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Quinta-feira, 21 Junho 2012

Por que é que não há “indignados” na Alemanha?

Filed under: cultura,Europa,Política,Ut Edita — orlando braga @ 12:50 am
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Será que a malfadada Agela Merkel, personificação do mal, líder duma conhecida tribo de bárbaros, que nos últimos anos com requintada perversidade e responsável pela destruição do sonho europeu da moeda única, afinal vai obrigar os seus eleitores contribuintes a desembolsar o grosso duma factura de cerca de setecentos mil milhões de euros para compra de dívida pública de Espanha e Itália directa no mercado?

via Será que os alemães não têm "indignados"? – Corta-fitas.

Desde logo, a notícia dos 750 mil milhões veio no jornal britânico conhecido por Daily Failgraph, e foi desmentida por Bruxelas. Mas vamos partir do princípio absurdo de que a notícia acaba por ser verdadeira.

É falsa a ideia de que na Alemanha não existem “indignados”; a diferença em relação a espanhóis, portugueses ou americanos é que os “indignados”, na Alemanha, são organizados [por exemplo, o “Partido Pirata" alemão nada mais é do que uma seita de "indignados" bem organizados] e nem por isso menos destrutivos; e, por outro lado, existe a tradição alemã que é muitíssimo diferente da tradição de quase todos os outros países da Europa — incluindo a Inglaterra. Acerca da Alemanha, Fernando Pessoa escreveu o seguinte [com o que eu concordo, porque tenho experiência sobre esta matéria]:

Para os alemães:

— a Pátria está acima da Civilização;
— o Estado vale mais do que o Indivíduo;
— a Disciplina vale mais do que a Cultura.

Este diagnóstico de Fernando Pessoa vale ainda para a Alemanha de Angela Merkel. Pouco mudou na Alemanha, e muito daquilo que parece ter mudado é, apenas e só, aparência.

Num país onde, ainda hoje, a Disciplina vale mais do que a Cultura, os “indignados” têm que adoptar uma postura diferente daquela que existiria num país onde a cultura vale mais do que a disciplina — por exemplo, em França, e até certo ponto, a Inglaterra. E o diagnóstico de Fernando Pessoa escora-se na história da Alemanha desde a criação do Sacro Império Romano-Germânico (962 d.C.). Seria fastidioso sequer fazer aqui uma súmula dessa história, mas Fernando Pessoa tem razão.

Num país onde a Pátria está acima da Civilização, é raro vermos um blogger alemão “do contra”; e os que há “do contra”, são muito moderados na sua oposição a Angela Merkel. Na Alemanha não se respira a liberdade que vemos, por exemplo, em Itália, devido exactamente a esse même cultural e tradicional predominante no subconsciente do alemão comum, segundo o qual a Pátria está acima da Civilização.

Num país em que o Estado vale mais do que o Indivíduo — que é même cultural que advém directamente da Reforma e do luteranismo —, o indivíduo submete-se ao Estado de uma forma mais fácil do que num outro país da Europa ou mesmo do mundo — por exemplo, no Brasil de herança católica, ou nos Estados Unidos de herança puritana.

É na conjugação dos três princípios enunciados por Fernando Pessoa que a Alemanha conseguiu ser o que é hoje. Mas isso não significa que esteja correcta, porque basta que um dos três factores da equação falhe, para que a Alemanha entre em decadência acelerada.

Conclusão: a Alemanha não é exemplo para ninguém, na medida em que ninguém lhe segue o exemplo. Nem a Áustria, de língua e cultura germânicas, lhe segue o exemplo.

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1 Comentário »

  1. Estava a ler sobre o muro do Berlim, e os dirigentes da alemanha socialista, eram mais radicais que os próprios chefões russos soviéticos, que as vezes vinham lhes pedir “moderação”(!!!!). Fernando Pessoa estava coberto de razão…

    Comentário por Marcelo R. Rodrigues — Quinta-feira, 21 Junho 2012 @ 4:34 pm | Responder


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