perspectivas

Sexta-feira, 13 Maio 2011

A política segundo Platão, Maquiavel, Rousseau, e a democracia directa

Existem basicamente duas concepções da política: a platónica e a maquiavélica.

O conceito platónico da política é expresso na “República” de Platão por via de um saber teórico que acha possível a concepção e a construção de uma política ideal e mesmo utópica (por exemplo, as utopias do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista).

O conceito maquiavélico da política denuncia o platonismo como uma utopia, inútil e mesmo prejudicial à governança; para Maquiavel, a política é apenas uma questão técnica (que se espelha, por exemplo, actualmente no conceito de “tecnocracia política” do PSD de Passos Coelho e do Partido Socialista de José Sócrates) que não tem nada a ver com a justiça e muito menos com a moral.

No entanto, actualmente todos os partidos políticos misturam os dois conceitos nas respectivas acções políticas, e no seguimento do movimento revolucionário cimentado por Rousseau.

Rousseau impôs uma “terceira via” através do conceito de Estado de Direito (que já vinha, de uma forma incipiente, de Hobbes, através do “Leviatão”), no sentido de restringir as duas concepções anteriores que são, de certa forma, antagónicas. Porém, 1) o Estado de Direito apenas criou uma Classe Política que está na base das religiões políticas modernas; 2) o Estado de Direito excluiu, da política, a religião na verdadeira acepção do termo, que é transcendental e pré-política; 3) e o Estado de Direito contrariou a opinião de Aristóteles que concebia o ser humano como um “animal politico”; o Estado de Direito afastou o Estado e a política em relação aos cidadãos.

Portanto, Rousseau apenas acrescentou à política mais confusão e recrudesceu os antagonismos das concepções platónica e maquiavélica, no sentido em que as tentou reprimir — como se alguém pudesse tapar o sol com uma peneira. O resultado da concepção política de Rousseau foi a de que a classe política, surgida do movimento revolucionário de 1789, passou a utilizar, em tempos diferentes mas dentro de uma mesma estratégia, tanto o platonismo como o maquiavelismo políticos. A política, que já de si era um conceito complicado, piorou e multiplicou as suas contradições.


Cada ser humano vive a partir de uma determinada cosmovisão (visão do mundo) que nunca é um resultado de reflexões racionais. Essa cosmovisão de cada ser humano passa (não só, mas também) pelas suas experiências subjectivas. A razão baseia-se na construção de conceitos; se a interpretação do mundo (a cosmovisão) significasse algo como a dedução conceptual de novos conceitos a partir de conceitos anteriores, então, qualquer tentativa de interpretar o mundo seria inútil — o Homem seria uma espécie de máquina computorizada, como parece ser actualmente.

A cosmovisão de cada ser humano — neste caso, de cada cidadão — é sempre o resultado de uma interpretação pré-racional (e portanto, pré-política) das suas experiências feitas no mundo. Nunca é possível comprovar todas, e/ou uma que seja, das mundividências em termos experimentais e/ou científicos.


A constituição de uma classe política, no seguimento do movimento revolucionário de 1789, criou a massa anónima de cidadãos cujas mundividências foram alienadas por uma elite que pretende falar em nome de todas as mundividências dos cidadãos, anulando-as.

A contradição entre Platão e Maquiavel foi assumida, de uma forma exclusivista, pela classe política. As mundividências dos cidadãos, que são pré-políticas, deixaram de ser tidas em consideração. De facto, a democracia de Rousseau passou a ser uma forma camuflada de ditadura.

A solução para este problema surge-nos hoje com os meios tecnológicos que permitem a democracia directa. A democracia directa não significa a abolição da classe política, por um lado, e faz com que o cidadão volte à noção aristotélica de “animal político” empenhado na pólis, por outro lado.

A possibilidade de os cidadãos, entendidos como “animais políticos”, poderem introduzir na equação política as suas respectivas mundividências — de uma forma directa ou com um mínimo de intermediação —, fará com que o antagonismo aparente entre as concepções platónica e maquiavélica da política seja, pelo menos em grande parte, dirimido através do exemplo ético que está subjacente à pré-racionalidade da mundividência de cada cidadão que participe directamente política.

Na democracia directa, as opções políticas estão mais próximas da realidade social e permitem uma rápida evolução das mentalidades por via da responsabilização do cidadão que, assim, deixa de pertencer propriamente a uma massa anónima.

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3 Comentários »

  1. Confesso que fico um tanto confuso, pois a sociedade na qual habitamos (obviamente coloco em termos gerais, sendo que não somos, infelizmente, cidadãos de um mesmo país, apesar de compartilhar uma cultura próxima) o fluxo da informação é abundante e desordenado, o que leva os seres humanos a procurar alinhar-se próximos uns aos outros, mesmo que através de, por exemplo, redes sociais, a partir de mundividências similares. Assim formam-se blocos diversos, cada qual mais ou menos homogêneo em suas espectativas. Há sempre a busca por elementos confiáveis, por assim dizer, nos quais as pessoas depositam a confiança na veracidade das informações divulgadas e na possibilidade de juntas conseguirem influir no processo político.

    Tal democracia direta é uma visão otimista do desenrolar da realidade, Orlando. Sinceramente, espero que estejamos a presenciar um real ação de aproximação da pessoa comum em relação ao processo político.

    Comentário por Carlos Renato Fortes Vendramini — Sexta-feira, 13 Maio 2011 @ 8:11 pm | Responder

    • Ou a sociedade vai para uma democracia directa, ou regride para novas formas de totalitarismo.

      Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 13 Maio 2011 @ 8:43 pm | Responder

  2. Carlos Vendramini,
    eu defendo que, por causa dos estragos causados à consciência e interesse político do cidadão comum pelos anos de corrupção, escândalos e política mal administrada em nosso Brasil, o primeiro esforço para a mudança do cenário é resgatar o valor da atuação política de cada um. No mínimo, temos que tentar, por exemplo, destruir o mito do voto nulo, que é utilizado ano após ano para alienar os eleitores, sobretudo os mais jovens. Felizmente este combate vem ganhando força nas redes sociais. Eu contribuí para esta causa publicando a comprovação, pela lei eleitoral, da farsa: http://oandarilho01.wordpress.com/2012/08/07/o-mito-do-voto-nulo/
    Em paralelo, tenho procurado exortar meus leitores para a concepção de que o voto, mais que um direito, é um dever cívico. numa trilogia de artigos (da qual este link acima é a terceira parte) trabalhei a motivação para a questão. O primeiro é este: http://oandarilho01.wordpress.com/2012/04/12/o-voto/

    Comentário por oandarilho01 — Quarta-feira, 22 Agosto 2012 @ 12:22 pm | Responder


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