema do Big Bang, etc.; neste aspecto talvez David Hume tivesse alguma razão —, a verdade é que o universo é um processo de criação contínua: as partículas elementares (electrões, protões, neutrões, etc), que são a base da formação da matéria, “aparecem” e “desaparecem” no universo físico mediante um processo que a ciência não consegue explicar, e tenho dúvidas se alguma vez o conseguirá explicar segundo o actual método científico empirista. Ora, este constante “aparecimento” e “desaparecimento” das Partículas Elementares Longevas sugere uma criação contínua e permanente do universo, e uma intervenção divina omnipresente nesse processo de criação contínua.

Porém, o erro de Newton foi supôr que o “espaço absoluto” era, ele próprio, uma forma de Ser que se identificava com o próprio Criador (Deus) — desde logo porque sabemos hoje que o “espaço absoluto” não existe em termos da física macroscópica: o universo teve um início [Big Bang] e, por isso, é finito; e depois porque, a ter algum sentido, o conceito abstracto de “espaço absoluto” só se pode traduzir na “continuidade” do espaço físico “para além” do universo, ou entroncado nos princípios axiomáticos que determinam as leis que regem o universo físico e material.

Ou seja: o “espaço absoluto” de Newton está para a física do século XVIII como a noção de “infinito” está para a matemática: ambos os conceitos entram pela metafísica adentro e vão “para além” da matéria e do universo físico.
A própria ideia de “espaço absoluto”, segundo Newton — assim como a ideia de “infinito”, na matemática — é a demonstração cabal de que Leibniz tinha razão e acabou por ganhar o debate no século XX.

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