perspectivas

Quarta-feira, 28 Março 2012

As touradas e o puritanismo dos falsos católicos

« Os puritanos detestavam os combates de ursos, não porque esses jogos causassem sofrimento aos ursos, mas porque davam prazer aos espectadores. » — Thomas B. Macaulay

Sobre este postal:

É preciso ter muito cuidado com os puritanos actuais; os puritanos sempre foram, ao longo dos séculos, inimigos do ser humano. A principal característica do puritanismo, em todos os tempos, é a sua focagem fundamentalista em uma determinada área restrita da realidade, fazendo que todos os outros aspectos da realidade existam exclusivamente em função dessa sua área restrita de focagem. O puritano é um fanático que submete toda realidade, e de uma forma irracional, ao desejo da sua mundividência; e a mundividência de um fanático é sempre irracional porque impossível de fundamentar lógica e racionalmente.

Gravura de Picasso

  • A petição contra as touradas refere a Bíblia [Génesis 1-24] dizendo que “os animais são criaturas de Deus”. Podemos interpretar assim; mas a Bíblia também refere, em Génesis 1-26, o seguinte: “Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam na Terra”.

    Ou seja: segundo a Bíblia, são os animais que estão sujeitos ao Homem, e não o Homem que está sujeito aos animais.

  • A ética tem uma hierarquia de valores. Não podemos viver em uma sociedade em que a legalização do aborto é dada como um facto consumado, ao mesmo tempo que se defende o fim das touradas. Vemos aqui uma inversão dos valores da ética. Ora, esta inversão da hierarquia dos valores da ética decorre do fanatismo do puritano, chegando ao ponto da total sujeição da condição humana ao interesse particular da sua mundividência.

    A ética aplicada à sociedade tem que ser vista de uma forma global, e não apenas sectorial. Não podemos dizer, de uma forma racional, que a legalização do aborto, por exemplo, não tem nada a ver com a proibição das touradas: quem afirma isto ou é estúpido, ou mal-intencionado, ou um puritano actual.

  • O puritano é uma pessoa que se afastou da realidade concreta e objectiva; é uma pessoa doente mental. O puritano actual é um citadino, que perdeu o contacto com a condição humana real e original. O puritano actual é um trans-humano que vive nas cidades, e nunca teve que matar uma galinha para comer. Ora, acontece que a tourada teve a sua origem na actividade do Homem de criação de animais para a sua sobrevivência — que inclui os cavalos e o gado bovino.

    Sem touradas, os touros não existiriam, seriam mortos à nascença porque a sua carne não é boa para comer; porém, estupidamente, os puritanos defendem a proibição das touradas alegadamente para “salvar os touros”, quando na realidade os touros não existiriam sem as touradas…

  • O puritano confunde a condição humana, por exemplo, com a condição mineral, se for necessário fundamentar a sua mundividência fanática. O puritano é irracional. O puritano é estúpido. Por isso, o puritano [neste caso concreto] mistura os princípios fundamentais da dignidade da pessoa humana, exarados na Constituição portuguesa e aplicada ao cidadão, por um lado, com a aplicação desses mesmos princípios fundamentais aos animais, por outro lado.
  • O puritano confunde a abolição da pena-de-morte com a proibição das touradas. Para um puritano anti-touradas, um boi é um cão que é um gato que é um bode que é um homem. Um puritano ecofascista é favor da protecção dos ovos da cegonha ou da águia real, mas é indiferente à defesa do feto humano.
  • Depois, existem aqueles puritanos, que se dizem católicos, que afirmam que são contra o aborto, e também a favor da proibição das touradas. Estes são os mais perigosos porque são os mais estúpidos; porque defendem a construção da perfeição do mundo. Acreditam que o mundo perfeito pode ser construído por acção do Homem.

    Tudo o que seja obstáculo à realização do seu fanatismo utópico, é classificado pelo puritano como “tradição retrógrada”. O puritano proíbe sem critério racional; dentro de um puritano dorme um sargento da polícia.

    Se é verdade que não existe uma cultura antropológica sem tabus, o puritano elimina alguns tabus tradicionais e cria outros tabus a seu bel-prazer, e tendo em vista a realização da sua utopia: a construção do mundo perfeito. Tudo o que seja contrário à realização da utopia do mundo perfeito passa a ser tabu puritano.

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11 Comentários »

  1. Concordando com as suas considerações sobre a vida humana, em especial em relação ao aborto, quando se brinca de Deus e se releva a grau zero a essência da criação, considero que as Touradas são uma oportunidade de exercício da violência, com ares de coragem e que só divertem aos necessitados de exaltar emoções que de outra força ficariam caladas. Lamento pelos animais submetidos à tortura das lanças, mas também e, acima de tudo, lamento que se enfeite de flores e gritos de euforia irracional vencedores e vencidos.
    Não entendia como na minha família todos esperavam ansiosamente as festas de São Torquato em Guimarães, para assistirem a essas farras que para mim não tinham sentido algum. Na realidade, torcia que o touro derrubasse o toureiro, mesmo que fosse El Cordobez (sei lá se se escreve assim o nome dele).
    Agora, quanto ao puritanismo católico ou puritanismo religioso, simplesmente, me pareceu sempre uma forma de compensação das próprias frustrações impostas por códigos de conduta autoritaristas. Cabe a cada um seguir seus próprios valores sem esquecer que vive em comunidade.

    Comentário por delfinaguimaraes — Quarta-feira, 28 Março 2012 @ 5:43 pm | Responder

    • As suas considerações acerca da tourada revelam que você se considera mais pura do que esses trogloditas que gostam das touradas. Você considera-se superior a esses selvagens. Você considera-se um exemplo moral em relação a esses energúmenos. Eu não.

      Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 28 Março 2012 @ 6:22 pm | Responder

      • Suas conclusões sobre a forma como me “vejo” através da opinião que partilhei é assaz interessante. Mas quem sou eu para rebater os seus pensamentos, não é mesmo?! Eu sei quem sou e não receio usar as minhas próprias palavras para falar o que penso. Não espero que alguém concorde comigo e, na realidade, se concordasse consigo não teria escrito nada. Apenas marcaria o “post”.

        Comentário por delfinaguimaraes — Quinta-feira, 29 Março 2012 @ 2:03 am

    • Eu vou transcrever aquilo que você escreveu:

      “considero que as Touradas são uma oportunidade de exercício da violência, com ares de coragem e que só divertem aos necessitados de exaltar emoções que de outra força ficariam caladas. Lamento pelos animais submetidos à tortura das lanças, mas também e, acima de tudo, lamento que se enfeite de flores e gritos de euforia irracional vencedores e vencidos.”

      Em relação à “euforia irracional, vencedores e vencidos”, você teria que condenar também uma simples ida a uma partida de futebol do clube de bairro, onde existe também essa “euforia irracional” a que você se refere. Ou você teria que proibir o boxe, que gera essa tal “euforia irracional”, por exemplo. E de proibição em proibição, você criaria um mundo asséptico, puritano — mas puritano só para os outros! Para você, seria um mundo da utopia libertária.

      Em relação à “tortura do touro”, parece que você não leu aquilo que eu escrevi; mas vou repetir:

      Em primeiro lugar, o touro já teria praticamente desaparecido se não fossem as touradas, porque a carne do touro não presta para comer; ou seja, você prefere que o touro seja extinto, a ser “torturado”.

      Em segundo lugar, é da natureza própria do touro arremeter contra o cavalo ou contra as pessoas; ninguém obriga o touro a atacar.

      Em terceiro lugar, em Portugal o touro não é morto na arena, e é de Portugal que estamos a falar; na maior parte dos casos e salvo excepções, em Portugal o touro continua vivo, depois da tourada, e morre de velho.

      Se uma sociedade tem que ter um tabu, deverá ser o tabu do aborto, e não o tabu da tourada. O que os puritanos anti-touradas pretendem é substituir um tabu tradicional [por exemplo, o tabu do aborto] por outro tabu utopista [por exemplo, o tabu da tourada].

      E a ideia de que é possível ter o tabu da tourada e o tabu do aborto em simultâneo, leva à ideia segundo a qual terá que haver também o tabu do boxe, o tabu da luta-livre, o tabu do futebol, o tabu do râguebi, enfim, o tabu do sargento da polícia que dorme dentro do puritano.

      Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 29 Março 2012 @ 2:45 am | Responder

      • Parece que ambos temos dificuldade para interpretar o que o outro escreve. Estou por fora de touradas há muito tempo para lembrar o nome dos “negócios” que o toureiro espeta no touro, daí chamei de “lanças”…. sei que em Portugal não se mata o touro, mas isso é irrelevante para o meu ponto de vista….Ficaria horas tentando fazer-me entender e não é esse o meu objetivo.
        Só 3 pontos mais… 1 – o touro deve estar agradecido por não ter sido extinto visto que isso lhe concede o direito de ser violentado!
        2 – a natureza do touro é agressiva, assim como de muitos humanos, com a diferença de que o touro precisa ser desafiado.
        3 – luta-livre, boxe, e outros esportes, são disputas de igual para igual.
        Olha, reconheço muito válidos os seus pontos de vista e, ironias à parte, nenhum de nós escreve para agradar o outro. Vivam as diferenças!!!

        Comentário por delfinaguimaraes — Quinta-feira, 29 Março 2012 @ 6:49 pm

    • O touro não consegue ficar agradecido, porque o touro não tem a capacidade de agradecer. O touro não é um ser humano; e a causa de todo este problema é que existem pessoas que não conseguem compreender uma coisa muito simples: o touro não é uma pessoa.

      O touro não precisa de ser desafiado. Basta que alguém se cruze no seu caminho, mesmo de forma inocente, para o touro atacar. O ataque do touro não é racional e pensado: é instintivo. Muitas pessoas ainda não perceberam que o touro não pensa.

      Hoje vivemos numa sociedade do primado da emoção e do instinto. E os únicos seres que realmente pensam, são os animais irracionais.

      Quando eu falei em boxe, referi-me à sua expressão “euforia irracional, vencedores e vencidos”. Leia, pf., antes de comentar. Referi-me a uma parte do seu comentário, e não a todo o comentário; comentei uma apenas a expressão “euforia irracional, vencedores e vencidos”. Realmente, parece ser difícil que você me compreenda, mas eu compreendo-a muito bem.

      Se eu afirmasse que 1 + 1 = 5, não se me sentiria muito satisfeito com a minha diferença.

      Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 29 Março 2012 @ 7:37 pm | Responder

  2. «Os movimentos anti-taurinos fazem parte de uma tendência social de origem urbana, que tem entre as suas consequências mais óbvias o repúdio colectivo das manifestações de virilidade, o culto da tirania moralista e a negação dos hábitos rurais, por violentos e pouco higiénicos, excepção feita ao pitoresco inócuo.
    Não deixa de ser irónico que a moderna sociedade que limpa o rabo ao seu caniche, depois de lhe ter apanhado o cócó do passeio, e se repugna com as touradas, tem nojo de cuidar dos seus humanos velhos, que despeja em simpáticos asilos.»
    Isto não é meu, é do sr.e Artur Portela, em 27 de Setembro de 2011 às 19:57, no Delito de Opinião. Eu limito-me a concordar.

    Comentário por Bic Laranja (@biclaranja) — Quarta-feira, 28 Março 2012 @ 9:47 pm | Responder

  3. Dialética.Aborto, velhos abandonados,touradas, tudo formas de violência.
    Na Índia adoram-se as vacas, os velhos são venerados mas violentam-se mulheres impunemente e na China fazem-se abortos “à força” enquanto a comunidade internacional apoia e bajula o ” dito crescimento económico “. No Butão, o suprasumo do budismo, o reino onde a “gross national happiness” é o objectivo, é ainda hoje praticada a pedofilia nos conventos como um processo integrante da educação dos mais novos.No Afeganistão as mulheres são apedrejadas e levantam-se vozes condenatórias. Porquê criticar e condenar procedimentos que fazem parte do património cultural dos países?De hipocrisias e contradições está o mundo cheio. Touradas, lutas clandestinas de cães e de galos, em Roma eram os circos etc etc.Não deveriam todas as sociedades caminhar num sentido mais humanizado e menos violento ? Não será correcto ir acabando com as várias formas de violência sejam elas quais forem?Utopia?Pode ser. Mas se nunca tivesse havido alguma evolução e utopias ainda hoje por cá se enforcavam pessoas em praça pública,os homossexuais eram presos e torturados e as crianças pobres seriam forçadas a trabalhar como durante a Revolução Industrial.”O touro ataca naturalmente (?), a carne de touro não serve para comer”. Há muitos animais que também atacam naturalmente(?) e cuja carne não serve para comer e que são hoje espécies protegidas ou apenas se extinguiram. Haverá sempre argumentos de parte a parte, como nos julgamentos em tribunal.Há puritanos extremistas e assassinos também, que justificam as suas acções baseando-se nas suas enraizadas convicções, sem qualquer espécie de arrependimento pelos massacres que cometem. Há heróis do passado que actualmente são considerados assassinos porque os conceitos vão mudando ao longo da história. Há touradas criticadas em países onde se abandonam velhos e há católicos convictos que são hipócritas e bem sucedidos.E também ladrões e vigaristas encartados que são aplaudidos !Tudo questões dialécticas com fundamentos mais ou menos “frouxos” ou “fortes”.Por aqui depende de cada um e da sua consciência actuar como se sente melhor. Ninguém obriga ninguém a ver touradas.Um dia se as praças de touros ficarem vazias,e as pessoas se desinteressarem de tal espectáculo, os touros deixarão de sangrar e terão finalmente descanso e os toureiros e forcados talvez fiquem entretidos a fazer bolinhas de sabão.Se as praças de touros não ficarem vazias, cavaleiros, toureiros, forcados e assistência irão tendo o prazer de saborear o gostinho a pó, sangue a valentia.

    Comentário por luisa — Sábado, 4 Agosto 2012 @ 4:04 am | Responder

    • ***********************************

      1) Não se deve comparar um ser humano a um animal irracional! Quem faz isso está muito doente e precisa de tratamento psiquiátrico urgente! Perdeu o sentido da realidade das coisas! Vive num mundo surreal!

      Quando você começa o seu discurso com uma comparação absurda entre uma pessoa e um touro, todo o seu argumentário se torna absurdo também. Estive para não deixar passar este comentário, mas por ser pedagógico, publiquei-o.

      Pessoas como você estão doentes mas circulam por aí, causando dano a outras pessoas.

      2) Se um dia, por absurdo, deixar de haver touradas, deixarão de existir touros ! Será tão difícil para si compreender uma coisa tão simples? Sem touradas não há touros! Sem touradas, os touros serão abatidos nas propriedades porque não são economicamente rentáveis! Pense um bocadinho antes de dizer asneiras!

      A única forma de preservar o touro como sub-família dos bovinos é através da existência da tourada !

      3) O sistémico apelo ao coração e à emoção, típico do Bloco de Esquerda, é irracional. Mas isso é feito de propósito, o que é lamentável! Mas os portugueses já lhes viram o cu! Já lhes descobrimos a estratégia: apelam à emoção para que deixemos de pensar nas coisas.

      Comentário por O. Braga — Sábado, 4 Agosto 2012 @ 4:20 am | Responder

  4. [...] Jawohl! ( Asshole)Os simpatizantes da esquerda social-liberal-fascista ainda não perceberam que sem touradas não há to… [...]

    Pingback por A exploração da emoção a favor da proibição das touradas por parte dos fascistas do Bloco de Esquerda « perspectivas — Sábado, 4 Agosto 2012 @ 4:42 am | Responder


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