perspectivas

Sábado, 4 Agosto 2012

A filosofia irracional e contraditória de Espinoza

Filed under: filosofia,Geral — O. Braga @ 6:43 pm
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“Uma pedra lançada ao ar, se pudesse tornar-se consciente como um ser humano, imaginaria que se movia por sua própria vontade, embora isso não fosse verdade.”

via O determinismo de Espinosa.

Esta história supra, acerca do determinismo de Espinoza, está mal contada. A filosofia de Espinoza é contraditória na sua essência — no seu âmago —, para além de podermos, mais ou menos subjectivamente, considerar que os princípios de que partiu Espinoza para montar todo o seu esquema de pensamento, estão errados. E se os princípios estão errados, a teoria está errada.

Atentemos a três pontos-chave:

1) as concepções da ética e do direito natural de Espinoza entroncam em Hobbes.

2) as premissas metafisicas de Espinoza, entendidas hoje à luz da filosofia quântica, estão erradas.

3) o conceito de liberdade total do indivíduo, segundo o direito natural de Espinoza, por um lado; e o seu [dele] conceito ético de determinismo do indivíduo, por outro lado, são essencial e profundamente contraditórios.


“Ensinar filosofia” é pôr as pessoas a pensar, e não relativizar as ideias. Relativizando as ideias, apresentando-as tal qual são e saídas do punho do filósofo, e sem aditamento crítico, presta-se um péssimo serviço à filosofia — a filosofia passa a ser uma amálgama ideológica ininteligível.


a) O poder que está subjacente às coisas naturais — segundo Espinoza — que estão necessariamente destinadas a existir e a agir, é o próprio poder de Deus. Ou seja, no caso do Homem, o seu poder de agir é parte integrante e intrínseca do próprio poder de Deus. O esforço [aquilo a que Espinoza chamou de “conatus”] pelo qual todas as coisas — incluindo o Homem — se alimentam no seu ser e na sua existência, é a expressão directa do poder de Deus, como se da mesma coisa se tratasse.

b) Deus é absolutamente livre — e continuo a resumir o pensamento de Espinoza —; porém, é livre segundo uma necessidade interior do próprio Deus, sem que, todavia, nada O constranja a agir. Ou seja, a liberdade é a própria essência de Deus. E como vimos, na alínea a), o ser humano é a própria expressão do poder de Deus.

c) Deus possui um direito absoluto sobre todas as coisas [aqui, Espinoza é semelhante a Locke, e a Pufendorf, nomeadamente].
Por isso — continua Espinoza — todas as coisas, incluindo o ser humano, têm o direito de se afirmar livremente e absolutamente sem quaisquer restrições [aqui, Espinoza entronca em Hobbes]. A única interdição para a acção do ser humano é aquilo que objectivamente ele não pode fazer por sua própria incapacidade [ausência de censura e de tabus = Hobbes].

d) a liberdade absoluta do ser humano, — diz Espinoza — tanto se aplica ao sábio como ao idiota. O estúpido, segundo ele, é também livre de ser estúpido e de alardear publicamente a sua estupidez sem qualquer tipo de censura.

e) o Direito não se define pela razão — diz, sabiamente, Espinoza: antes, o direito é definido pelo desejo entendido como soberano absoluto da conduta humana [Hobbes].
Não há diferença entre desejos racionais, por um lado, e qualquer outro tipo de desejo, por outro lado [diz Espinoza, e não eu!] — aqui, Espinoza vai contra Pufendorf e entronca, mais uma vez, em Hobbes.

f) segundo Espinoza, o Bem é relativo aos efeitos das coisas sobre o poder humano [Hobbes]. Ou seja, aquilo que satisfaz qualquer tipo de desejo deve ser sempre, e em qualquer circunstância, considerado útil [Hobbes, e mais tarde, no século XIX, os marginalistas, Carl Menger et al].

h) para tentar salvar a sua irracionalidade teórica, Espinoza adopta parcialmente S. Tomás de Aquino: o ser humano deve viver sob o signo da conservação, e desenvolver a sua própria razão pelo [mediante o] conhecimento.

Corolário: existe uma profunda contradição entre a teoria do direito de Espinoza, por um lado, e a sua ética, por outro lado. Existe em Espinoza uma esquizofrenia ideológica que escapa a muita gente. E é isto que tem que ser explicado aos alunos de filosofia.


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