perspectivas

Terça-feira, 20 Setembro 2011

O culto de Nietzsche

Filed under: A vida custa,filosofia — O. Braga @ 7:33 pm
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Nietzsche foi um literato, com um altíssimo poder de retórica, e não um filósofo. Nietzsche foi um materialista (embora negasse a pés juntos), um naturalista (darwinista assumido), um utilitarista (embora negasse a pés juntos), um positivista (e portanto, um determinista na medida em que recusa o livre-arbítrio), e o precursor do actual presentismo (negação e desconstrução da História).

Estas características de Nietzsche são racionalmente inquestionáveis, e não viria daí mal ao mundo por esse facto se não fossem irracionalmente questionadas. O culto de Nietzsche é exactamente esse fenómeno cultural através do qual as suas (dele) ideias são interpretadas e “filtradas” de tal forma que só são aproveitadas as ideias que interessam ao culto, e as que não interessam e que contradizem a razão do culto, são classificadas como sendo irrelevantes.

Na sua qualidade de retórico notável, Nietzsche tinha o poder da “prestidigitação da palavra”, ou seja, ele foi daquelas raras personalidades que podem dar-se ao luxo de dizer uma coisa e simultaneamente o seu contrário, sem que a contradição seja interpretada como tal, mesmo por gente com algum grau de inteligência. Dou um exemplo:

«Não há fenómenos morais, apenas uma interpretação moral dos fenómenos.» (“Para Além do Bem e do Mal”, pág. 121)

Esta proposição é dividida em duas partes, separadas pela vírgula. Um leitor normal não encontrará eventualmente nenhuma contradição entre as duas partes da proposição, interpretando a segunda parte como estando em perfeita coerência com a primeira. Como vemos aqui, trata-se de um jogo de palavras em que Nietzsche era exímio — neste caso, o jogo de palavras é construído em torno do termos “moral” e “fenómeno”. Nietzsche, tal como por exemplo Nicolas Gomez Dávila, tinha a capacidade raríssima de jogar magistralmente com as palavras.

Se o ser humano é um fenómeno, então ele é um fenómeno moral na medida em que interpreta moralmente. Portanto, e na medida em que o ser humano é um fenómeno, então podemos dizer que há fenómenos morais — quanto mais não seja porque o ser humano existe, em si mesmo, como fenómeno. Por outro lado, e se o ser humano não é um fenómeno, então a proposição de Nietzsche não é apenas incoerente na articulação das suas duas partes, mas é totalmente absurda.

O culto de Nietzsche decorre, também mas não só, da incapacidade normal das pessoas em detectar estas subtis incoerências, assim como o espectador de um espectáculo de magia não consegue detectar os truques do prestidigitador. E por isso é que Nietzsche é extremamente perigoso!

Qualquer leitor normal de Nietzsche não consegue lê-lo de uma forma racional (analiticamente): pelo contrário, o apelo às emoções, por parte de Nietzsche, é tão forte e de tal maneira bem trabalhado através das palavras, que o leitor não consegue aperceber-se do contra-senso constante da obra de Nietzsche.

Por exemplo, 1) Nietzsche critica sistematicamente a interpretação pré-científica da realidade (critica a filosofia, tal como Karl Marx fez), 2) ao mesmo tempo que, paradoxalmente, defende a ideia absoluta segundo a qual a nossa interpretação do mundo é exclusivamente subjectivista. Porém, por outro lado e simultaneamente, 3) Nietzsche também dá uma interpretação da moral como sendo uma ciência objectiva! Nietzsche é o grande mestre do absurdo tornado racional através das palavras que encantam…

Todavia, o mais dramático em Nietzsche foi ver um indivíduo escanzelado, com uma compleição física que até daria dó espetar-lhe uma lambada, feio todos os dias mas misógino sem vergonha (porque há misóginos com vergonha, como por exemplo Fernando Pessoa), cheio de complexos de inferioridade que saltam à vista — dizia eu, o mais dramático em um indivíduo com as características pessoais de Nietzsche, foi vê-lo defender a superioridade (o homem superior) de quem nega qualquer moral que não seja exclusivamente a sua.

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1 Comentário »

  1. “Nietzsche foi um literato, com um altíssimo poder de retórica, e não um filósofo.”

    Não é por acaso que se encontra sua obra em qualquer biblioteca pública mais volumosa no Brasil, diferentemente de os verdadeiros filósofos, pois os leitores o leem muito mais pelo prazer de ler, assim como leriam um clássico da literatura, e não necessariamente para conhcer seu pensamento.

    Comentário por Mauricio Trindade — Terça-feira, 20 Setembro 2011 @ 8:55 pm | Responder


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