perspectivas

Segunda-feira, 16 Julho 2012

O Relativismo Activo do “Livro do Desassossego”

«O meu hábito vital de descrença em tudo, especialmente no instintivo, e a minha atitude natural de insinceridade, são a negação de obstáculos em que eu faço isto constantemente.

No fundo, o que acontece é que eu faço dos outros o meu sonho, dobrando-me às opiniões deles para, expandindo-as pelo meu raciocínio e a minha intuição, as tornar minhas e (eu, não tendo opinião, posso ter a deles, como quaisquer outras) para as dobrar a meu gosto e fazer das suas personalidades coisas aparentadas com os meus sonhos.

De tal modo anteponho o sonho à vida que consigo, no trato verbal (outro não tenho), continuar sonhando, e persistir, através das opiniões alheias e dos sentimentos dos outros, na linha fluída da vida individualmente amorfa.

Cada outro é um canal ou uma calha por onde a água do mar só corre a gosto deles, marcado, com as cintilações da água ao sol, o curso turvo da sua orientação mais realmente do que a secura deles o poderia fazer.

Parecendo, às vezes, à minha análise rápida parasitar os outros, na realidade o que acontece é que os obrigo a ser parasitas da minha posterior emoção. Hábito de viver as cascas das suas individualidades. Decalco as suas passadas em argila do meu espírito e assim mais do que eles, tomando-as para dentro da minha consciência, eu tenho dado os seus passos e andando no seu caminho».

— “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares [aka, Fernando Pessoa]

Quando lemos o “Livro do Desassossego” devemos fazê-lo analiticamente, de outra forma correndo o risco de entrarmos em depressão psíquica. Das duas uma: ou não compreendemos minimamente o que está lá escrito — o que é óptimo para uma mente sadia —, ou compreendendo alguma coisa teremos sempre que manter um espírito crítico e impessoal, semelhante ao do médico que analisa cientificamente uma metástase.

No “Livro do Desassossego” transparecem ideias que são genuinamente do autor; outras ideias que são nitidamente influenciadas por Hume e Nietzsche — entre outros, mas principalmente destes dois —, e algumas ideias que são endógenas do tempo em que viveu Fernando Pessoa: as do Existencialismo.

O existencialismo de Fernando Pessoa não é idêntico ao existencialismo cristão de Kierkegaard, nem é idêntico ao existencialismo ateu ou agnóstico de Camus ou Sartre, nem é ainda idêntico ao existencialismo realista de Karl Jaspers, nem tão pouco idêntico ao existencialismo desconstrutivista de Heidegger: trata-se de um existencialismo gnóstico influenciado pela tradição da antiguidade tardia [aquela que se manifesta — por transmissão cultural intergeracional e histórica — nomeadamente na maçonaria, nos Rosa-cruzes ou na teosofia], por um lado, e de um existencialismo de tipo bergsoniano, por outro lado [de Henri Bergson, filósofo francês do fim do século XIX e princípios do século XX, que também influenciou o maior filósofo português do século XX, Leonardo Coimbra].

Para além do existencialismo gnóstico e bergsoniano, Fernando Pessoa é influenciado pelo cepticismo de Hume, por um lado, e pelo apelo ao absurdo por parte de Nietzsche, por outro lado.

Esta conjugação aparentemente contraditória entre Nietzsche e Bergson existe, em Fernando Pessoa, em função das suas próprias ideias que forçam essa conjugação eventualmente contra-natura e anti-lógica. Mas do que sobressai da essência do “Livro do Desassossego” é o relativismo activo, ou niilismo activo, segundo Nietzsche.

O niilismo activo é o niilismo das elites, em contraponto ao niilismo passivo — ou “niilismo cansado”, utilizando a terminologia do próprio Nietzsche — que é característico das massas actuais. O niilismo activo é um niilismo consciente, aquele que se analisou a si próprio e que chegou à conclusão de que, se não é bom, é, pelo menos, positivo pela negativa.

O relativismo activo do “Livro do Desassossego” reflecte a ideia de Jean-Edern Hallier, segundo a qual “as civilizações apenas são mortais porque se tornam clarividentes: logo que se põem a reflectir sobre si próprias, estoiram!”. Ora, esta “reflexão da civilização sobre si própria” começou essencialmente no século XVI — por exemplo, com Michel de Montaigne ou com Nicolau Maquiavel, mas foi com David Hume (século XVIII) que atingiu a sua fase de maturação, e com Nietzsche ascendeu à condição de “estoiro final” da civilização.

Neste mesmo trecho do “Livro do Desassossego” está presente uma “subjectivação objectiva” que consiste na crença na possibilidade de “objectivação do subjectivo de outrem”, que traduz um retrocesso à mundividência de Averróis — mais tarde recuperada parcialmente, por exemplo, por Giordano Bruno, Pico de Mirandola, por Boécio de Dácia, Siger de Brabante e Espinoza — de um intelecto ou alma comum a toda a humanidade, ou de um intelecto que é subsumível de toda humanidade [monopsiquismo], e que é uma recusa do indivíduo como sujeito absoluto.

Ao acreditar na possibilidade de assumir a subjectividade dos outros, e de encarnar em si mesmo essa subjectividade de outrem, verificamos aqui uma recuperação — ou um retorno — aos princípios do averroísmo que, por sua vez, têm as suas raízes ideológicas no gnosticismo oriental da antiguidade tardia.

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