perspectivas

Terça-feira, 26 Junho 2012

Os burros e os calados

Filed under: A vida custa,cultura — O. Braga @ 6:39 pm

Uma das diferenças entre um portuense e um lisboeta, entendidos em termos gerais, é a de que um portuense burro, é mesmo considerado “burro” — enquanto que um lisboeta é apenas “calado”.

Em Lisboa não existem burros: existem apenas pessoas sem opinião. No Porto, uma pessoa sem opinião e amorfa, é considerada burra; em Lisboa, um burro é apenas venial e condescendentemente considerado alguém sem opinião e amorfo, de onde não vem mal ao mundo. Em Lisboa, ser amorfo e sem opinião — e por isso, burro — é uma qualidade louvável e um instrumento de sobrevivência; decorre disto que, em Lisboa, a burrice seja bem vista e muito bem aceite.

Em Lisboa, entrar em polémica, durante uma conversa, é sinal de burrice: as conversas são geralmente amenas e obedecem a um figurino politicamente correcto. A contradição é mal vista; tudo obedece a um paradigma ideológico sacrossanto que ninguém sabe bem de onde vem, mas que se sente na ambiência e que se impõe. Face a uma polémica qualquer, os lisboetas dispersam e abandonam a conversa — o que é visto como sinal de inteligência suprema. Um inteligente lisboeta é aquele que não aceita as irregularidades das opiniões.

Adenda: resposta a um email crítico.

Boa noite!

Ao longo da minha vida trabalhei e lidei com várias mentalidades por essa Europa fora. Por exemplo, lidei de perto e anos a fio com espanhóis, franceses, alemães, belgas flamengos, dinamarqueses e ingleses. Há em cada uma destas nacionalidades características que são muito próprias e que as distinguem umas das outras.

Portanto, eu estou habituado a lidar com a diversidade de mentalidades.

E também é um facto que eu constatei por experiência própria e através de décadas de actividade profissional, que a mentalidade do lisboeta [região de Lisboa], em geral, é bastante diferente da mentalidade do portuense em geral (região do Porto). Não vale a pena dizer que essa diferença de mentalidades não existe: seria tentar escamotear a realidade. Há várias causas para este fenómeno de diferenciação e o assunto é complexo.

Ao longo do últimos 100 anos, começando com o Estado Novo e sobretudo na III república, toda a região de Lisboa tem vindo a ser transformada pelo poder político em uma megalópole, através do incentivo da migração em massa de portugueses de todas as regiões para essa região em particular. Este fenómeno de incentivo de migração interna acentuou-se a partir dos governos de Cavaco Silva e atingiu o seu auge com José Sócrates.

Porém, e talvez devido a um fenómeno cultural mimético, os novos migrantes para Lisboa assimilaram a cultura da região naquilo que esta tem de pior e rejeitaram aquilo que, sendo endógeno, tem de melhor. Hoje, o lisboeta ancestral, aquele lisboeta cujo avô e bisavô já era lisboeta, já é difícil de encontrar. Hoje existe muito “lisboeta” cujo pai era, por exemplo, de Bragança. Portanto, quando se fala hoje do lisboeta, não sabemos bem se ele é, de facto, lisboeta, ou não. Mas temos que fazer valer a amostra pela fazenda: já não podemos saber com certeza qual a origem cultural da criatura com que falamos e que se diz lisboeta.

Se reparou, eu falei no “burro do norte”. Não coloquei o nortenho burro acima do lisboeta burro. O que me aborrece em Lisboa é aquilo que eu escrevi: uma certa ambiência difusa que tende a impor a desnacionalização cultural, a atomização da sociedade lisboeta, a falta de coesão social e o politicamente correcto, e a índole lisboeta de défice de franqueza que não é característica genuína do povo português — e tudo isto é muito menos evidente no portuense. Portanto, não devo ser criticado por ter constatado factos, por muito que esses factos incomodem.

Esta política absurda e republicana de concentração em Lisboa tem que ser mudada, e com urgência! Portugal nunca foi um país regionalista, e o regionalismo só apareceu por causa desta política republicana de concentração imposta pelo Terreiro do Paço.

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