perspectivas

Terça-feira, 14 Agosto 2012

Para onde vai o Bloco de Esquerda ?

Filed under: Política,Ut Edita — orlando braga @ 11:19 am
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Ainda acerca da proposta de lei do Bloco de Esquerda para a legalização do consumo de drogas.

Li nos me®dia que o Bloco de Esquerda tenciona reformular a sua liderança — fala-se em liderança bicéfala — e provavelmente a sua linha ideológica. Como se sabe, o Bloco de Esquerda é uma mistura de várias tendências políticas radicais, que vão desde o maoísmo, ao marxismo cultural da Escola de Frankfurt, até à tendência maioritária trotskista até agora protagonizada pela própria liderança do partido através de Francisco Louçã.

O relativo sucesso do Bloco de Esquerda na década de 2000 deve-se a vários factores — entre eles, ao relativo enriquecimento (fictício, como se vê agora!) da sociedade portuguesa; quanto mais rica é uma sociedade, mais materialista se torna —; mas deve-se sobretudo a uma sobreposição ideológica que se caracterizou na manutenção deliberada da tendência marxista tradicional da luta de classes do partido em um aparente segundo plano, fazendo sobressair ao público, por razões estratégicas, a tendência marxista cultural da sua segunda fase. Surgiu daqui uma estratégia política mista e mesmo contraditória: por um lado, o Bloco de Esquerda não abandonou a luta do proletariado (trotskismo e Escola de Frankfurt primordial), e por outro lado elegeu a guerra cultural (marxismo cultural da segunda fase e da Teoria Crítica) como a face visível da sua estratégia de expansão da sua influência na nossa sociedade.

Entretanto veio a crise, e como era de esperar, a influência política do Bloco de Esquerda encolheu. A crise gerou a crise do Bloco de Esquerda.


O chamado marxismo cultural, oriundo da Escola de Frankfurt, teve essencialmente três fases:

  • a primeira fase, até sensivelmente 1940 e que se caracterizou pela crítica à URSS de Estaline, não abandonou os princípios da luta de classes e da eleição do proletariado como classe revolucionária. Esta fase é caracterizada pela adopção do racionalismo de Hegel — “o real é racional” — e da sua dialéctica transposta por Karl Marx.
  • A partir dos anos 40 grosso modo, com o fracasso do movimento operário a nível internacional, o surgimento da cultura de massa, e sobretudo com o advento do nazismo, o protagonistas principais da Escola de Frankfurt [por exemplo, Adorno] perdem a esperança quer na força revolucionária do proletariado, quer na capacidade de emancipação [intelectual] da própria razão. Esta segunda fase é caracterizada pela Teoria Crítica. A razão já não constitui uma solução para as patologias da sociedade moderna: antes, a razão é a própria causa da doença moderna [“A Dialéctica da Razão”, Adorno, 1974]. A doença moderna resulta da própria dinâmica da razão como expressão do domínio da natureza e dos outros. A ocidente, a cultura de massa; e a oriente, o Estado total da burocracia bolchevique, constituem as duas faces de uma mesma realidade. As Luzes fracassaram. A razão transformou-se em utopia. O resultado desta postura foi a negação de qualquer vestígio de racionalidade das instituições políticas [“a razão sem lugar”].
  • A terceira fase é essencialmente Habermas. É não só o retorno a Hegel, mas também e sobretudo o retorno ao racionalismo de Kant e às Luzes. É a introdução do “modelo discursivo” e a aceitação da democracia burguesa enquadrada nesse modelo discursivo.

[Habermas faz parte das três tendências da esquerda contemporânea; as outras duas são o americano Rawls e sucedâneos ideológicos, e a escola francesa com, por exemplo, Claude Lefort.]


Em termos de prática política, o Bloco de Esquerda sempre recusou adoptar o modelo discursivo de Habermas que, paradoxalmente ou não, foi adoptado pela ala “moderada” do Partido Socialista e mesmo pelo Partido Social Democrata. Por exemplo, o programa de televisão “Prós e Contras”, apresentado pela Fátima Campos Ferreira, insere-se no modelo de Habermas de “dialéctica da esfera pública”. Entretanto, o Partido Socialista sofreu uma infiltração da tendência irracionalista do marxismo cultural [da segunda fase], nomeadamente através de gente como Isabel Moreira que incorpora as fileiras da ala radical do Partido Socialista, e de que faz parte a juventude socialista.

O Bloco de Esquerda permaneceu na segunda fase do marxismo cultural — a fase da Teoria Crítica —, fazendo da recusa da razão, da manipulação política da ciência, e da irracionalidade política, a sua razão de ser, e tentando impor a sua irracionalidade a toda a sociedade. Vem daí a actual proposta de lei de legalização do consumo e comércio de drogas. A adopção aberta e franca do modelo discursivo de Habermas, por parte do Bloco de Esquerda, significaria um haraquiri político, na medida em que esse espaço político está já tomado pelo Partido Socialista “moderado” e pelo Partido Social Democrata — e por isso é que estes últimos dois partidos são de esquerda.

Por outro lado, a manutenção do Bloco de Esquerda na segunda fase ideológica do marxismo cultural é “chão que deu uvas” — como podemos ver nas sondagens. Por isso, é provável que o Bloco de Esquerda adopte uma linha política mais consentânea com trotskismo e assente a sua acção na tradicional luta de classes, fazendo concorrência directa ao Partido Comunista.

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3 Comentários »

  1. Eis aqui mais uma prova que o marxismo cultural da segunda fase e a plutocracia se protegem mutuamente. Quanto mais gente viver na indigência física e mental, melhor para a plutocracia.
    O bloco de esquerda é o partido que dá em permanência “tiros na cabeça”, fazendo o serviçinho que os plutocratas desejam mas não podem fazer directamente. São os “bobinhos da corte”, incoerentes até mais não e absolutamente convictos dos seus pontos de vista.

    Esta é mais uma prova de que o marxismo cultural tem o poder de se desdobrar e aliar-se a “resquícios filosóficos” provocando as diversas fases do marxismo cultural. Penso que novas fases podem surgir; de deturpação em deturpação, o marxismo nunca foi uma ideologia inocente, possuía desde logo o poder de desestabilizar as estruturas mundiais. Para o marxismo cultural não evoluir para a próxima fase, seria necessário um regresso do conservadorismo tal como o que o Orlando defende. É sabido que uma posição dessas desafia largamente as crenças do mundo actual, e o mundo actual não está preparado para lidar com um novo paradigma (que não é novo, sempre existiu).
    Ser-se conservador nos dias de hoje implica um retorno ao que durante três séculos e meio foi sendo progressivamente eliminado e destituído de valor.

    Voltar para trás é tarefa impossível para esta humanidade (pelo menos para uma boa parte). Só nos resta perseverar, não sou fatalista nem apocalíptico, longe disso, mas quer me parecer que ou aparece “uma vaga de fundo” que discipline os intelectos ou então essa “vaga de fundo” manifestar-se-á pela pior via, a da violência e da guerra.

    Comentário por Filipe Crisóstomo (@Skedsen) — Terça-feira, 14 Agosto 2012 @ 1:59 pm | Responder

    • Nem de propósito, num dos próximos postais irei falar da chamada “esquerda moderada” europeia — que de moderada só tem o nome —, a mesma esquerda que comanda os destinos da Inglaterra mesmo com Cameron no poder; a mesma que já tomou conta do partido CDU de Angela Merkel [falta convencer o partido bávaro CSU, que continua reaccionário]; a mesma esquerda que minou Sarkozy e a UMP; etc..

      A Europa vive cada vez mais sob a égide de um pensamento que tende a ser único.

      Comentário por O. Braga — Terça-feira, 14 Agosto 2012 @ 3:20 pm | Responder

    • “Ser-se conservador nos dias de hoje implica um retorno ao que durante três séculos e meio foi sendo progressivamente eliminado e destituído de valor.”

      Ser conservador é (também) viver fora da dialéctica hegeliana [e marxista]. Isso é possível se compreendermos por que o princípio do movimento triádico hegeliano é redutor e simplista.

      Comentário por O. Braga — Terça-feira, 14 Agosto 2012 @ 3:30 pm | Responder


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