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Segunda-feira, 11 Abril 2011

Como é que Portugal sai do Euro com o mínimo de problemas?

Filed under: economia,Europa,Política — O. Braga @ 8:06 am
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  1. Anunciar a saída do Euro em um Domingo de manhã, se possível a seguir à missa das 9 horas. Mais uma vez, a ajuda divina será decisiva para esta nação com nove séculos de devoção a Maria.
  2. O anúncio da saída do Euro tem que apanhar os mercados financeiros de surpresa. O assunto não pode transpirar do conselho de ministros com excepção do Chefe de Estado e do Governador do Banco de Portugal. Nem o Conselho de Estado tem direito a saber. E, se possível, nem todos os ministros devem estar a par da decisão, para que se evitem fugas de informação. Para que isto seja possível, seria necessário um governo de maioria absoluta dirigido por um primeiro-ministro com uma forte personalidade (“não vejo lura por onde saia coelho”).

    Se o sigilo total não for garantido e se existirem fugas de informação, ocorrerá uma corrida aos Bancos, aos levantamentos e às transferências bancárias para o exterior, deixando a economia ainda pior do que estava.


  3. Nesse Domingo, o Estado português anuncia a validade do “Euro português” e declara uma paridade cambial inicial de 1 para 1 em relação ao Euro europeu (1 Euro português = 1 Euro europeu).
  4. Esta declaração de paridade levará a que os levantamentos bancários em Portugal sejam limitados. As pessoas continuarão a usar as moedas de Euro com a efígie portuguesa, e as notas de Euro portuguesas que começam todas com a letra M no número de série. Isto evitará alterar as caixas de multibanco. Eventuais falhas de algumas notas em circulação no mercado serão supridas através da reactivação da Casa da Moeda (a Irlanda também imprimiu, muito recentemente, notas de Euro).

    Durante o período inicial em que vigora a paridade de câmbio (1 Euro português = 1 Euro europeu), a Lei de Gresham encarrega-se de eliminar a má moeda (o Euro europeu) que desaparecerá paulatinamente de circulação em Portugal. Adicionalmente, o Banco de Portugal poderá imprimir um selo branco em cada nota de Euro português com a descrição: “Euro Portugal”.

  5. No mesmo Domingo, o governo anuncia que, em medida da situação da dívida nacional e da sua amortização, a política cambial será sujeita a controlos sucessivos.
  6. Em função deste anúncio, o governo declara que o total da dívida nacional passa a ser avalizada em “Euros portugueses”, fazendo com que o risco da taxa de câmbio seja transferida para os credores. Os eventuais processos em tribunal serão resolvidos atempadamente: “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”.

    Naturalmente que a taxa de câmbio não se manterá, por muito tempo, fixa na paridade 1/1, e nem interessaria que ela permanecesse fixa. Neste período de transição, o mercado negro ou paralelo cambial (que será naturalmente e hipocritamente criticado pelo governo, como deve ser) daria uma indicação mais ou menos clara acerca da taxa de câmbio real.

  7. O governo anuncia, nesse mesmo Domingo, a “renegociação da dívida nacional” — o que significa, em termos práticos e politicamente incorrectos, a declaração de default. No seguimento deste anúncio, o governo apresenta propostas de haircuts e reestruturação dos prazos de pagamentos em função da análise da situação económica e financeira do país.
  8. É perfeitamente possível que, em função desta viragem política e económica, Portugal fique fora dos mercados financeiros, possivelmente nas décadas seguintes. Mas se a nova economia tiver sucesso e existir um superavit do Estado, não será preciso pedir dinheiro emprestado a ninguém. Ademais, a história recente demonstrou que, de qualquer modo, os credores não emprestam mais dinheiro na actual situação de default em que se encontra Portugal, mesmo estando Portugal dentro do Euro.

    Mal por mal, que ganhemos então a nossa flexibilidade económica e financeira. Quando o FMI empresta dinheiro a um juro de 6 ou 7% 4 ou 4,5%, e Portugal dentro da zona Euro cresce a 1%, é certo que a crise económica portuguesa não só se manterá como se agravará profundamente.

    Quando os mercados financeiros se derem conta, com o passar do tempo, de que — na sequência daquele anúncio domingueiro — a introdução do “Euro português”, a renegociação da dívida, a posterior substituição do “Euro português” por uma nova moeda genuinamente portuguesa, dizia eu que quando os mercados financeiros se derem conta, com o passar do tempo, de que tudo isso resultou em uma vantagem enorme para a economia portuguesa e para o seu crescimento, então os mercados terão menos reticências em voltar a emprestar dinheiro ao Estado.

  9. A nova moeda portuguesa que, com o tempo estipulado pelo governo, substituiria o “Euro português”, deverá ter as mesmas características físicas do Euro europeu, para que não seja necessário substituir as máquinas de multibanco e semelhantes. Além disso, a nova moeda portuguesa não deveria ser indexada a nenhuma outra moeda, tornando assim a política monetária portuguesa mais independente.

(fonte)

Adenda: Segundo informação mais recente, a taxa de juro do FMI variará entre 4 e 4,5%

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7 Comentários »

  1. [...] aumentamos a competitividade sem aumentar a produtividade. Porém, com uma política adequada e fora do Euro, é possível conseguir as duas coisas. E a dívida, mais tarde ou cedo, e de uma maneira ou de [...]

    Pingback por Portugal no Euro e no pior de dois mundos « perspectivas — Quinta-feira, 14 Abril 2011 @ 8:03 am | Responder

  2. [...] Mas a política é exactamente isso: a arte do possível. E uma saída sossegada do Euro depende de uma posição interna e independente de Portugal que a nossa classe política e os me®dia neoliberais já não conseguem exprimir, porque se [...]

    Pingback por A miopia dos liberais portugueses « perspectivas — Sábado, 16 Junho 2012 @ 10:53 am | Responder

  3. [...] no nível de vida português vão ser tantas que, a determinado ponto, vai ser mais fácil sair do Euro num Domingo de manhã. Quando o PIB per capita português chegar perto dos 10 mil dólares/ano, ou seja, quando Portugal [...]

    Pingback por O double blind de José Pacheco Pereira « perspectivas — Domingo, 30 Setembro 2012 @ 4:59 pm | Responder

  4. [...] A ler: Como é que Portugal sai do Euro com o mínimo de problemas? [...]

    Pingback por Portugal está já em estado de guerra mitigada « perspectivas — Quinta-feira, 18 Outubro 2012 @ 3:04 pm | Responder

  5. […] Adenda: a ler: como sair do Euro mandando a Angela Merkel pró….. […]

    Pingback por O double blind de Portugal, Espanha e Itália; ou o tiro de Angela Merkel pode-lhe sair pela culatra | perspectivas — Domingo, 21 Julho 2013 @ 9:35 am | Responder

  6. […] Adenda: a ler: como sair do Euro mandando a Angela Merkel pró….. […]

    Pingback por O double blind de Portugal, Espanha e Itália; ou o tiro de Angela Merkel pode-lhe sair pela culatra | Bordoadas — Domingo, 21 Julho 2013 @ 9:35 am | Responder

  7. […] Além disso, o défice zero é a condição sine qua non para a saída de Portugal do Euro: a bem ou a mal. […]

    Pingback por Com défice zero, podemos não pagar ao Papa | perspectivas — Sábado, 13 Setembro 2014 @ 11:15 am | Responder


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