perspectivas

Sexta-feira, 31 Agosto 2012

O apelo à emoção e a retórica de lupanar

« Ou mais corrente ainda, desde as inúmeras situações de crueldade e violência gratuita, de que os filmes e séries televisivas nos inundam constantemente, banalizando as situações mais brutais e cruéis, embotando a nossa sensibilidade e humanidade, até à ganância mais criminosa de muitos grandes financeiros, que puseram o mundo na crise em que está e não revelam nenhum remorso pelos imenso sofrimentos que provocaram. A incapacidade de arrepiar caminho, uns e outros, mostra bem como o veneno matou de todo a consciência do mal que provocam. »

via De Rerum Natura: Da maldade de cada dia nos livrai hoje: A propósito de uma ilustração.

A dialéctica ideológica/política actual parece-se com uma refrega de bordel, em que duas lambisgóias se arrepelam e se arranham uma à outra, para afirmarem a sua ascendência em matéria de virtudes.

Quando lemos este texto (na íntegra) temos a sensação primeira de racionalidade na análise; por exemplo, toda a gente tem a noção de que as guerras são negativas e más. E misturando as guerras e a “violência gratuita”, por um lado, com “a ganância mais criminosa de muitos financeiros”, por outro lado, pretende-se apelar emocionalmente para uma conclusão. O apelo emocional [entendido apenas em si mesmo] para uma determinada conclusão é uma falácia lógica.

O grande problema de muitos textos ditos “filosóficos” — que eu próprio critiquei, por exemplo, na filosofia de Antero de Quental — é o recurso sistemático à retórica falaciosa e ao apelo emocional. A ética, fazendo parte da filosofia, não é poesia! Estamos aqui em plena “doxa” e não em “episteme”. Dou um exemplo.

Quando, durante a toda a década de 1990, a militância política de base comunitária dos Estados Unidos — por exemplo, a ACLU, de que foi militante o próprio Barack Hussein Obama — fizeram uma pressão política enorme sobre o governo americano no sentido de a Banca conceder crédito para a aquisição de habitação própria sem garantias mínimas da parte dos credores, George W. Bush fundou as duas empresas [ a Fannie Mae e a Freddie Mac] que serviram de charneira para o desastre financeiro internacional com a crise do Subprime em 2007. Se a culpa da crise do Subprime — que gerou toda esta recessão económica — foi da especulação financeira, também foi da pressão política da Esquerda no sentido de se atribuir crédito para compra de casa própria a quem não podia pagar. Vemos aqui como devemos procurar as causas dos fenómenos [episteme], e não devemos apenas ter uma opinião desprovida de nexo causal [doxa].

Portanto, o Rerum Natura parece-me, a espaços, um blogue que põe antolhos e só vê uma parte da realidade. E depois entra por uma retórica poética, floreada, apelando à emoção, no sentido de sustentar a razão de uma determinada conclusão.

Hoje vivemos numa cultura em que predomina a ideologia da raspadinha (ganância irracional generalizada) e a ideologia do espectáculo (perda de privacidade e exibicionismo generalizado).

Mas não há aqui inocentes nem virgens ofendidas: a Esquerda está metida na merda até ao pescoço — e depois vêm com este tipo de discurso cândido e angelical. Enquanto que a “direita” neoliberal branqueia capitais, a esquerda branqueia comportamentos individuais em nome de putativos novos “direitos”: uma diz “mata”, e a outra diz “esfola”. A dialéctica ideológica/política actual parece-se com uma refrega de bordel, em que duas lambisgóias se arrepelam e se arranham uma à outra, para afirmarem a sua ascendência em matéria de virtudes.

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