perspectivas

Segunda-feira, 27 Agosto 2012

O insipiente televisivo


«O insipiente de antigamente era aquele indivíduo pouco favorecido pela mãe natureza, quer do ponto de vista físico quer do ponto de vista intelectual, que costumava frequentar a tasca da aldeia, onde os seus cruéis conterrâneos lhe ofereciam bebidas para o embriagar e o levar a fazer coisas inconvenientes e ordinárias. Recordemos que nessas aldeias o insipiente tinha uma vaga ideia de que o estavam a tratar como insipiente, mas alinhava no jogo porque era uma maneira de beber à borla e porque fazia parte da sua insipiência uma certa dose de exibicionismo.

O insipiente moderno, da aldeia global que é a televisão, não é um indivíduo mediano, como o marido que aparece no ecrã a acusar a mulher de lhe ser infiel. É um indivíduo que está acima da média. Convidam-no para participar nos talk shows e nos concursos, precisamente porque é insipiente. Porém, o insipiente televisivo não é necessariamente um atrasado. Pode ser um espírito bizarro (como o descobridor da Arca Perdida ou o inventor de um novo sistema para o movimento perpétuo, que durante anos bateu à porta de todos os registos de patentes e de todos os jornais, e que finalmente encontra alguém que o leva a sério); pode ser também um escritor de trazer por casa que todos os editores se recusaram a publicar, mas que percebeu que mais eficaz do que escrever uma obra-prima, era baixar as calças em directo na televisão e dizer palavrões durante os debates culturais; ou pode ser a bas-bleu da província que encontrou finalmente um político que se dispõe a ouvi-la soletrar umas quantas palavras difíceis a propósito das suas experiências extra-sensoriais.

Antigamente, quando os clientes da tasca faziam o insipiente ultrapassar o limite do tolerável, intervinha o Presidente da Junta, o farmacêutico, um amigo da família, que agarrava no desgraçado e o levava para casa. Hoje, pelo contrário, ninguém leva o insipiente da aldeia global da televisão para casa, nem ninguém o protege, e o insipiente passa a desempenhar um papel semelhante ao do gladiador, condenado à morte para agradar à multidão. A sociedade, que protege o suicida da sua trágica decisão, ou o drogado do desejo que o iria conduzir à morte, não protege o insipiente televisivo; antes pelo contrário, encoraja-o, tal como antigamente se encorajavam os anões e as mulheres com pêlos a exibirem-se nos parques de diversões.

Neste último caso estávamos a falar de um crime, e no entanto não é a salvaguarda do insipiente o que mais me preocupa (mas devia existir uma autoridade competente para estes casos, visto que estamos a falar de abuso de incapazes): é o facto do insipiente, glorificado pela sua presença no pequeno ecrã, se estar a converter num modelo universal. Se ele conseguiu expor-se, então qualquer pessoa pode fazê-lo. A exibição do insipiente convence o público de que nada, nem sequer a mais vergonhosa das desgraças, tem o direito a permanecer na esfera do privado, e de que a exibição da deformidade compensa, premeia o seu autor. A dinâmica das audiências faz com que mal o insipiente apareça na televisão, passe a ser um insipiente famoso, e esta fama mede-se através dos convites para fazer publicidade, dos convites para festas e reuniões, às vezes até pelas ofertas de serviços sexuais (Victor Hugo já nos havia ensinado que uma bela dama pode perder a cabeça pelo Homem que Ri). O conceito de deformidade deforma-se definitivamente e tudo passa a ser bonito, até a própria malformação, desde que seja elevada à glória do pequeno ecrã.

Lembram-se das palavras da Bíblia? Dixit insipiens in corde suo: Deus non est 1. O insipiente televisivo afirma orgulhosamente: Ego sum 2


— Umberto Eco, A Perda da Privacidade.

(1) Diz o néscio, no seu coração: “Deus não existe”.

(2) “Eu sou”.

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