perspectivas

Sábado, 30 Junho 2012

A fé metastática do cientificismo naturalista na cultura popular

«É evidente que por muita capacidade e inteligência que o nosso computador biológico possua, a sua evolução está praticamente estagnada ao passo que a evolução da capacidade e inteligência dos computadores «mecânicos» é exponencial.

Comparando hoje o número de neurónios existente num cérebro humano com o número de transístores de um único processador, vemos que o cérebro tem ainda vinte vezes mais. Mas durante quanto tempo? Décadas? Meia-dúzia de anos? E depois disso?

Em suma, dentro de muito pouco tempo a máquina terá muito mais inteligência e capacidade do que o homem. A produção económica estará toda entregue às máquinas e será o fim do emprego.

Acontece que sem empregos, não haverá salários. Sem salários, não haverá poder de compra. Sem poder de compra, não há vendas. Sem vendas, não há lucro. Sem lucro, não haverá propriedade privada dos meios de produção.»

via Mito & Realidade: Poderão os computadores alguma vez possuir inteligência própria? E significará isso o fim dos empregos?.


Este verbete supra reflecte, por um lado, a proliferação do cientismo — daquele tipo a que o blogue Rerum Natura também se dedica e colabora — na mitologia contemporânea e, por outro lado, a falta do ensino obrigatório da filosofia no ensino secundário e mesmo universitário.

A ideia de que a inteligência humana depende necessariamente do número de neurónios é um mito cientificista. Se estivesse para nascer hoje, Albert Einstein teria sido abortado, porque uma ecografia apresentaria uma malformação no lóbulo cerebral esquerdo…! ou seja, Einstein não tinha tantos neurónios disponíveis como se possa pensar…

No que diz respeito à falta da filosofia no ensino, faz falta ler Santo Agostinho e Kant, por exemplo.

Immanuel Kant chamou à atenção para o facto de nós termos sempre de acrescentar um suplemento a todos os nossos pensamentos, independentemente daquilo que estamos a pensar: a frase “eu penso”. Sem a consciência de que “sou eu que penso”, não existe qualquer pensamento que mereça esse nome. Sem a autoconsciência de que a consciência se pensa a si mesma, não é possível qualquer conteúdo dessa consciência.

Um computador, por mais sofisticado que seja, pode percorrer o seu programa sem este “eu penso”, mas não pode, por isso, pensar como um ser humano. No “eu penso” do sujeito humano, todos os conteúdos da consciência estão ligados; o eu penso do humano é a condição lógica de qualquer pensamento — constitui o último ponto de referência lógico e o ponto de unidade de todo o conhecimento. Na terminologia de Kant, podemos dizer: o “eu penso” é a condição da possibilidade do pensamento.

Este “eu penso”, segundo Kant, é o “X” da condição humana. Não é possível reconhecer este X porque qualquer acto de pensamento o pressupõe: o X é anterior ao próprio pensamento — e por isso é que nenhum computador tem ou alguma vez terá este X.

Por último, e exactamente porque o cérebro humano dispõe desse “X” inerente à condição humana, é capaz de ultrapassar as limitações impostas pelo teorema de Gödel para os sistemas, mediante a criatividade e a genialidade humanas — por exemplo, através da criatividade matemática ou das artes, e através da intuição, sendo que esta última é também uma forma de inteligência —, capacidade essa que um computador nunca terá.

Segundo teorema de Gödel, é impossível demonstrar a não contradição de um sistema (bastante rico) pelos seus próprios meios, ou mediante meios mais fracos. Por exemplo, um computador suficientemente complexo para simular o trabalho cerebral, e submetido a um rigoroso determinismo no que respeita ao seu mecanismo e às permutas com o exterior, não permite calcular, em um tempo t, o que ele (computador) será num tempo t+1 — só o consegue na medida em que a sua determinação, por si só incompleta, estiver submetida à determinação de um outro computador de ordem superior, mas que, nesse caso, também não está de modo nenhum inteiramente determinado por si mesmo; e assim consecutivamente, ad infinitum.

A comparação que o cientismo naturalista faz entre um computador, por um lado, e o cérebro de um ser humano, por outro lado, é uma estupidez de uma grandeza elevada à potência infinita.

Adenda: para quem não sabe, ver o que é a “fé metastática”.

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