perspectivas

Sábado, 29 Janeiro 2011

O retorno de Portugal às origens e à sua natureza

Filed under: Portugal — orlando braga @ 5:48 pm
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O Pedro Arroja, na minha opinião, tem razão nestes dois postais, mas talvez chegue a conclusões certas através de argumentos desenquadrados. Os dois postais têm uma clara relação lógica entre si. Uma parte dos pressupostos escora-se na ideia da “idade das trevas”, que se associou à Idade Média. Porém, durante a Idade Média, a única ciência que existiu foi a católica; desligar o catolicismo da ciência é um erro e resulta da lobotomia ideológica modernista.
Veja-se, por exemplo, o Papa Silvestre II (Gerberto de Aurillac), entre uma miríade de personalidades católicas medievais. Portanto, não podemos dizer que “os povos de influência predominantemente católica continuaram a colocar o ênfase na Tradição, desconfiando da Razão” — pelo menos no que diz respeito à Idade Média, e colocando o julgamento histórico desse tempo em perspectiva.

O luteranismo primordial teve basicamente as seguintes características: desclassificou a influência da filosofia grega (razão) na religião cristã e aprofundou as suas raízes em relação ao Antigo Testamento e ao Judaísmo (tradição judaica). A contra-reforma católica seguiu no caminho contrário: aprofundamento das raízes racionais greco-romanas (Platão e Aristóteles) e afastamento em relação ao Judaísmo. E exactamente porque o luteranismo primordial se afastou da razão é que foi possível o ressurgimento dos movimentos religiosos e políticos gnósticos pós-medievais, como por exemplo o Calvinismo que se espalhou pelo norte-centro da Europa e chegou à Inglaterra (Quakers), onde impôs a primeira revolução inglesa (e europeia!) e a ditadura de Cromwell. Portanto, fazer uma ligação directa e exclusivista entre a ciência e o protestantismo não me parece correcto.

Se olharmos para a geografia da Europa ocidental, veremos que no centro-norte existem rios largos e navegáveis que atravessam vários países. Por exemplo, o Danúbio, o Ródano, o Reno, o Vístula e o Oder, são rios que atravessam diversos territórios separados por culturas e povos diferenciados. E depois existem outros rios nacionais, como o Sena, o Loire, o rio Pó no norte de Itália, que foram decisivos para o desenvolvimento económico regional.

Enquanto Portugal e Espanha, por exemplo, privilegiaram as comunicações com o exterior, ambos os países foram faróis de civilização na Europa. O mesmo aconteceu com Inglaterra que foi desde sempre uma potência marítima, e continua a ser. A Europa continental do centro-norte baseou o seu desenvolvimento na hidrografia que permitia um comércio continental e uma mobilidade populacional assinaláveis. Em Itália, e enquanto o Islão não lhe cortou as comunicações com a Rota da Seda, as pequenas cidades-estado italianas prosperaram e foram referências civilizacionais. Portanto, o desenvolvimento de um país não tem necessariamente que estar dependente da sua grandeza populacional e/ou territorial.

Porém, o Pedro Arroja tem razão (na minha opinião) quando faz uma ligação entre o desenvolvimento histórico-cultural das seitas gnósticas de origem protestante e o movimento revolucionário que tem raízes no gnosticismo da antiguidade tardia. O que se passa na Europa depois da segunda revolução inglesa de 1668 e até à revolução francesa de 1789, é já a afirmação, por entre as elites europeias, do anti-cristianismo gnóstico — que deu lugar às ideologias políticas modernas e está na origem do actual niilismo e metafísica negativa — por via da fundação da maçonaria especulativa (1717).

Enquanto que as guerras na Europa fundaram países relativamente populosos (sabemos que uma grande população era decisiva para vencer as guerras), quando unificaram o actual Reino Unido com cerca de 80 milhões, ou a unificação francesa à custa de guerras que duraram décadas, ou com Bismarck se unificou a Alemanha — Portugal e Espanha não se unificaram exactamente porque não existia uma história e tradição de facilidade de comunicações entre os povos (basta olhar para a hidrografia: o Tejo e o Douro deixam de ser navegáveis a partir da fronteira portuguesa) como existia no norte da Europa.

Por isso é que os iberistas actuais querem a construção do TGV, mesmo que seja à custa de enormes prejuízos de exploração e sobrecargas insuportáveis para o erário público através de impostos: querem construir os “rios” que não existem na natureza. Porém, penso eu que Portugal deveria continuar a “navegar” nos seus “rios” históricos e voltar-se para o mar e além-mar, e não deveria contrariar a sua natureza; e esses rios históricos portugueses estão no mundo inteiro.

«A Europa, com tudo o que fez, dando tanto instrumento ao Mundo e tendo Portugal transportado grande parte desses instrumentos para toda Terra, está esgotada. A Europa esgotou-se, fisicamente, porque levou toda a sua vida a realizar coisas, e pesquisar para saber, a saber para prever e a prever para poder. Mas as pessoas, a maior parte das pessoas do Mundo — isto acontece com oito em dez homens — não são dessa zona europeia ou euro-americana.

Toda essa gente possui outros ideais que não são os do Poder sobre os outros nem os do Poder sobre si próprios. Coibindo-se, restringindo-se a um determinado código que lhe impuseram, a sua ambição não é o Poder mas, fundamentalmente, o Ser.»

— Agostinho da Silva

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