perspectivas

Sexta-feira, 29 Junho 2012

O problema da aristocracia portuguesa (2)

Um leitor deixou um comentário no último verbete, como segue:

«Será possível em Portugal, e no momento presente, voltar à monarquia?

“Só uma análise global do processo permite identificar essa decadência”, mas se a maioria desconhece a história, como poderá surgir essa análise global? Eu até que desejo o regresso à monarquia, pois há muito tempo compreendo o que o Orlando acaba de dizer, só que vejo essa tarefa muito difícil (quase impossível). O poder político está demasiado corrompido pelo poder económico e por todos os laços que se criam à volta destes dois elementos. Com um povo subjugado, desconhecedor da sua história, com um exagerado culto personalístico e de imagem (exterior), sem sentido de cidadania e educação no geral, não podemos esperar grandes comedimentos. Não quero generalizar, mas o panorama não é nada animador. Por isto mesmo, tenho dificuldade em ver qualquer regresso à monarquia, a não ser que a república entre em auto-decomposição por via das suas tropelias.»

Já tenho falado aqui no “presentismo” — não no sentido que é comummente atribuído à uma certa análise literária ou histórica, mas no sentindo cultural e antropológico. O presentismo, neste último sentido, é característico de uma cultura antropológica na qual não existe passado — ou o passado está [temporariamente] ausente da mundividência da maioria e da vida do dia-a-dia —, e por isso não existe uma perspectiva clara e colectiva de futuro.

Uma sociedade sem passado não tem futuro = presentismo.

Neste tipo de sociedade, o passado — a História do país — tem que ser relembrado à maioria das pessoas, de uma forma sistemática, ou por uma determinada série de indivíduos que consiste no núcleo duro remanescente da aristocracia (por exemplo, SAR o Duque de Bragança), ou pelos governantes da república que transformaram as cerimónias oficiais (por exemplo, 10 de Junho) em uma liturgia sem um verdadeiro conteúdo simbólico.

Podemos, então, dizer:

presentismo = falta de patriotismo = falta de coesão social = falta de educação do povo = desnacionalização = predomínio dos valores culturais impostos pelo movimento revolucionário delirante = decadência a todos os níveis.

Este presentismo, que existe hoje, cada vez mais, largamente disseminado na sociedade portuguesa [salvo quando joga a selecção nacional de futebol, o que é muito pouco e fraco] foi propositadamente provocado através das ideias que surgiram da revolução francesa, e que se baseiam numa fé metastática de um determinado tipo de pessoas que, pela força da associação e cooperação mútuas [maçonaria ou liberalismo maçónico], se guindaram ao poder político ou passaram a influenciar decisivamente esse poder político.

A falta de educação do povo — no sentido da presença da História na vida nacional —, que é característica desta III república europeísta e euro-federalista, é propositada: faz parte do ideário e da fé metastática da classe política actual que se pretende assumir como uma aristocracia, o que é um contra-senso. Uma classe social não pode constituir-se, em si mesma, na aristocracia necessária à sociedade. Mesmo na Idade Média e na Idade Clássica, em que a sociedade portuguesa estava rigidamente estratificada, a aristocracia não se limitava a indivíduos da nobreza, mas incluía também indivíduos oriundos do clero e do povo.

Naturalmente que os defensores da actual política presentista e euro-federalista, dirão: “nunca o povo português foi tão educado tecnicamente como é hoje”. Mas trata-se de uma educação viciada. Para esses, responde Agostinho da Silva:

“Com o culto excessivo da especialização, os homens desaprendem a sua tarefa essencial de ser humanos e de entender os problemas fundamentais dos outros homens. A Universidade hoje, por exemplo, a Universidade americana, a alemã, podem formar técnicos excelentes mas rarissimamente formam homens.”

O problema dos alemães e dos americanos, não é nosso. Os problemas da “humanidade” são inventados pelas elites, ou como bem dizia Fernando Pessoa, não existe humanidade, mas apenas indivíduos e nações. Não é por um país ser grande ou enorme geograficamente e em população, que é necessariamente melhor do que um país pequeno. O que Agostinho da Silva quis dizer não é que a especialização técnica seja preterida: ele falou em excessiva especialização — “culto excessivo de especialização”. Ele falou em “culto”! Entendamo-nos para evitar mal-entendidos!

Para que “os homens aprendam a sua tarefa essencial de ser humanos e de entender os problemas fundamentais de outros homens”, tem que haver previamente coesão social, e esta não é possível sem patriotismo que, por sua vez, não é possível sem uma educação que ensine e valorize o passado histórico. Pescadinha de rabo na boca. Tão simples quanto isto.

O que passa com a classe política em geral — pelo menos com a classe política de topo representada pelos três partidos do chamado “arco do poder” — é que ela é hoje mais europeia do que portuguesa, e portanto, perdeu o contacto com a tradição nacional e com o psiquismo português. Por mais que esses políticos neguem, a verdade é que eles vivem mentalmente no estrangeiro — em Bruxelas ou em Paris, por exemplo, ou mesmo em Berlim e em função das ordens da Angela Merkel —, e a quebra de contacto com as realidades nacionais — que não sejam os problemas económicos que também servem o estrangeiro — retirou ao político português típico a capacidade de recriar o país de acordo com novas ideias com raízes genuinamente portuguesas. O político português actual limita-se a imitar o que vem de fora: não tem criatividade nenhuma. Nunca foi tão fácil, trivial e aborrido ser político como agora.

O patriotismo português não morreu, entre outras razões porque ainda temos a língua portuguesa. E por isso é que a língua portuguesa tem vindo a sofrer — por parte de uma certa camada elitista desnacionalizada e herdeira do revolucionarismo de 1789 — um ataque inédito e difícil de explicar racionalmente senão por uma tentativa de extirpar da nossa cultura o que ainda nos liga a uma pátria. Sendo a língua portuguesa o último reduto da pátria, essa pequeníssima camada social — mas politicamente muito influente, por exemplo, a maçonaria — desnacionalizada e vendida a ideias estrangeiradas, conseguiu o que seria inconcebível há apenas poucos anos: transformar a língua portuguesa num absurdo: o primeiro passo para a sua alienação e substituição por uma qualquer língua franca europeísta.

Portanto, estamos entregues à bicharada.

A consequência cultural mais visível decorrente do presentismo é o “efeito de rebanho” a que assistimos hoje na sociedade portuguesa — o mimetismo cultural que não tem em conta a História, mas que resulta do monopólio da economia na discussão política nacional. Para além da economia, parece que nada mais parece interessar as elites e o povo.

A eliminação do presentismo da sociedade portuguesa só se pode dar com uma grave crise proveniente do estrangeiro — por exemplo, a implosão do Euro; ou uma guerra. A partir daí, o equilíbrio entre a pequeníssima minoria desnacionalizada, por um lado, e por outro lado a maioria esmagadora dos patriotas “adormecidos” será restabelecido — sendo que essa minoria será colocada no seu devido lugar, e julgada historicamente.

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1 Comentário »

  1. [...] das disciplinas de Humanidades é propositada e têm a ver com a política presentista de que falei aqui. A “coisa” é mesmo feita de propósito. Trata-se de uma parte de um ideário [...]

    Pingback por O presentismo, a desintegração social, e o ataque às disciplinas da área das Humanidades « perspectivas — Quarta-feira, 4 Julho 2012 @ 7:24 am | Responder


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