perspectivas

Terça-feira, 1 Maio 2012

No dia do trabalhador, deve-se fazer a apologia da responsabilidade

Por estranho que possa hoje parecer, em Portugal e na década de 80 do século findo, o estado civil do cidadão era importante para que ele arranjasse trabalho numa empresa privada. Se uma pessoa fosse casada, tinha preferência, em caso equivalência de condições académicas, em relação a uma pessoa solteira; e se essa pessoa casada tivesse filhos a seu cargo, a probabilidade de ser recrutado por uma empresa privada era muitíssimo maior do que se não tivesse filhos.

O que acontecia naquela época é que ainda existia uma grande consciência, na cultura antropológica, da responsabilidade colectiva em relação ao futuro da sociedade — coisa que deixou de existir; por exemplo, o último governo socialista de José Sócrates chegou ao ponto de retirar, do Bilhete de Identidade nacional, o estado civil do cidadão. Ou seja: hoje já não é possível saber, mediante a consulta de um Bilhete de Identidade, se um cidadão é casado, solteiro, viúvo ou divorciado.

Essa consciência de responsabilidade colectiva em relação ao futuro da sociedade, espelhada na cultura antropológica de há apenas vinte anos, era comum às elites [por exemplo, os empresários] e ao povo. Era como se a sociedade estivesse maioritariamente imbuída de um projecto comum de construção da sociedade e do futuro.

Hoje, para se arranjar trabalho, é praticamente indiferente se o candidato é casado ou tem filhos a cargo; o patrão está-se nas tintas para esse aspecto da vida privada do cidadão [até porque a política e a lei já desclassificaram o estado civil com a sua retirada do Bilhete de Identidade] . A mentalidade do empresário mudou para pior — aproximou-se da mentalidade niilista do Bloco de Esquerda. Hoje, podemos dizer, em termos éticos e morais, que o patrão neoliberal é mais ou menos bloquista; e depois queixa-se que “os empregados não prestam e não têm sentido de responsabilidade”.

É importante que a lei Sócrates que retirou o estado civil do Bilhete de Identidade, seja revogada; é importante que exista uma consciencialização dos novos empresários acerca da diferença objectiva que existe entre quem procura trabalho porque tem filhos para sustentar, por um lado, e outra pessoa que procura trabalho para poder ter dinheiro para ir divertir-se à discoteca à noite, por outro lado. Enquanto esse critério de recrutamento de pessoal não voltar a ser como há 20 anos, a sociedade caminhará inexoravelmente para o seu definhamento.

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1 Comentário »

  1. [...] o Estado não pergunta se um homem é casado e tem filhos para sustentar; em vez disso, preocupa-se em saber se o homem é [...]

    Pingback por Queres trabalhar para o Estado? Então tens que ser gay! « perspectivas — Quarta-feira, 2 Maio 2012 @ 9:46 am | Responder


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