perspectivas

Quinta-feira, 9 Agosto 2012

O complexo do troglodita e “a velhice do eterno novo”

Filed under: A vida custa,filosofia,Sociedade,Ut Edita — orlando braga @ 6:25 am
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Confunde-se inovação com a negação do conservadorismo. Confunde-se conservadorismo com arcaísmo. Lavra-se num erro fundamental, porque não existe tal coisa de “inovadores-para-melhor”. Inovação-para-melhor é uma ilusão. O que existe é inovadores-para-diferente.

O que pode ser melhor ou pior não é a inovação em si, mas antes é a forma como os homens, já em um estágio histórico de pós-inovação, lidam com a realidade. Elsa Triolet traduz exactamente o que se passa quando diz: “O futuro não é a melhoria do presente: é outra coisa”. De modo semelhante, o presente não é a melhoria do passado: é outra coisa.

O que faz com que o presente possa eventualmente ser melhor do que o passado são as ideias e a acção concreta dos indivíduos, e principalmente das elites, face à mudança; e aqui entra em jogo um factor transcendente à própria História — a existência de determinados indivíduos, em determinadas épocas da História, com as suas características e idiossincrasias, e não de outros indivíduos diferentes daqueles — e que está totalmente fora do controlo do ser humano. A História faz parte do Mistério.

A noção de que existem — ou de que possam existir — inovadores-para-melhor, transporta consigo a ideia errada do “progresso” como lei da natureza. Dou como exemplo Albert Einstein. Foi ele um inovador-para-melhor? Não, propriamente. Hiroxima fala por si. Foi ele um inovador-para-pior? Também não. Descortinar a verdade do universo não é um mal em si mesmo. O que pode fazer de Einstein um inovador-para-melhor ou um inovador-para-pior é a acção dos indivíduos e das elites do novo Zeitgeist. E é essa existência desses indivíduos em concreto que transcende a própria História, e que a coloca totalmente fora do controlo da condição humana.

A noção segundo a qual existem inovadores-para-melhor ou inovadores-para-pior traduz uma ideia determinística da História; transporta consigo uma mistura da noção de facticidade do existencialismo [por exemplo, Heidegger, mas que já vem de longe, na História] e da noção da sociedade e do processo histórico como um organismo biológico [por exemplo, Spencer ou Spengler].


John Stuart Mill reconheceu que os valores permanecem apesar da mudança. Por exemplo, quando reconhece no “Sistema da Lógica” [1843] que existem prazeres — que implicam valores — que valem, por sua própria natureza, mais do que outros, e que sempre assim foi e sempre assim será. Vemos aqui uma putativa atitude “conservadora” de Mill. Alguma da crítica que se faz por aí a Stuart Mill é bastante injusta, porque, em muitas áreas de pensamento, Stuart Mill aproxima-se muito de Tocqueville, por exemplo.

O “Argumento de Colombo”, de Stuart Mill, insere-se em um determinado contexto que não pode ser relegado para segundo plano: no contexto da sua tese contra a tirania mortiça da opinião única [que é o que existe hoje com o politicamente correcto; se Stuart Mill existisse hoje, provavelmente seria politicamente incorrecto e um conservador].

Stuart Mill era contra a tirania da opinião única e politicamente correcta imposta pelas elites, e a inovação era tida, neste contexto, como o dever de escutar e analisar outras ideias recusadas a priori pelo Establishment político. A verdade é que um conservador, nos tempos que correm é, cada vez mais, um excêntrico; e Stuart Mill talvez fosse hoje um conservador. E, neste sentido, o “Argumento de Colombo” vira-se hoje contra o próprio Stuart Mill.

“Onde a originalidade não é da essência da mente, como no jornalismo e na política, a originalidade não existe: o mimetismo é inteiro e absoluto. Desde que há teorias democráticas e republicanas em Portugal, estamos copiando como macacos as teorias estrangeiras. Nada nos muda, nada nos ensina.” — Fernando Pessoa, “Sobre Métodos”

Quem diria que Fernando Pessoa fosse um conservador?!

O problema dos conservadores não é, nem nunca foi, o “Argumento de Colombo” — porque ele pode ser facilmente adaptado e aplicável a cada época da História —, mas antes é “o complexo do troglodita”. O conservador típico embarca facilmente na falácia ad Novitatem do progresso como lei da natureza, e por isso aceita facilmente, a nível do inconsciente, a tese revolucionária segundo a qual a mudança implica necessariamente não só a alteração da hierarquia de valores, como até a abolição de alguns valores — e é nisto que consiste basicamente o “complexo do troglodita” que atormenta o conservador típico.

Por fim. É um absurdo incluir personalidades históricas como Jesus Cristo ou Buda no rol dos inovadores-para-melhor, colocando-os no mesmo nível de Galileu ou Giordano Bruno, porque individualidades como Jesus Cristo ou o Buda não foram meros inovadores: ele revelaram novos valores que a humanidade desconhecia! Uma coisa é inovar — que muitas vezes não é outra coisa senão um retorno ao passado com outras roupagens, como aconteceu com o Renascimento, que se traduz no conceito pessoano de “velhice do eterno novo” —, e outra coisa bem diferente é revelar valores fundamentais e universais desconhecidos anteriormente.

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