perspectivas

Sábado, 10 Julho 2010

Sobre a época de crise

Filed under: cultura,filosofia — orlando braga @ 6:10 pm
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Ortega y Gasset identifica as “épocas de crise” com a inautenticidade do Homem. Em tempos de crise, o Homem — entendido individual e subjectivamente — deixa de ser autêntico, isto é, deixa de ser aquilo que ele é na sua essência e em coerência.

Ortega y Gasset

A autenticidade do Homem (e continuo a descrever a tese de Ortega y Gasset) acontece em “épocas orgânicas” da História, que são os tempos em que o futuro parece tranquilo e o presente seguro e assegurador. Nas épocas orgânicas, o passado não merece contestação nem é desconstruído, porque o Homem reconcilia-se consigo próprio; até o ateu vive tranquilo com o seu ateísmo, desde que consiga ter a certeza íntima do seu ateísmo.

Pelo contrário, nas “épocas críticas” o Homem vive angustiado com o futuro, não consegue a sua coerência interna, pessoal e subjectiva em relação ao seu presente, e tende a desconstruir o passado. “A mudança do mundo consistiu no facto de que o mundo em que vivíamos desmoronou e, de momento, em nada mais.” Na ausência dos valores que caracterizaram a época orgânica que acaba de desmoronar, a época de crise transporta consigo a possibilidade do melhor, mas também do pior. O futuro é opaco. As dicotomias são exacerbadas. Os radicalismos imperam.

“A Rebelião das Massas”, que caracteriza a época de crise ocidental que se iniciou no Iluminismo — e que, na minha opinião, atingiu o ponto máximo nos últimos quinze anos para cá — é considerada por Ortega y Gasset como sendo a pior de todas as crises, na medida em que nunca a incerteza sobre o futuro foi tão grande como é agora. A doce tranquilidade do presente, a segurança do futuro, e o respeito pelo passado que caracterizaram a época orgânica anterior ao Iluminismo — “a plenitude dos tempos”, como lhe chamou — já não existem. Mas para Ortega, a uma época crítica sucede uma época orgânica, e vice-versa.

O problema é que John Rawls não concorda com Gasset, e aquele está mais na moda que este. Para o americano, a actual época de crise será eterna, ou pelo menos durará enquanto durar o Homem. Para Rawls, a inautenticidade do Homem segundo Ortega y Gasset, em vez de ser um defeito, é uma virtude: nunca mais haverá segurança em relação ao futuro como existiu em épocas orgânicas da História, a tranquilidade do presente só é possível através da auto-repressão das convicções individuais e da total privatização das subjectividades, e o passado terá que ser erradicado da História, reduzindo esta à própria época crítica presentista e sempre actual — e neste sentido, a própria época crítica actual é escatológica e final.

Eu acredito que Ortega y Gasset tem razão. Dentro de algumas décadas ninguém se lembrará de John Rawls.

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3 Comentários »

  1. Muito esclarecedor, tenho alguns textos a sair sobre a “crise da masculinidade”, e isso faz muito sentido.

    Essa mentalidade de que o mundo iria desabar pode ser encontrada nas décadas de 60 e 70 nos Estados Unidos, devido tanto a guerra do Vietnã como a Guerra Fria. Embora as pessoas de hoje olhem com certo desdem qualquer possibilidade de guerra atômica, naqueles tempos essa possibilidade era cogitada, havia a mentalidade de que o céu poderia “desabar” a qualquer momento.

    Junta-se a essa mentalidade os protestos anti-guerra, o movimento hippie, a liberalização sexual e o surgimento da pornografia, rock n’ roll, drogas e outras mazelas da cultura americana.

    A liberalização sexual desenfreada embora momentânea, deixou uma chaga maior que foi uma geração de crianças que cresceram em lares desestabilizados, a consequência posterior disso são hordas de delinquentes, é um fato cientifico bem conhecido a ligação entre lares de mães-solteiras e criminalidade juvenil.

    Não tenho ainda informações precisas sobre as ondas de criminalidade nos EUA, mas é bem provável que elas tenham uma ligação direta com o baby-boom americano.

    Como Julius Evola diz, quando os símbolos culturais ligados ao homem viram apenas materialismo e violência, os únicos símbolos de virtude que sobram são femininos, nasce o culto a mulher.

    Justamente em 1968, o estrume intelectual chamado de Valerie Solanas, lança o seu panfleto de ódio ao homens o “SCUM MANIFESTO”.

    Comentário por shâmtia ayômide — Domingo, 11 Julho 2010 @ 1:45 am | Responder

  2. Acredito que o homem-massa de Gasset é o que Aristóteles já chamava de ” escravo por natureza”. Gasset diz que o homem massa é um bárbaro porque vive na civilização como se estivesse em estado de natureza, Aristóteles diz o mesmo do escravo: ” O escravo natural, na verdade, longe de ser privado do que a natureza oferece aos outros homens, quando adultos, é aquele que permanece, quando se torna adulto, ao natural e em quem a educação do homem livre falta ou não tem poder. Para Aristóteles ele é definitivamente o bárbaro no meio dos gregos e um bárbaro que a cultura não pode libertar” -Richard Bodéus, Aristóteles. A justiça e a cidade- No Séc XIX, o fenomeno se generalizou.

    Comentário por Gustavo Bravo — Sexta-feira, 6 Janeiro 2012 @ 5:14 pm | Responder

    • Sem dúvida que, para Aristóteles, o “escravo natural” é o “bárbaro”. Os bárbaros não eram bem vistos na antiga Grécia. Porém, em Atenas nem toda a gente tinha o mesmo nível de educação e de virtude, e nem por isso essa gente menos favorecida de Atenas era considerada “bárbara”. Por exemplo, Epicuro e Antístenes [o cínico] eram filhos de mãe escrava e pai grego, e portanto, na Grécia antiga nem todos os escravos eram considerados, à partida, como bárbaros. Aliás, os escravos eram considerados como membros da família.

      No conceito de “homem-massa” de Ortega y Gasset, podemos fazer uma analogia, mas não uma comparação. O homem-massa é um conceito alargado e pode ser, por exemplo, um engenheiro ou um arquitecto que submeta a ciência à técnica. O homem-massa é aquele que não procura a educação virtuosa [a paideïa de Aristóteles], não procura a ciência [aqui, “ciência” não é entendida como “ciência positivista”] e nem se compromete com os bons hábitos.

      Enquanto na antiga Grécia modesta se inventava a ciência, na mesma época, a técnica florescia na China. Mas quem inventou a ciência foram os modestos gregos, e não a faustosa corte imperial da China, altamente industrializada para o seu tempo.

      O homem-massa de Ortega y Gasset é uma espécie de chinês daquele tempo transportado para os dias de hoje; é o produto de uma sociedade burguesa e técnica; é o representante do filistinismo cultural burguês. O homem-massa de Ortega y Gasset não é propriamente um homem sem qualquer educação: é o homem-robô, que foi educado de uma forma enviesada e até aberrante.

      O “bárbaro”, segundo Aristóteles, parece-se mais com o conceito de “bárbaro” segundo Theodore Dalrymple, do que com o conceito de homem-massa segundo Ortega y Gasset.

      Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 6 Janeiro 2012 @ 6:30 pm | Responder


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