perspectivas

Terça-feira, 7 Agosto 2012

A noção dialéctica hegeliana de “mudança”, e a filosofia quântica

O que é a mudança?

Normalmente, a mudança é entendida à luz da dialéctica de Hegel que descambou no materialismo dialéctico. Quando falamos hoje em mudança, vem-nos à mente, e de forma mais ou menos inconsciente, o movimento triádico criado por Hegel de tese, antítese e síntese, como três compassos necessários à valsa fatídica e determinística da História.

Hegel parte do princípio — e/ou chega à conclusão — de que o Todo é o resultado da soma das Partes, e é neste princípio [errado!] que assenta a dialéctica de Hegel.

1) Tomemos, por exemplo, dois electrões [idênticos; os electrões são quase sempre idênticos]: o electrão 1, e o electrão 2. Os dois electrões são lançados a partir de uma mesma fonte em direcções opostas: o electrão 1 para a esquerda, e o electrão 2 para a direita.

2) Cada um dos dois electrões é caracterizado pelo seu estado interno [vector de estado], seja (a) ou (b); e também pela sua localização [ a localização diferenciada de ambos os electrões ]. No caso deste exemplo, partamos do princípio segundo o qual ambos os electrões não podem estar no mesmo estado interno; ou seja, se o electrão 1 está no estado (a), então segue-se que o electrão 2 está no estado (b), e vice-versa.

3) Vamos representar o vector de estado — também conhecido como Função Ondulatória Quântica — com o símbolo Ψ.

4) Podemos então deduzir que Ψ 1 (a) representa o electrão 1 no estado (a), e que Ψ 2 (b) representa o electrão 2 no estado (b). Isto significa que o vector de estado do par de electrões é o seguinte:

Ψ 12 = Ψ 1 (a) * Ψ 2 (b)

Esta função significa que o electrão 1 está no estado (a), e o electrão 2 está no estado (b).

5) Mas se for o caso oposto, então o vector de estado do par de electrões será:

Ψ 21 = Ψ 2 (a) * Ψ 1 (b)

6) O verdadeiro problema coloca-se agora, porque não sabemos, a priori, qual das duas situações é a que existe realmente — se a situação expressa no ponto 4, ou se a situação expressa no ponto 5. O máximo que podemos dizer é que a probabilidade de acontecer uma ou outra situação é equivalente. Decorre desta dificuldade a necessidade lógica e objectiva de refazer as duas funções supracitadas, como segue:

Ψ par = Ψ 12 + Ψ 21

Neste vector de estado Ψ par, não podemos já separar o que pertence ao electrão 1 e o que pertence ao electrão 2. O vector de estado Ψ par não é decomponível em factores: é constituído por uma soma irredutível!

7) A partir do momento em que chegamos à conclusão objectiva segundo a qual o Ψ par é constituído por uma soma irredutível, isto significa que o par de electrões, entendidos enquanto par, “viajam” em estado de onda quântica e, portanto, ou com massa residual ou mesmo sem massa ["correlações quânticas"]. Em tese, Ψ par não é matéria propriamente dita, e opera no “espaço abstracto” [que é eufemismo simbólico da matemática formal para uma noção que o materialismo não consegue entender; é parecido, por exemplo, com a noção tradicional de “infinito”].

8) Segue-se, portanto, que o conhecimento de apenas Ψ par não permite conhecer o estado individual de cada um dos electrões do par — porque não sabemos dizer, por exemplo, se é o electrão 1 ou o electrão 2 que está no estado (a). Estamos, portanto, numa situação em que a descrição do Todo (o par, ou Ψ par) já não implica a descrição das suas partes (os electrões que compõem o par).

A descrição de exacta das partes Ψ par, ou seja, a descrição exacta dos vectores de estado Ψ 12 e Ψ 21 considerados isoladamente, não considera a possibilidade de existirem “correlações quânticas” dentro do par.

Corolário: de uma forma objectiva podemos afirmar que o Todo não é produto da soma das Partes! E mais: o conhecimento das Partes não determina o Todo!

Seria loucura alguém dizer que a realidade quântica — ou seja, aquilo que se passa no mundo quântico — não tem influência nenhuma na realidade macroscópica — ou seja, o mundo dos nossos sentidos e da nossa percepção.

Portanto, podemos dizer que o movimento real da mudança não é seguramente triádico como defendeu Hegel [e Karl Marx], mas antes será, no mínimo, quaternário: existe, pelo menos, mais um quarto componente da mudança que não depende das partes envolvidas no processo de mudança, o que significa que o Todo é mais do que mera relação entre as Partes envolvidas no processo de mudança.

A “mudança” não é uma valsa triádica: antes, pode ser eventualmente um tango quaternário!

E na medida em que “o Todo é mais do que mera relação entre as Partes”, qualquer relação lógica necessária estabelecida entre “mudança”, por um lado, e “valores”, por outro lado, torna-se absurda.

Adenda: a imagem supra foi recolhida no Facebook.

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4 Comentários »

  1. Cara, acho que não é bem por aí! Primeiro que Hegel jamais defendeu essa separação da dialética em três partes que você fala aí. Isso é coisa de intérpretes posteriores. O Hegel diz que a própria dialética é o resultado da visão de entendimento, que divide em partes o absoluto. Segundo que a física quântica tem muito pouco a ver com essa história. Tem indiretamente, porque demonstra na prática (nos fenômenos sensíveis que são estudados pela física) o que o Hegel já disse na teoria, 200 anos atrás: a visão da ciência tende ao infinito, pretende decompor a matéria em partes para mostrar que ela é só matéria (um isto sensível), ou seja, que o todo é decomponível em partes (algo a que o Hegel é inteiramente contra, ele é o filósofo que postula a contradição como princípio lógico da realidade!). A impossibilidade de levar essa tarefa a cabo dá origem ao sentido de força, de um ente de razão que é na verdade (para a consciência) o fundamento material da matéria, sem que possa ser localizado na matéria (no espaço e no tempo). Isso é, mais do que Newton, Hume (força oculta), depois Kant (coisa em si) e o Iluminismo de modo geral. É o Hegel que diz que esse ente de razão é a contradição em si, a ideia de mau infinito. Tudo isso muito antes da física quântica, que procura dar uma solução material para esse problema lógico criando um novo ente de razão (força): ondulação quântica, que representa a impossibilidade de determinar a localização sensível (espaço e tempo) de elétrons. É o que a ciência está condenada eternamente a fazer. Mas nada mais é do que uma impossibilidade material, fruto da relação entre elétrons e fótons. Note que Kant já dizia há muito tempo atrás que o espaço e o tempo são somente formas a priori da intuição sensível. Ponto para o Kant e para a filosofia alemã.

    Comentário por Rafael Teixeira — Segunda-feira, 17 Junho 2013 @ 9:21 pm | Responder

    • A dialéctica, segundo Hegel, é a penetração da verdade pelo (e no) espírito. O espírito passa de uma ideia à ideia contraditória, e deste movimento nasce a síntese que “suprime absorvendo-a” (citação de Hegel) a contradição, e assim sucessivamente até ao regresso do espírito a si mesmo. Hegel identifica o movimento do espírito ao movimento do Mundo, e de forma a que a sua lógica tende a definir-se como um saber circular.

      A sua tese acerca de Hegel está em contradição com todos os professores de filosofia do mundo, e por isso você deve ser um génio! Parabéns pela sua genialidade! Volte sempre!

      Quanto à física quântica, não vou discutir consigo porque você é um génio em quântica. Por exemplo, fiquei a saber que a onda quântica tem massa, e por isso, é matéria. E, por outro lado, eu não sabia que a matéria é só matéria: pensava que a matéria não era só matéria.

      Comentário por O. Braga — Segunda-feira, 17 Junho 2013 @ 9:39 pm | Responder

  2. Você me leu mal. Primeiro: não é verdade que “minha tese” está em contradição com todos os “professores de filosofia do mundo”. Primeiro que não é uma tese, o Hegel é muito claro sobre isso: leia a distinção entre a dialética e o especulativo na primeira parte do primeiro livro (lógica) da Enciclopédia das Ciências Filosóficas (§§81-82). A dialética é o momento negativamente racional, que é o fundamento do ceticismo e do progresso da ciência. Por isso para um cientista nós não podemos determinar a localização de um elétron em uma onda quântica, mas esses elétrons existem. Nunca disse que eles são matéria ou que possuem massa. Pelo contrário: para a ciência, não são matéria mas estão lá (no isto sensível, no mundo que se opõe à consciência de si). Para Hegel, a “onda quântica” não passa de um conceito da razão, que a razão chama de força por ser uma coisa em si (não produzida pela consciência). O Hegel na verdade critica a redução da dialética à tríade: “Não se pode, de modo algum, considerar como científico o uso daquela forma triádica, onde a vemos reduzida a um esquema sem vida, a um verdadeiro fantasma. A organização científica está aí reduzida a uma tabela” (prefácio à FE, §50). Claro que o Hegel nunca ouviu falar em onda quântica, mas já tinha consciência desse eterno paradoxo das ciências da natureza. A ciência cria uma nova forma da matéria, porque recai numa antinomia da razão (Kant), o espaço é finito mas é decomponível em infinitas partes. Por isso a matéria deixa de ser chamada de matéria e passa a ser chamada de energia. Enfim, na verdade o Aristóteles já disse isso muito antes do Hegel. Não sou gênio não, só acho que é preciso ter respeito a esses grandes autores. Eles sim são gênios e merecem ser respeitados.

    Comentário por Rafael Teixeira — Terça-feira, 18 Junho 2013 @ 8:46 pm | Responder

    • O seu discurso melhorou um pouco, mas precisa de melhorar mais.

      1/ você parece estar a confundir Hegel com Kant, porque quem delimitou a finitude do saber humano e, portanto, os limites negativos do conhecimento e da ciência, foi Kant, e não Hegel. Para Hegel, a dialéctica não é um método, mas antes é o processo de auto-produção do verdadeiro SABER ABSOLUTO (isto não tem nada a ver com ciência, propriamente dita) a partir de contradições superadas.

      2/
      ¿ Como é que você traduz, em linguagem corrente, o conceito de Hegel de “Aufhebung”?

      O conceito de “Aufhebung” é hegeliano e não tem uma tradução directa em português. Faça-me o favor de explicar o que significa, para Hegel, o conceito de “Aufhebung”.

      3/ você precisa de simplificar a sua linguagem e torná-la mais inteligível. Não é por você complicar o seu discurso e utilizar um gongorismo palavroso e abstracto, que passa a ter razão.

      Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 19 Junho 2013 @ 5:17 am | Responder


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