perspectivas

Quarta-feira, 22 Agosto 2012

Como se desconstrói uma treta em duas penadas

«Uma peça importante neste truque é a falsa distinção entre “evidências científicas” e “evidências não científicas”, como se o carácter de ser científico estivesse nas evidências em vez de estar nos processos de inferência.»

via Que Treta!: A “evidência científica”..

A inferência é o acto que consiste em admitir como verdadeira uma proposição que não é directamente conhecida como tal, e por referência a outras proposições verdadeiras com as quais está ligada. A inferência pode ser “racional” mas não enquanto “juízo lógico”: é “racional” no que diz respeito ao seu “conteúdo” — embora alguns lógicos admitam a existência formal (mediante juízo lógico) de inferências imediatas.

A definição de inferência indica, desde logo, duas realidades factuais: a primeira é a de que a verdade existe. A segunda é a que a descoberta da verdade pode ser independente do juízo lógico. Estas duas realidades factuais estão, a priori, implícitas no trecho supracitado.

Portanto, falar em ciência é (1) admitir que a verdade existe; nenhum cientista propriamente dito pode admitir que a verdade não exista, porque estaria na profissão errada. Por outro lado, falar em ciência é (2) admitir também que o conteúdo da verdade — ou o resultado da inferência — é independente do juízo lógico ou da indução que só se aplica no seu estado puro (raciocínio por recorrência) nas matemáticas.

Nas ciências em geral (com a excepção das matemática), não existe um método que lhes permita definir a indução senão como uma forma variável de generalização. Nas ciências experimentais, as “leis” ou os “princípios” que resumem os “conhecimentos” são apenas extrapolações muitas vezes assentes em analogias (inferência indutiva ou não-demonstrativa) — ou seja, a indução só é rigorosa nas ciências experimentais quando imita um modelo matemático (inferência dedutiva ou demonstrativa). Esta é uma das razões por que a matemática “vai à frente” na pesquisa da física quântica, como se verificou no caso recente do bosão de Higgs.

Em última instância, o conhecimento científico adquirido por indução é tautológico, assim como o “silogismo indutivo” de Aristóteles é tautológico — por exemplo: “o cavalo, o burro, a vaca, etc.,” não têm asas, e portanto “o cavalo, o burro, a vaca, etc.,” são todos os animais sem asas. Acontece que a ideia de “animal” já esta contida na menção do “cavalo, o burro, a vaca, etc.,”, e por isso se trata de verdadeira tautologia. E é por isso que o conhecimento científico adquirido por indução tem a sua origem na metafísica axiomática.

A questão que se coloca é a de saber se a generalização da “lei” científica — por exemplo, a generalização da lei da gravidade — é meramente convencional (de “convencionalismo”, segundo a noção de “paradigma” de Thomas Kuhn) e/ou se corresponde às exigências da estrutura do intelecto humano (Kant e Karl Popper).

Resumindo: a inferência é dedutiva ou demonstrativa quando a conclusão é logicamente necessária (matemática). E é indutiva ou não-demonstrativa (indução) quando a conclusão não é mais do que provável ou verosimilhante (por exemplo: eu infiro a presença de um gato se ouço miar).

Por isso, afirmar que a ciência detém a única verdade, quando a inferência indutiva que está presente no método empírico das ciências experimentais em geral, é apenas provável ou verosimilhante, é um absurdo. Estamos em presença de um mito antropológico do nosso Zeitgeist e de um dogma cientificista. Estamos em presença de uma religião imanente e espiritualmente embotada. A ciência, vista deste modo, transforma-se em uma religião negativa: é uma grande treta!

( H/T )

Adenda: se “o tretas” não percebeu o que eu escrevi aqui, consulte um professor de filosofia da sua universidade antes de “arrotar postas de pescada”.

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