perspectivas

Segunda-feira, 18 Junho 2012

A política de campónios e de provincianos

“Se vencer a Nova Democracia será mais do mesmo – um horror para os gregos, uma pesadelo para os outros europeus – embora a Zona Euro ganhe tempo para tentar aquilo que ninguém discutiu até hoje: uma Europa federal, integrada, com um parlamento representativo e fiscalizador de (hélas!), um Governo supranacional. Já sei: seria um espécie de casamento forçado, um casamento de caçadeira. E então? Ás vezes é preciso um incentivo. Eu voto nisso: numa Europa como deve ser, em que até poderíamos eleger um primeiro-ministro de Portugal holandês ou espanhol. Um europeu, portanto. Mas isso não se discute. Não há políticos nesta Zona Euro. Sobram maus contabilistas que só leem as folhas do Excel que o Syriza vai rasgar.”

via Casamento forçado – Opinião – DN.

Hoje, a política portuguesa é controlada por campónios [a direita neoliberal], por um lado, e por provincianos [a esquerda utopista], por outro lado.

Portugal entrou na I Guerra Mundial porque foi colocado em uma situação de double blind: ou arrestava os barcos alemães que se encontravam no porto de Lisboa, e por ordem dos aliados ingleses; ou, não o fazendo, o nosso país teria os ingleses à perna. Não havia aqui uma terceira hipótese, e Portugal arrestou os barcos alemães, o que levou a que a Alemanha declarasse guerra a Portugal. Ou seja, Portugal entrou na guerra sem querer, o que levou o general Paiva Couceiro a dizer que “esta guerra não é uma guerra nacional”.

O que se está a passar hoje com as relações entre Portugal e a União Europeia tem algumas semelhanças com aquele episódio supracitado, só que desta vez a guerra é económica e financeira. Hoje, os barcos alemães ancorados no Tejo não existem, mas existe a dívida do Estado aos Bancos europeus, na sua esmagadora maioria, alemães. O problema é que não existe hoje uma Inglaterra com força suficiente para mandar arrestar os “barcos alemães”. Porém, e apesar das diferenças, existe um denominador comum: “esta guerra europeia não é uma guerra nacional”.

O leitor imagina que existirá, porventura, algum jornalista alemão digno desse nome, que defenda a ideia segundo a qual a Alemanha deve entrar incondicionalmente e a “ponta de cano de caçadeira”, em uma união política europeia? Ou que defendesse a ideia da possibilidade da eleição de um primeiro-ministro alemão siciliano? O leitor está a imaginar a possibilidade de existência de um primeiro-ministro alemão algarvio?!!!
Não imagine, porque isso é uma impossibilidade objectiva. Só quem não conhece a realidade e vive em delírio interpretativo poderia imaginar tal coisa.


Hoje, a política portuguesa é controlada por campónios [a direita neoliberal], por um lado, e por provincianos [a esquerda utopista], por outro lado.

“O que distingue a mentalidade da criança é a incapacidade de concentração voluntária, o espírito de imitação e a ausência de espírito crítico. São estes, portanto, os característicos que iremos encontrar também no provinciano.
No campónio, semelhante ao animal, a concentração voluntária existe, mas instintiva; a imitação existe, mas superficial, e não, como na criança e no provinciano, vinda do fundo da alma; o espírito crítico não existe, mas é substituído por uma intuição bruta das realidades.1

O texto do jornalista citado em epígrafe é próprio de um campónio, que se caracteriza pela substituição do espírito crítico por uma intuição bruta da realidade (europeia). A imitação superficial do campónio convida à desnacionalização e à submissão canina à estranja. E o campónio neoliberal não se concentra: antes, apenas age instintivamente.

1. (citação de Fernando Pessoa)

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