«Os movimentos culturais dos anos cinquenta e sessenta no Ocidente fizeram algum sentido ao por em causa poderes e instituições demasiadamente rígidas e tendencialmente hipócritas.»
A alternativa à censura cultural e comportamental “tendencialmente hipócrita”, é a hipocrisia total consumada mediante a censura do pensamento.
A não-esquerda tende a ver a esquerda como um movimento de idiotas bem-intencionados e de irresponsáveis que não sabem o que andam a fazer. Contudo, basta constatarmos a coincidência de pontos-de-vista existente entre a esquerda, por um lado, e George Soros & Plutocracia Lda., por outro lado, para verificarmos que as idiotices do Bloco de Esquerda e da ala radical do Partido Socialista nada têm de idiota.
A esquerda dispõe de intelectuais orgânicos que programam a sua agenda política a décadas de distância. Por exemplo, o conceito político e ideológico de “terceira-via” foi gizado em princípios da década de 1950 pelo intelectual marxista heterodoxo Merleau-Ponty, com o intuito de sublimar e branquear politicamente os excessos de Estaline; e foi preciso que o muro de Berlim caísse para que, já na década de 1990, Tony Blair e quejandos lançassem a ideia de “terceira-via”, como se de uma novidade se tratasse. Aquilo que aos olhos do povo era uma “coisa nova”, já tinha pelo menos 40 anos de idade.
E, no entanto, a não-esquerda teima em subestimar o radicalismo de esquerda; teima em dizer que o esquerdalho é apenas um bando de irresponsáveis com um comportamento errático, uma cambada de inimputáveis que deveria ser interditada. Todos estes atributos podem até ser verdadeiros, mas também é verdade que o movimento revolucionário obedece a um plano que não é, de todo, errático. Se é verdade que os planos existem para falharem, também é verdade que existem para que se falhe o menos possível.
Ao contrário da esquerda, a direita não tem praticamente intelectuais orgânicos; e aqueles poucos que existem são considerados pela esquerda e pela não-esquerda como sendo lunáticos de extrema-direita e fascistas; e racistas; e homófobos; etc., o que significa que a não-esquerda é apenas uma esquerda em estado de negação: são os “independentes de direita” que, parafraseando Lenine, “são os idiotas úteis de esquerda”; são de esquerda sem terem plena consciência disso.
— Edgar Morin, ex-militante do Partido Comunista Francês
A ideia segundo a qual é possível erradicar do mundo uma sociedade tendencialmente hipócrita, é absurda, e é um conceito ideológico de esquerda que se baseia na ética intencionalista neoplatónica [utopia].
Aqui, Santo Agostinho e os franciscanos medievais têm alguma culpa no cartório. E o povo, sabiamente, diz que “de boas intenções está o inferno cheio”, o que denota a força que o senso-comum pode ter no combate contra a utopia.
O senso-comum diz-nos que o cidadão deve ser avaliado — e julgado — pelos seus actos concretos e objectivos, e não por aquilo que se pressupõe ser hipotética e eventualmente a sua intenção na acção.
Não podemos entrar na subjectividade dos outros. E a alternativa a uma qualquer sociedade “tendencialmente hipócrita”, é uma sociedade totalmente hipócrita em que se julgam as pessoas pelas suas alegadas e putativas intenções, e não pelas consequências práticas dos seus actos.
A alternativa à censura cultural e comportamental “tendencialmente hipócrita”, é a hipocrisia total consumada mediante a censura do pensamento.















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