perspectivas

Quinta-feira, 23 Junho 2011

A essência da modernidade e o preconceito

A maioria dos católicos — e mesmo dos cristãos em geral — critica Kant e com razão: a ética de Kant pretendeu ser um substituto da ética humanista cristã e falhou em toda a linha. Porém, eu insisto sempre na ideia de que não faz sentido concentrarmos as nossas críticas em Kant, pela simples na razão de que — em minha opinião — ele não foi o pior dos modernistas. Incomparavelmente mais nefastos do que Kant foram Espinoza, Hume e Hegel.



Hoje, somos amiúde confrontados com acusações de “preconceito”. Acusar alguém de “preconceito” transformou-se em moda. Quando não nos agrada uma determinada ideia de uma outra pessoa, resolvemos o problema invectivando-a de preconceituosa. Porém, a acusação de “preconceito” pode ser, ela mesma, preconceituosa, porque, por definição, os preconceitos são espécies de teorias defendidas sem qualquer verificação crítica.

O que acontece, actualmente, é a tentativa sistemática, por parte de teorias éticas próprias do Zeitgeist (as teorias éticas do “espírito do nosso tempo”), de influenciar o senso comum que é, por sua natureza, acrítico. Ora, a ideia segundo a qual a filosofia (que inclui a ética) é um produto do Zeitgeist (ou do “esprit du temps”) é hegeliana. A partir da ideia da validade da ética segundo o Zeitgeist (e de acordo com o conceito filosófico de Hegel), torna-se legítimo classificar de “preconceituoso” tudo o que não condiz com a moda de um determinado tempo, prescindindo-se de qualquer verificação crítica das ideias em causa.

Hume defendeu a ideia segundo a qual a razão humana é escrava das paixões — segundo Hume, jamais pode a razão humana exigir outro papel que não seja servir as paixões e obedecer-lhe. Esta ideia de Hume serve hoje de base para a justificação de todo e qualquer comportamento esdrúxulo e de probidade ética duvidosa. E é assim que todas as críticas a determinados comportamentos são actualmente, por isso, passiveis de ser classificadas de “preconceituosas”.
Portanto, juntamos aqui Hume (a supremacia das paixões sobre a razão) a Hegel (a ética entendida como mero produto do Zeitgeist), e o resultado é a tentativa de imposição acrítica, no senso comum, de novos preconceitos que classificam de “preconceitos”, tudo o que seja diferente da moda.

Espinoza dizia que o Homem não é livre; que nós não somos responsáveis pelo nosso comportamento enquanto não formamos uma noção racional, clara e nítida dos motivos da nossa acção. Ora, acontece que nunca, jamais em tempo algum, algum homem conseguiu ter uma noção racional, clara e nítida dos motivos da sua (dele) acção, e não é por este facto que o ser humano deixa de ser livre enquanto enquadrado nos condicionalismos da sua existência.

Se juntarmos o determinismo de Espinoza, por um lado, à mistela ideológica supracitada constituída pelas ideias de Hume e Hegel, podemos concluir que Kant é de facto culpado porque falhou em toda a linha a sua tentativa de desmontar a embrulhada ideológica que Hume e Espinoza construíram. Podemos criticar Kant apenas porque ele falhou, e não porque ele fosse uma mente perversa. Quanto a Hegel, é óbvio e evidente que não era o amor pela verdade que o guiava.


Quando, por exemplo, me dizem que eu sou “preconceituoso” quando critico o “casamento” gay, a adopção de crianças por duplas de gays, e a consequente desconstrução da noção cultural de família nuclear, etc., etc., — essas acusações de “preconceito” são acríticas; pretendem substituir, no senso comum acrítico, uns preconceitos existentes por novos preconceitos.

Assim, quem me acusa de “preconceito”, não tem como objectivo a construção de um senso comum esclarecido e crítico: pretende apenas substituir alguns velhos preconceitos e tabus, por outros novos preconceitos mais de acordo com o Zeitgeist hegeliano, por um lado, e, por outro lado, seguindo a animalização do Homem segundo Hume, e o determinismo que aprisiona o ser humano, segundo Espinoza.

É esta a essência da modernidade.

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1 Comentário »

  1. O preconceito é uma arma de arremesso assim como o racismo, xenofobia, homofobia, etc. Se uma pedra é uma pedra de nada adianta dizer que é um pedaço de madeira, mas nas mentes obliteradas passa a ser preconceito. Nunca vi na minha vida termo tão mal aplicado e definido.

    Comentário por Skedsen — Sexta-feira, 24 Junho 2011 @ 7:07 pm | Responder


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