perspectivas

Segunda-feira, 10 Setembro 2012

A ditadura irracional do feminino, e Savater

A Helena Damião, neste postal, parece não ter percebido um fenómeno social e político que marca estas eleições nos Estados Unidos como nunca marcou outras anteriores: a feminização da política americana, ou melhor dizendo, o apelo ao voto feminino. Quem vai decidir estas eleições nos Estados Unidos são as mulheres, porque se dependesse apenas dos homens, Mitt Romney já as tinha ganho. E por isso é que as duas mulheres — as esposas dos candidatos à presidência — assumiram um papel inusitado, inédito e mesmo exagerado nas respectivas campanhas eleitorais.

O problema aqui é o de saber até que ponto é positivo que o futuro de um país dependa da emoção feminina. Eu penso que é muito perigoso que o futuro de um país dependa dos humores volúveis e voláteis femininos. Mas a verdade é que os Estados Unidos estão hoje nessa posição.

É assim que, nestas eleições, são as mulheres dos candidatos que assumem publicamente o velho “american dream”, o mito segundo o qual qualquer pessoa pode ascender na escala social e chegar a presidente. Ou seja, as duas mulheres assumem o “american dream come true” dos respectivos maridos.

Mas, entretanto, o que está realmente em causa são duas mundividências opostas e inconciliáveis: uma, a de Obama, que defende o aborto até aos 9 meses de gravidez; a que pretende obrigar hospitais católicos a subscrever anticoncepcionais e a fazer abortos; a que pretende “casar” gays e lésbicas; a que pretende proibir a expressão religiosa em público; a que pretende centralizar a vida americana num Estado orwelliano; a que pretende continuar a aumentar indefinidamente a dívida pública do país — e a outra, de Mitt Romney, que se opõe a tudo isso.


Neste segundo postal, aparentemente relacionado com o primeiro, a Helena Damião cita o espanhol Savater, o marxista cultural europeísta fanático e amigo do alemão Habermas. E Savater, como sempre faz, enviesa; neste caso, em primeiro lugar, confunde “raízes culturais” com “raça” ou “etnia”. Que eu saiba, não existe uma “raça portuguesa” propriamente dita, dada a mistura entre romanos, visigodos, celtas, iberos, suevos, os berberes a sul, uma pequena pitada dos alanos que ocuparam certas áreas de Trás-os-Montes, etc. Mas existe uma cultura portuguesa dominante, e dizer o contrário disto é delírio interpretativo.

Naturalmente que o problema de Savater é a Espanha das nacionalidades, mas o problema é dele e dos seus correlegionários : quem anda à chuva acaba molhado; a política etnocida do centralismo castelhano parece não ter resultado, e Savater parece estar aborrecido com isso. Problema dele. O que ele não pode é partir do problema espanhol e projectá-lo para o mundo inteiro.

Em segundo lugar, Savater, no seu raciocínio, parte de um sofisma — que é uma forma de populismo; os sofistas eram os mentores e promotores do populismo na Grécia antiga. E o sofisma é a confusão propositada que Savater faz entre “noção” de ser humano, por um lado, e “conceito” de ser humano, por outro lado. E quando uma confusão é propositada e intencional, é um sofisma.

Podemos definir o ser humano: “o Homem é um mamífero bípede, dotado de inteligência e de linguagem articulada”. Esta definição é a noção de ser humano. Mas, ao contrário do que insinua Savater, o ser humano não é apenas e só a sua noção. Reduzir o conceito de ser humano, independentemente da sua noção, a apenas uma “diversidade acidental”, é uma tentativa de reduzir a própria essência humana à sua condição meramente animal.

Por outro lado, se é verdade que a civilização decorre de um certo contágio de umas culturas por outras, como diz Savater, também é verdade que não existe nem nunca existiu qualquer civilização sem uma cultura dominante — e é isto que repugna ao marxista cultural Savater. Problema dele. Ao contrário do que pensa Savater, as culturas não são todas equivalentes: há umas mais equivalentes que outras.

Em terceiro lugar, e como dizia Fernando Pessoa e com razão, a universalidade [no sentido de humanidade] é uma ficção ou um mito:

«A primeira verdade da sociologia (…) é que a humanidade não existe. Existe, sim, a espécie humana, mas num sentido somente zoológico: há a espécie humana como há a espécie canina. Fora disso, a expressão “humanidade” pode ter somente um sentido religioso ― o de sermos todos irmãos em Deus, ou em Cristo.

(…)

Na realidade social há só dois entes reais ― o indivíduo, porque é deveras vivo, e a nação, porque é a única maneira como esses entes vivos, chamados indivíduos, se podem agrupar socialmente de um modo estável e fecundo. A base mental do indivíduo (…) é o egoísmo (…). Esse egoísmo é o da Pátria, em que nos reintegramos em nós através dos outros, fortes do que não somos. »

(Fernando Pessoa, “Obras em Prosa”, “Sobre Portugal”, III Volume, Edição Círculo dos Leitores, 1987, página 316)

Portanto, quando Savater fala em universalidade, fala de uma coisa que não existe senão na cabeça dele e dos utopistas como ele; de uma ideia abstracta que é uma contradição em termos. Naturalmente que a Helena Damião irá dizer que Fernando Pessoa era um idiota e que “Savater é que é bom”. Problema dela: quem andou já não tem para andar.

Por último: estamos aqui a lidar com a “natureza das coisas”, e não como as coisas deveriam utopicamente ser em oposição à sua própria natureza.

O segundo sofisma de Savater consiste em confundir intencional e propositadamente “cultura”, por um lado, com “natureza humana”, por outro lado. E Savater, que anteriormente, no texto, tinha dado uma primordial importância à noção de ser humano em detrimento do seu conceito, entra depois em contradição mediante a introdução da ideia abstracta de “universalidade” no mesmo discurso. Através da ideia ficcional e abstracta de “universalidade”, Savater inverte agora o discurso, e passa a dar mais importância a um determinado conceito abstracto de ser humano em detrimento da sua noção [diz o povo que "se apanha mais depressa um mentiroso do que um coxo"].

Uma das características dos sofistas contemporâneos é o discurso gongórico, prolixo e extenso. Confrontar e refutar textos académicos desse tipo torna-se um exercício da arte de pura lógica e de recurso à metafísica.

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