perspectivas

Terça-feira, 4 Setembro 2012

O blogue “conservador” Corta-Fitas e “anti-touradas”

Imaginem, por absurdo, um texto do escriba do Corta-Fitas, Francisco Mota Ferreira, como segue:

«Declaração de interesses: não gosto de homófobos. Tenho muitos amigos que são homófobos, mas estamos em lados opostos da barricada; respeito-os na opção deles como eles me respeitam na minha.

Infelizmente, a homofobia em Portugal é, por enquanto, legal. Gostava que não fosse, mas é. Cabe-nos a todos nós, que não gostamos dos homófobos, apresentar argumentos, razões e factos para que a homofobia seja abolida por lei.»

Aparentemente, a homofobia nada tem a ver com touradas, mas existe entre os dois conceitos o território comum da cultura antropológica.

O Corta-Fitas é hoje um blogue de meninos bonitinhos herdeiros da cultura efeminada do CDS/PP de Paulo Portas, que entram frequentemente em dissonância cognitiva não só em relação à cultura antropológica nacional, mas também em quase tudo o que respeita à política.

Aquilo que o Francisco Mota Ferreira (por que é que os “meninos bem” e os “Tios” “da Linha” têm sempre três nomes?) gosta ou deixa de gostar; e/ou aquilo que eu gosto ou deixo de gostar — é irrelevante para a definição de cultura antropológica.

Uma cultura antropológica é um sistema complexo de valores e de tabus, e qualquer mudança nesse sistema de valores e de tabus têm consequências que podem ser negativamente decisivas para a própria sobrevivência da sociedade. Por isso é que a cultura antropológica não pode depender dos gostos privados e nem sequer daquela coisa difusa e pouco definida a que chamamos de “opinião pública” [e muito menos da opinião publicada].

Este fenómeno politicamente correcto “anti-touradas” tem a sua origem na cultura anglo-saxónica, ou seja, é um fenómeno de desnacionalização. Alguém que me prove, por exemplo, que a cultura antropológica inglesa actual é mais evoluída do que a portuguesa: façam o favor de dar largas à vossa imaginação [notem bem que a sociedade inglesa actual nem sequer é menos corrupta do que a nossa!]. O que se passa é que nós estamos a imitar os padrões da cultura inglesa e, portanto, acabamos por não ter nem a nossa cultura, nem a dos ingleses.

Se me demonstrarem que a cultura anglo-saxónica actual é melhor ou mais evoluída do que a nossa, então terei uma base racional para optar por um outro sistema de valores e de tabus — onde, por exemplo, a tourada passaria a ser um tabu traduzido na lei, e o aborto deixaria de ser tabu.

O que o Francisco Mota Ferreira tem que meter na sua cabecinha-de-vento é que uma cultura sem tabus é um círculo quadrado; e que, se determinadas tradições culturais passam a ser tabu por lei, haverá sempre a necessidade de libertar outros tabus tradicionais e torná-lo lícitos — por exemplo, a eutanásia, o aborto, o “casamento” gay, a pedofilia, etc. —, porque sem o contraste ou oposição evidente e claro entre aquilo que é lícito, por um lado, e aquilo que é ilícito (tabu), por outro lado, não pode existir qualquer tipo de cultura antropológica.

Ao contrário do que parece pensar o Francisco Mota Ferreira, (1) o “progresso” não é uma lei da natureza; (2) os gostos privados ou individuais não definem a boa saúde de uma cultura antropológica; (3) a “opinião pública”, entendida em si mesma, não é suficiente razão para alterar uma tradição cultural; (4) para que alguns tabus sejam abolidos (por exemplo, libertinização dos costumes e dos comportamentos), há sempre a necessidade de se criarem novos tabus (por exemplo, a proibição das touradas).

Finalmente: precisamos de um conservadorismo que “pegue o touro pelos cornos”, e não de uma série de meninos-bem do Estoril e “da linha” habituados a queques e ao leitinho da mamã.

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