perspectivas

Sexta-feira, 7 Setembro 2012

José Manuel Fernandes e David Hume

Quando os jornalistas da nossa praça se metem na filosofia temos asneira pela certa. Invocando David Hume, o José Manuel Fernandes escreve no pasquim Público que «foi David Hume, um dos filósofos do iluminismo escocês, que notou que a razão está destinada a ser ‘escrava das paixões’», e que «o nosso cérebro forma primeiro uma opinião e só depois procura argumentos para a sustentar».

“Hoje sabemos, por exemplo, que o nosso cérebro forma primeiro uma opinião e só depois procura argumentos para a sustentar (é possível percebê-lo seguindo o padrão de activação das várias regiões que compõem o nosso cérebro).”

Ora, o conteúdo desta citação última não tem nada a ver com Hume, mas antes tem a ver com o a priori de Kant. E o próprio Kant demonstrou bastamente que Hume tinha uma visão enviesada (errada) da realidade, nomeadamente no que diz respeito à teoria de conhecimento e ao cepticismo em relação à ciência e à verdade.

Porém, o facto de “o nosso cérebro formar uma opinião” a priori (temos uma espécie de “software” no cérebro que interpreta a priori as percepções sensoriais e o mundo), por exemplo, através da intuição que é uma forma de conhecimento, não significa necessariamente a ausência da razão — porque se as coisas fossem como o José Manuel Fernandes “pinta”, ainda não teríamos saído da idade da pedra. Normalmente, as pessoas inteligentes seguem a lógica e a razão, independentemente das suas intuições a priori. Só não mudam os burros e os que não gostam de imitar os burros.


O que o José Manuel Fernandes parece não ter ainda compreendido é que a esquerda americana radicalizou de tal forma as suas posições — em todas as áreas: na económica, na ética, na moral e nos costumes — que se tornou impossível qualquer entendimento com os conservadores. Se compararmos Obama com J.F. Kennedy, por exemplo, e sendo ambos do partido democrata, podemos constatar a enorme radicalização que a esquerda americana sofreu em apenas algumas décadas; ou mesmo comparando Obama com Jimmy Carter.

O que o José Manuel Fernandes defende é o seguinte:

  • à medida em que a esquerda radicaliza, cada vez mais, e mais e mais, as suas posições políticas — a direita deve ir sempre ao seu encontro.

O José Manuel Fernandes defende, no fundo, a “esquerdização” da direita, em nome do consenso. Para o José Manuel Fernandes, é a esquerda que dita as condições do consenso que a direita deve invariavelmente aceitar. Pois bem: chegamos a um ponto de saturação em que esse consenso é impossível sob pena de todos os partidos passarem a ser da esquerda radical.

“Vários factores têm contribuído para esta evolução. O primeiro de todos é o fim do período de raro consenso político no mundo ocidental que se seguiu à queda do Muro de Berlim. De 1989 a 2008 viveu-se uma espécie de “fim da história”, no sentido em que só franjas muitos marginais das sociedades questionavam o modelo económico do capitalismo liberal. ”

A análise de José Manuel Fernandes está errada. Ao contrário do que ele diz, o marxismo não “morreu” com a queda do muro de Berlim: apenas transformou-se, transmutou-se, e eventualmente camuflou-se, assumiu novas vestimentas através do ecofascismo, do marxismo cultural do apoio às minorias contra as maiorias, no fomento do feminismo e do aborto que destrói o futuro, do homossexualismo e da guerra cultural que minou a sociedade por dentro sem deixar impressões digitais.

O José Manuel Fernandes tem razão apenas numa coisa: a esquerda radical anda com “eles” (com os “ditos cujos”) trilhados; andam com medo real pela primeira vez desde a queda do muro. A direita conservadora — e não aquela “direita cabeça-de-vento” dos meninos-do-papá-de-sucesso-cavaquistas da década de 1990 — anda activa e cada vez mais jovens aderem à ética conservadora e cristã. Por exemplo, o movimento pró-vida cresce a olhos vistos entre a juventude. Isto incomoda a esquerda; eles andam apreensivos. A juventude actual já não vai em Bloco de Esquerda: já lhes viu o cu!

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