Quando o muro de Berlim caiu em 1989, houve quem defendesse a manutenção da RDA [Alemanha comunista] como país independente da RFA [Alemanha federal], embora no caminho para a democracia representativa; e outros defenderam a integração da RDA na Alemanha federal; ganharam os adeptos da integração.
Estas duas concessões da Europa em relação à Alemanha conduziram paulatinamente a uma nova versão “Deutschland Über Alles”. Os alemães estão hoje convencidos de que sofrerão pouco ou mesmo nada com a desintegração do Euro. Mas o problema é que os outros países da Europa não esquecem tão cedo: e não falo só dos países periféricos da Europa: incluo na lista, por exemplo, a Itália, a Inglaterra, e mesmo a França. Os países de leste, como a Polónia, manterão o seu ódio de estimação histórico em relação à Alemanha. Em tese, numa Europa pós-Euro, a Alemanha só vai encontrar alianças políticas estreitas com os países do BENELUX, e provavelmente na república checa. Nem a Dinamarca se incluirá nos países “íntimos” da Alemanha pós-Euro.
Aquilo que poderia ser um projecto racional de construção europeia — sem o Euro antes da política —, poderá transformar-se, primeiro, numa guerra comercial entre países europeus, com bloqueios comerciais mais ou menos velados, fim de Schengen, guerras civis mais ou menos intensas e declaradas [Espanha, por exemplo, onde a Catalunha já pede autonomia total na cobrança de impostos e a formação de um Ministério das Finanças catalão]. Em países como a Grécia ou a Espanha, por exemplo, a probabilidade de instalação de uma ditadura passa a não ser pequena; a esquerda usou e abusou do liberalismo político como se não houvesse amanhã, e será, então, chegada a hora de ajustar contas com a História recente.
A construção europeia nunca poderia ter suposto uma federação política. Foi um erro crasso. O máximo que seria viável poderia ser uma confederação. Mas todas as instituições e a elite política europeias assumiram claramente a Federação — como podemos ver com a assinatura do Tratado De Lisboa, que é essencialmente político e tende à construção de um leviatão.
Uma confederação pressupõe independência e o respeito pelas soberanias dos países ou regiões confederadas — por exemplo, a Suíça: neste país, a moeda surgiu depois da confederação, e esta pressupõe autonomia legislativa das regiões em quase tudo excepto na política externa. O governo suíço não impõe, por exemplo, — de uma forma pressionante e autoritarista — às suas regiões confederadas o aborto ou o “casamento” gay, como a União Europeia de Durão Barroso está a fazer em relação aos países da União Europeia. O governo central suíço manda muito pouco em cada uma das suas regiões confederadas, enquanto que Bruxelas — isto é, a Alemanha — já manda demais em todos os países da União Europeia.
Só depois de se terem estabelecido as bases de uma confederação é que se poderia pensar no Euro. Sem uma confederação, mais valia que estivéssemos quietos e continuássemos com o Escudo indexado ao ECU e flutuando na banda-limite de 3%.
Agora, meus amigos, não vejo solução. Se calhar há uma solução; só que eu não a vejo. E, como dizia, recentemente, um diplomata alemão na cimeira de Aix-en-Provence — o que reflecte bem a estupidez alemã — , “se não há solução então não há problema”.














