perspectivas

Terça-feira, 3 Julho 2012

A III república e as suas forças de desintegração

Fernando Pessoa classificou em três categorias as forças de desintegração de uma sociedade — a itálico o que é dele — que podemos identificar na nossa sociedade actual:

Forças de destruição — aquelas que produzem a Morte. São as forças do exterior, de cuja acção o organismo [a sociedade] vive, mas de cuja acção ele morre se não pode adaptar a elas. A Morte vem sempre de fora. Assim, na vida das sociedades, o meio, o exterior, de que elas vivem, é o Estrangeiro (…). Quando não podem [podemos] nacionalizar esses elementos [estrangeiros], não os importam [não os devemos importar] — “Quando não podemos nacionalizar elementos estrangeiros, não os devemos importar”.

As forças de destruição estão representadas pela Esquerda em geral, e pela esquerda radical [Bloco de Esquerda e Partido Comunista] em particular.

As forças de descoordenação — as que produzem a Doença. São aquelas forças que produzem perturbações orgânicas donde resulta não já uma desadaptação ao Meio, mas uma desadaptação dessas forças umas às outras (…). Nas sociedades, dá-se isto quando determinadas forças sociais usurpam indevida quantidade de energia social.

As forças de descoordenação são representadas pelo domínio avassalador do poder económico sobre o poder político, ou a plutocracia.

As forças de desintegração propriamente ditas — as que produzem a actividade independente do elementos orgânicos, as que tendem, por exemplo, a libertar a actividade das células da actividade de conjunto. Estas tendem para a Decadência.

As forças de desintegração propriamente ditas são constituídas por todos os partidos políticos com representação parlamentar — não porque o parlamentarismo, em si mesmo, seja necessariamente desintegrador, mas porque a lógica do nosso parlamentarismo e as leis que o enformam são factores de desintegração da nossa sociedade. As forças de desintegração propriamente ditas é a partidocracia da III república.

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3 Comentários »

  1. [...] político. E está também ligada às forças de desintegração social e nacional de que falei aqui. Share this:EmailGostar disto:GostoBe the first to like this. Deixe um [...]

    Pingback por O presentismo, a desintegração social, e o ataque às disciplinas da área das Humanidades « perspectivas — Quarta-feira, 4 Julho 2012 @ 7:24 am | Responder

  2. Boas Orlando. Começando pelo fim do post, eu afirmo; se chegou a partidocracia foi porque “nós” deixamos e temos, provavelmente, de novo o poder, para acabar com a partidocracia. Porque não uma remessa de votos em branco ou nulos, mas claro que os aparelhos partidários e clientelas políticas serão por si só suficientes para manter a plutocracia. Chegados aqui, o que há a fazer? Doutrinar e ensinar as pessoas? Isso demora gerações, e neste momento o factor tempo tem a balança descalibrada a nosso desfavor.

    As forças de desintegração trabalham, juntamente com as outras forças, para a instauração do reino da desordem psico-social, será o novo estado mundial pluto-marxista onde os “bufos” serão “bufos” de vontade e orgulho. A revolução socialista pode ser cumprida por outras vias que não as previamente estabelecidas, e se a partidocracia continuar, a entrada em cena do “socialismo da desintegração total” será uma realidade não muito distante.

    Não partilho de uma visão escatológica à maneira dos puritanos do pós-1789, mas tenho a sensação de que iremos ainda no nosso tempo de vida (expectável) assistir a algumas reviravoltas nas tendências, que se estenderão a diversas camadas das populações e que produzirão (ou pelo menos poderão produzir, potencialmente) novas visões do mundo, novas visões sobre o passado, sobre quem somos e como chegamos até aqui. Porque este também tem sido o problema, estamos demasiado esquecidos do que fomos e somos, o passado faz parte da nossa cultura antropológica, representa o elo permanente das diversas cadeias biológicas e sociais. Cortar o passado é desmembrar a consciência humana, é torná-la liquidatária de si própria. Eis um dos grandes pecados da modernidade. Cumprimentos, já agora para quando um post um pouco mais profundo sobre distributismo?

    Comentário por Filipe Crisóstomo (@Skedsen) — Quarta-feira, 4 Julho 2012 @ 2:21 pm | Responder

    • “Chegados aqui, o que há a fazer? Doutrinar e ensinar as pessoas?”

      “Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe”. “Deus escreve direito por linhas tortas”. “Quem porfia mata caça”.

      Não acredito no Destino, segundo Fernando Pessoa, mas creio na Providência e na Justiça como um valor em si mesmo e independente de qualquer utilidade que a deduza.

      As forças de destruição são utopistas materialistas. As forças de descoordenação são utilitaristas e materialistas. E as forças de desintegração propriamente ditas, ou a partidocracia, são o produto da combinação entre as duas forças anteriores.

      Hoje, pessoas que pensam como eu são os verdadeiros “progressistas” — se é que, na política, existe progresso na verdadeira acepção da palavra — e as forças de Esquerda são as forças retrógradas porque se agarram a ideias que a realidade demonstrou serem delirantes e anti-natura.

      Não é possível alterar a natureza fundamental da realidade, do ser humano e do Ser — ao contrário do que a Esquerda pensa; e neste sentido, a Esquerda faz parte do passado. Mas também não podemos reduzir o ser humano ao indivíduo, como uma certa direita hayekiana faz: para além do indivíduo, existe a nação.

      Tanto a esquerda como a direita neoliberal dizem que existe o indivíduo e a humanidade. Ora, a humanidade não existe senão como espécie animal [Fernando Pessoa], e apenas existe o indivíduo e a nação. Por isso é que a esquerda e a direita neoliberal estão erradas e pertencem ao passado ideológico.

      Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 4 Julho 2012 @ 4:43 pm | Responder


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