perspectivas

Domingo, 29 Janeiro 2012

Pedro Rosa Mendes critica a ponta do aicebergue onde ele próprio está sentado

Eu não conheço, em detalhe, a orientação política de Pedro Rosa Mendes e, por isso, vou apenas circunscrever a minha opinião a este áudio.

http://www.youtube.com/watch?v=wmGPv4bgOrw

Angola representa hoje o desígnio [ou o desenho] de uma certa concepção política globalista/sincrética que pretende moldar o mundo, e que se revela em uma determinada comunhão entre mundividências políticas ainda há pouco tempo opostas — se é que deixaram de ser opostas. É esse mesmo sincretismo político globalista que determina a construção da União Europeia que Pedro Rosa Mendes apoia politicamente, e face à qual ele próprio entra em contradição quando critica Angola.

Henry Kissinger e Zhou Enlai, 1971


Angola é apenas uma das muitas “faces descaradas” desse sincretismo globalista que pretende uma união dos opostos segundo uma concepção heracliteana da realidade. Esta tentativa sincrética de eliminação da Metaxia [segundo o conceito de Platão] que é o “campo neutro” onde o Homem se situa face à “dialéctica dos contrários” que impera no universo e que deriva da ordem divina, é uma característica fundamental da política contemporânea. Segundo Heraclito, o Homem pode “elevar-se” e anular a sua existência metáxica, tornando nulas as próprias leis da Natureza: hoje, a política segue Heraclito [e Nietzsche] e mandou os pós-socráticos às malvas.

A ilusão da política contemporânea consiste em defender a ideia segundo a qual a eliminação da Metaxia pode, de facto, ser efectuada através da pura negação da realidade, por um lado; ou seja, prevalece hoje, na cultura intelectual e das elites em geral [a "ruling class"], a ilusão de que basta negarmos a realidade para que ela deixe de existir. E, por outro lado, pela validação absoluta de um sincretismo que é elevado a um estatuto de religião política, segundo Montesquieu, que se pretende que substitua a espiritualidade humana tradicionalmente concebida pelas religiões universais [por exemplo, na maçonaria que está evidentemente por detrás da construção do leviatão europeu].

O que está hoje em causa, na concepção política definida por uma certa visão da ética e da metafísica, pode ser sintetizado nesta frase de G. K. Chesterton [“S. Tomás de Aquino”]: «Todas as concepções filosóficas e políticas modernas e contemporâneas partem de um paradoxo; de um ponto de vista peculiar que exige o sacrifício daquilo a que os seus autores chamam de “ponto de vista saudável”».

A política trata, hoje, de erradicar o senso-comum. Seja em Angola ou em Paris de onde nos fala o Pedro Rosa Mendes.

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