perspectivas

Terça-feira, 4 Setembro 2012

Adam Ferguson e a decadência da sociedade civil

Filed under: ética,cultura,economia,filosofia,Política,Ut Edita — orlando braga @ 7:23 pm

Um pensador do século XVIII que é hoje relativamente desconhecido foi o escocês Adam Ferguson (1723 – 1816). Amigo de David Hume e de Adam Smith, Ferguson viveu durante algum tempo na Alemanha e, certamente, a sua obra terá sido lida por Hegel.

Sabemos que a ideia de Ferguson de “progresso da humanidade”, entendida como uma lei da natureza, não corresponde à realidade. E a sua divisão da História em três estádios — “selvajaria”, “barbárie”, e “civilização” — deixa muito a desejar porque, por exemplo, Ferguson coloca no mesmo estádio/categoria da “selvajaria” tanto as sociedades tribais primitivas de África do século XVIII, como a sociedade grega de Atenas do tempo de Sócrates, quando sabemos que foram os gregos que inventaram a ciência.

A sociedade medieval foi incluída por Ferguson na categoria histórica de “barbárie”, e a sociedade civil propriamente dito apareceu na História com a Idade Moderna e a divisão do trabalho da sociedade industrial (civilização). Porém, o paradoxo de Ferguson consiste em afirmar que ao mesmo tempo que a sociedade civil propriamente dita surgiu com a sociedade moderna, é esta última a responsável por um processo de decadência da sociedade civil.

Segundo Ferguson, a base de qualquer um dos estádios do progresso histórico é a “conservação de si” [auto-conservação], tanto dos indivíduos como da sociedade no seu todo, e a própria justiça e a interpretação do justo, desde o estádio remoto de “selvajaria”, foi o reflexo dessa necessidade de “conservação de si”. Durante a sociedade feudal e a Idade Média, diz Ferguson que embora existisse um conflito latente entre os proprietários e os não-proprietários, ricos e pobres, as oligarquias político-fundiárias e militares medievais não perderam a memória da virtude pública.

Com a criação do Estado — que surge da necessidade de equilíbrio entre as ameaças da anarquia, por um lado, e do despotismo em que “o interesse privado de um só mantém a massa na servidão”, por outro lado — e com o desenvolvimento das “artes mecânicas” [técnica] e do comércio, agudiza-se a concorrência entre as nações que reflecte uma maior incidência sobre o interesse privado e uma procura de uma “livre individualização” no seio da comunidade, aumento da livre iniciativa do indivíduo dentro de uma sociedade que se caracteriza pela divisão do trabalho e pelos fins da produtividade. Surge a sociedade civil.

A absolutização do princípio do interesse privado nessa sociedade civil funda-se sobre um mecanismo de trabalho que exerce uma força destruidora — sem precedente histórico — sobre o laço político-comunitário. Aparece uma nova cisão no seio da humanidade mediante a multiplicação inaudita das riquezas que acentua a oposição entre ricos e pobres. De um lado, estão os trabalhadores braçais embrutecidos, e do outro os senhores que cultivam o espírito e monopolizam os conhecimentos para proveito próprio.

Uns e outros, absorvidos pelas suas tarefas produtivas impostas pelo mecanismo de trabalho, perdem o sentido da virtude pública que existia tanto no estádio “selvagem” da História como no estádio de “barbárie” — uns lutando por subsistir por meio de uma profissão que é o seu gueto social, e outros deixando-se dominar pelo ganância e pela riqueza. A política deixa, então, de ser a coisa pública.

Segundo Ferguson, do progresso fundado exclusivamente sobre o interesse privado não decorre um fim feliz para a História — pelo contrário: surge uma ameaça terrível de declínio da sociedade civil, na medida em que os conflitos privados relativos ao controlo da riqueza subordinam a unidade civil transformada por uma espécie de cultura de raspadinha [o termo não é de Ferguson] e “parada de apostas”, e um meio contraditório de assegurar a “conservação de si”.

Surge a decadência que só se remedeia com o despotismo militar [Oswald Spengler seguiria, no século XX, esta tese], no qual a sociedade civil se transforma num “deserto de homens mudos” e dessocializados, porque despolitizados. Assiste-se, ao cabo deste processo, ao fim natural do dinamismo natural da sociedade civil. Caberá, então, aos homens reinventar a virtude pública, sob pena de se auto-destruírem devido a facto de se terem concentrado exclusivamente na “conservação de si” [princípio do interesse próprio], e de se terem deixado reduzir a simples agentes da maquinaria da divisão do trabalho e de produção de riquezas e de conhecimentos.

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