perspectivas

Segunda-feira, 16 Julho 2012

O albergue espanhol do Corta-fitas

Como abri aqui uma categoria para o blogue Rerum Natura, vou abrir também uma categoria para o blogue Corta-fitas. Ambos têm merecimento semelhante.

Tenho uma amiga que agora vive em Espanha e que ainda está muito sensível à comparação das duas sociedades, portuguesa e espanhola. Num jantar, no meio de uma conversa entre amigas, disse uma coisas muito interessante: “Em Espanha não há esta obsessão com as diferenças sociais que há cá, porque Espanha é uma enorme classe média, onde toda a gente convive informalmente. Naquele contexto percebe-se perfeitamente porque o Príncipe Filipe casou com a Letízia”. Ao que eu respondi, é esse o caminho que Portugal vai percorrer nas próximas gerações, se Deus quiser.

Os espanhóis são simples e directos, por isso é que Espanha está onde está e pesa o que pesa no mundo e Portugal vive agarrado a preconceitos bacocos que apenas dão a ilusão de uma perpetuação do status quo, porque na realidade não há nenhuma permanência, mas sim um empobrecimento generalizado. Está tudo mais pobre, mas alguns continuam a pavonear-se com tudo o que têm para se auto-convencerem que ainda são o Grande Elias.

via Por onde vamos? – Corta-fitas.

Como diria Fernando Pessoa, alguns dos escribas do Novo Corta-fitas “são servos submissos da primeira mesquinharia francesa, súbditos reles da hipnose do de-lá-fora”.

Em primeiro lugar, não existe uma definição para “espanhol”.

A primeira característica de uma nação é a língua, e uma língua franca não define uma nação nem uma nacionalidade. Existem catalães que falam o catalão; a propósito convém dizer que o catalão está etimologicamente mais longe do castelhano do que este último do português. Existem galegos que falam um português mais antigo. E existem os Bascos cuja língua não tem absolutamente nada a ver com qualquer das línguas referidas. Por isso, ser “espanhol” é uma abstracção, é uma metáfora; e quando alguém não compreende isto, ou nunca foi a Espanha ou é um espírito bacoco.

Passado o campeonato da Europa em futebol, e com as medidas draconianas que se aproximam no país vizinho — que não é uma nação, mas antes um aglomerado de nações —, e com uma taxa de desemprego que já caminha para os 25%, vamos ver a tal “classe média espanhola” — que foi construída pelo socialismo de Zapatero — em motim público permanente. Há duas formas de construir uma classe média: ou fechando as fronteiras e, assim, exportando o desemprego interno para o estrangeiro — como se fez nos Estados Unidos até ao Dubia Bush —, ou através da intervenção do Estado na economia — como fez Zapatero, nomeadamente quando fixou administrativamente o salário mínimo em 800 Euros, salvo erro.


A melhor forma de conhecer os madrilenos, os catalães, os galegos e os bascos, e para além dos andaluzes que são os eternos submissos a Fernando III — quando não eram obrigados a “dar às de Vila Diogo” — é trabalhar com eles. Não é uma visita a Madrid ou a Barcelona, aqui e ali, que nos transforma em espertos em matéria do espanhol que não existe.

De simples e directos, os madrilenos ou castelhanos têm pouco; pelo contrário, são dissimulados e hipócritas [tal como a generalidade dos lisboetas]. Os catalães ainda menos directos são, não porque sejam hipócritas, mas porque têm um orgulho nacional [catalão] e um amor-próprio desmedidos, só ultrapassados pelos argentinos.

Os galegos ficam-se pela simplicidade, porque ser-se directo na Galiza pode ser um problema arranjado com o centralismo madrileno; por exemplo, ser directo em galaico-português e numa repartição pública da Galiza pode dar amargos de boca ao simples cidadão galego. E a opacidade da língua basca sempre me impediu de saber se eles estão a ser directos e me estão a mandar à merda, ou se estão, na sua simplicidade, a falar do tempo húmido característico da Euskal Herria.

Como diria Fernando Pessoa, alguns dos escribas do Novo Corta-fitas “são servos submissos da primeira mesquinharia francesa, súbditos reles da hipnose do de-lá-fora”.

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8 Comentários »

  1. De simples e directos, os madrilenos ou castelhanos têm pouco; pelo contrário, são dissimulados e hipócritas [tal como a generalidade dos lisboetas].
    Meu caro professor, para quem nos habituou a um discurso de elevada inteligência, esta sua atitude é-me incompreensível; porque guarda o sr. um parti pris contra as gentes de Lisboa?

    Comentário por mendesguerra — Segunda-feira, 16 Julho 2012 @ 12:43 pm | Responder

    • Quando uma lisboeta diz que os “espanhóis são directos e simples”, não merece outro comentário da minha parte. Além disso, eu fiz um juízo universal, e portanto considere-se parte das excepções.

      Regra geral, é raro você ver um nortenho elogiar espanhóis. Espanholismo e iberismo são doenças de Lisboa.

      Comentário por O. Braga — Segunda-feira, 16 Julho 2012 @ 3:38 pm | Responder

  2. O mito de que uma “grande união de nações” resolvem tudo, é tão velho quanto o mito do “grande plano Marshall”. Aqui na América do Sul esse mito teve diferentes versões em diferentes épocas, sempre incompativel com a realidade, pois o único pais que manteve unidade territorial com base em lingua/cultura foi apenas o Brasil. Na época que os Estados Unidos tentaram lançar a ALCA, havia os entusiastas que defendiam por A+B a idéia de que as Américas unificadas do Alaska à Terra do Fogo iria tornar os pobres mais ricos(!!!). Atualmente está em moda especialmente nas esquerda o entusiasmo pela unificação das nações socialistas/populistas do continente. Só mesmo o governo petista do Brasil, para tentar uma reedição Sul-Americana da cortina de ferro soviética.

    Comentário por Marcelo R. Rodrigues — Segunda-feira, 16 Julho 2012 @ 10:38 pm | Responder

    • E não esquecer que a unidade do Brasil deriva — ou foi uma herança — da idiossincrasia unitária da nação portuguesa.

      Comentário por O. Braga — Terça-feira, 17 Julho 2012 @ 3:14 am | Responder

  3. Regra geral, é raro você ver um nortenho elogiar espanhóis. Espanholismo e iberismo são doenças de Lisboa.

    Acho que, para quem tanto preza o rigor do discurso lógico, científico e filosófico, quando o tema é Lisboa, e não só, você perde-se nas conclusões generalizadas e apressadas.

    Comentário por mendesguerra — Quarta-feira, 18 Julho 2012 @ 11:40 am | Responder

    • As verdades doem, bem sei.

      Sem querer cair em regionalismos: você sabia que o norte de Portugal tem, HOJE, uma taxa de cobertura das importações pelas exportações de 129%, contra a zona de Lisboa que é de de 74%? Há muitos anos que a balança comercial não é nosso problema [aqui do norte]. As verdades doem.

      E talvez por isso é em Lisboa o europeísmo e o iberismo são campeões: aqui há um ano, ou coisa que o valha, foi feita uma sondagem nacional acerca da fusão de Portugal com Espanha: em Lisboa, os números a favor da fusão foram surpreendentemente altos, ao contrário do que acontecia aqui no norte.

      Portanto, eu baseio-me em factos, e você vem aqui falar da sua opinião acerca das opiniões dos outros.

      Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 18 Julho 2012 @ 12:32 pm | Responder

  4. Sinceramente, não vejo qual a relação dos valores da balança comercial regional (?) com aquilo que você chama de ‘iberismo’. Quanto ao pretenso argumento de que o país vive à custa do ‘trabalho’ do norte, é uma ideia tão arcaica que só alguns poucos nortenhos, ainda a esgrime em qualquer desbotada disputa norte-sul. Afinal, essa atitude de cidadão pretensamente, ‘nacionalista’, não pugna pela união da nação, antes colocando portugueses contra portugueses, agudizando fracturas regionais em vez de minorá-las, afinal, uma atitude oposta à das monarquias que pretenderam fazer deste povo miscigenado uma nação, deste território conquistado pelas armas, um país.
    Relembro que a República foi proclamada no Porto, antes de o ser em Lisboa; e o norte não é aquele, único repositório dos tradicionais ideais nacionais, como pretende fazer crer.
    Quanto às sondagens valem o que valem; são passíveis de manipulação como qualquer outra estatística, e são sempre favoráveis aos seus mandantes. A ideia da fusão, não passa dum desabafo do cidadão comum pelo desagrado das actuais políticas e políticos, sabe-o você muito bem. Não corresponde a qualquer um movimento ideológico concreto.
    E, queira-se ou não, a realidade é que a Economia tem, hoje, uma dinâmica globalizante, que desafia países e regiões.

    Comentário por mendesguerra — Quarta-feira, 18 Julho 2012 @ 11:30 pm | Responder

    • 1. Você não viu a relação entre uma coisa e outra porque não quer ver. Perante uma sensação de inviabilidade nacional — que existe não só entre a elite lisboeta mas também em grande parte do povo da zona de Lisboa —, o iberismo passa a ser considerado uma hipótese forte.

      2. Eu não disse que “o país vive à custa do Norte”. O que eu disse é o que está escrito: se o Norte tem um superávite na balança comercial, no limite e em caso de uma qualquer catástrofe do destino, não precisa de Lisboa para sobreviver. Por isso é que Salazar dizia: “Portugueses de Portugal e do Minho!”. O Minho não era, naquela altura, considerado parte de Portugal e, pelo visto, continua a não ser.

      3. Um nacionalista não é necessariamente um estúpido. Não temos que aturar o centralismo absurdo de Lisboa que criou a máquina do Estado que gerou um défice orçamental brutal. Um português de Macedo de Cavaleiros não tem que ficar sem o serviço de urgência do seu hospital local para que se possam salvar alguns milhares de postos de trabalho no funcionalismo público lisboeta.

      4. Eça de Queirós dizia, nas Farpas, e com alguma razão: “Lisboa, a prostituta”. Note bem: não fui eu que afirmei isso!: foi o Eça!.

      5. É falso que a república tenha sido proclamada em primeiro lugar no Porto. O movimento de 31 de Janeiro, para além de ter acontecido muitos anos antes de 1910 (1891), foi apenas e só um movimento militar e popular contra o ultimato inglês — e não — como dizem os republicanos — se tratou de um movimento para a implantação da república.

      6. A implantação da república foi um golpe-de-estado lisboeta. Leia Fernando Pessoa, que testemunhou o processo republicano e escreveu sobre o fenómeno do golpe-de-estado da república. E, segundo Fernando Pessoa, naquela época a maioria do povo não era republicana; e estou convencido que ainda hoje a maioria do povo [de fora de Lisboa] está-se nas tintas — é indiferente — para a república.

      Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 19 Julho 2012 @ 4:50 am | Responder


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