perspectivas

Quinta-feira, 8 Abril 2010

O mito moderno contra a superstição

Este artigo de Olavo de Carvalho desfaz o mito do libertarismo, seja de direita ou de esquerda. Olavo de Carvalho dá a indicação de como pode o libertarismo ser uma forma de coarctar a liberdade em geral, o que transforma o libertarismo em um mito.

Um dos grandes problemas do nosso tempo é o da prevalência cultural do “mito contra os mitos” protagonizado em nome da ciência que se traduz, em termos ideológicos, na Técnica. Este problema é praticamente irresolúvel em termos do cidadão comum porque este não é, em geral, capaz de pensar para além dos seus problemas práticos do dia-a-dia, e por isso aceita o mito conforme veiculado nos me®dia .

Um fenómeno semelhante ao que acontece hoje ocorreu na antiga Grécia e durante o Renascimento, em que as restrições morais desapareceram por serem consideradas ligadas ou unidas à superstição. Portanto, impera hoje um “mito que se coloca contra a superstição”, ou seja, uma espécie de “superstição contra a superstição”. Este tipo de decadência mitológica, e de niilismo cultural e moral, antecedeu sempre um ressurgimento de uma nova espécie de totalitarismo ou ordem disciplinária totalitarizante. Este problema agudiza-se quando a nossa classe política é, na sua generalidade, totalmente ignorante em termos de teoria política, e segue cegamente os ditames oriundos de potentados internacionais.

Este fenómeno de desordem política manifestou-se no Renascimento através do “Príncipe” de Maquiavel, que traduziu a necessidade de uma luta aberta na política – em que valia quase tudo e até arrancar olhos – tendo em conta a falta de um princípio condutor na política. Repetia-se em Itália o que aconteceu na cidade grega.

A anarquia libertária não é libertadora mas antes institucionaliza a perfídia que é fruto da decadência moral que considera a ética e a moralidade como produto da superstição – a chamada “superstição religiosa”, entenda-se. E não é libertadora porque, como aconteceu com a cidade grega e com as cidades italianas do Renascimento, a decadência moral decorrente do “mito contra a superstição” tornou os cidadãos colectivamente impotentes porque defendeu a prioridade absolutizante da subjectividade individual sobre a coesão social objectiva que decorre de uma certa ordem necessária, e porque reprimiu o Thumos do macho em sociedade através da sua efeminação cultural (e não biológica, porque esta é impossível) tornando a sociedade vulnerável ao domínio de outras culturas invasoras menos civilizadas e em que existe uma maior coesão social.

Na modernidade, o libertarismo político prepara ou tem na manga o totalitarismo que se segue. As coisas hoje já não são deixadas ao acaso, como aconteceu nas cidades gregas e italianas. Os novos projectos totalitários são estudados em laboratórios da psicologia comportamental coordenados por uma superclasse social internacional com cerca de 6.000 pessoas no total, simbolizada pelo “Homem de Davos” – conforme o livro de David Rothkopf, “Superclass: The Global Power Elite and the World They Are Making”.

O libertarismo moderno é apenas um meio para atingir o fim de uma nova ordem disciplinária que disporá de meios de repressão inéditos na História. O libertarismo político moderno é controlado pelo Homem de Davos (ou Homo Davus), e mesmo o libertarismo de esquerda (de tipo bloco de esquerda) está – não tenho dúvidas acerca disto – ao serviço (embora possamos considerar que seja de uma forma indirecta ou com meios parecidos ou derivados da cultura Anabaptista posterior à reforma luterana) do Homo Davus. Se Francisco Louçã, que evoluiu da antiga esquerda trotskista e libertária, fosse um sério candidato a primeiro-ministro, Balsemão convidá-lo-ia para participar em um encontro do grupo de Bilderberg (também não tenho dúvidas sobre isto).

O libertarismo moderno actual é uma espécie de neo-romantismo, em que os princípios da subjectividade total são impostos aos cidadãos através dos me®dia como forma de minar a coesão social e os princípios da ordem necessária em liberdade. Para que este objectivo seja conseguido (minar a coesão social e cultural das nações), todos os meios são utilizados pelo Homo Davus, incluindo a própria teoria de Karl Marx transformada – seja através de uma versão moderna actual do marxismo cultural da Escola de Frankfurt que se transformou naquilo a que chamamos de politicamente correcto ou pensamento único; seja através de uma estratégia de condicionamento das massas estudada com o fim da destruição dos símbolos e da linguagem humanas através das engenharias sociais, conforme preconizado por Lukácks e Gramsci. Hoje, o Homo Davus comanda os libertários, sejam os de direita ou de esquerda.

O verdadeiro combate ao Homo Davus não está na esquerda ou na direita libertárias, mas antes na formação de uma intelectualidade minimamente consciente dos fenómenos culturais provocados por essa elite internacional. E essa intelectualidade consciente não pode ser outra coisa senão conservadora no sentido da rejeição liminar das engenharias sociais como forma de violência revolucionária e gnóstica contra a ordem do ser humano (e contra a Ordem do Ser, em geral). As engenharias sociais impostas pelo Homo Davus são um instrumento de criação de uma ordem totalitária a nível global, que se enquadra na sequência lógica do desenvolvimento dos pensamentos da trilogia composta pelas teorias de Hobbes, Rousseau e Hegel.

Hoje, o conservador é, como sempre foi, a favor do compromisso entre a subjectividade individual que caracteriza a liberdade, e a coesão social decorrente de uma ordem necessária harmonizada com a natureza humana — tudo isto através da razão que mantém o equilíbrio entre estas duas componentes (subjectividade individual e ordem necessária), mas também através da razão que controla o Thumos em circulação na sociedade .

Em contraponto, o libertário tenta destruir essa ordem necessária e conservadora conforme descrita acima, no sentido da implementação de um novo projecto totalitário a nível global de onde não poderá haver refugiados políticos. O libertário de hoje é o tirano de amanhã.

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