perspectivas

Sexta-feira, 13 Julho 2012

A auto-negação do liberalismo inglês

O facto fundamental é que não há, entre o sistema liberal de Inglaterra e os sistemas externamente iguais do Continente [europeu], uma semelhança senão de cara. O liberalismo substancial inglês corresponde a uma vida de opiniões debatidas e de liberdades individuais autênticas. O liberalismo do continente, e sobretudo peninsular, corresponde a uma inércia e a uma incapacidade de disciplina. Confundir os dois fenómenos equivaleria a confundir a ânsia de liberdade do homem de génio com a incapacidade de esforço do vadio e do mendigo.

O que atrai os povos peninsulares no regime parlamentar e liberal é que esse regime, pela sua insubsistência, a sua fraqueza e a sua prolixidade verbal, se conjuga com a alma impotente dos seus sequazes. O que atrai o povo inglês nesse regime é que ele se ajusta à substância do seu individualismo. (…)

A ânsia de liberdade é comum ao homem são, superior, e ao mendigo que não quer trabalhar. Assim, as instituições liberais tanto podem significar a expressão da liberdade, como a expressão da incúria e do desleixo.
[Fernando Pessoa, “O Interregno...”].


Fernando Pessoa teria razão quando escreveu isto em 1932, mas hoje as coisas já não são como ele as descreveu. Por exemplo, a Igreja Ortodoxa Russa vem a público dizer que a forma como o Establishment político inglês trata, hoje, os cristãos, proibindo o uso do crucifixo, é comparável à perseguição dos cristãos pelos bolcheviques no seguimento da revolução russa. Portanto, o liberalismo substancial inglês, que “corresponde a uma vida de opiniões debatidas e de liberdades individuais autênticas”, de que nos fala Fernando Pessoa, se alguma vez exisstiu, já não existe.

Vemos, na foto em baixo, o príncipe consorte inglês e duque de Edimburgo dirigindo-se, com um sorriso amarelo, a um moícano engravatado, durante uma cerimónia informal em prol do trabalho comunitário. O príncipe consorte perguntou-lhe [ao moícano] se “trabalhava na promoção dos cabeleireiros locais”. O liberalismo inglês já entrou numa fase de indisciplina, não só através da censura velada, institucionalizada e politicamente correcta, mas também através da corrupção radical da cultura antropológica.

O individualismo levado ao extremo inglês actual deixa de ser um factor catalisador da partilha de experiências individuais, para ser um factor de indisciplina e de desagregação social, ou seja, existe um limite lógico para o individualismo, como para tudo na vida. Os exemplos da perseguição política inglesa aos cristãos e a destruição da cultura antropológica inglesa, denotam a forma como o liberalismo inglês se nega a si mesmo.

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