perspectivas

Domingo, 21 Março 2010

Entre Gandhi e Husserl

Estive ontem a rever (em DVD) o filme “Gandhi” que na minha opinião é um dos melhores filmes de sempre. Dei comigo a pensar que Einstein não esteve certo quando disse que “nas próximas gerações as pessoas se interrogarão sobre o facto de como foi possível que uma pessoa com as características dele (de Gandhi) tenha andado sobre esta terra”. Perguntem hoje a alguém na Europa com menos de 30 anos quem foi Gandhi e estou convencido de que a maioria tem uma ideia desfocada da personagem e o resto simplesmente não sabe; dêem mais duas gerações à Europa e Gandhi mergulhará no esquecimento total. E isto porque o aparecimento na Europa da idade moderna de um fenómeno minimamente semelhante ao de Gandhi ― por mais remota que seja essa semelhança ― seria praticamente impossível; alguém com uma mundividência semelhante à de Gandhi seria ― na Europa do filisteu actual ― considerado um maluco risível e “a quem se deve dar um desconto”.

Durante os anos 60 e princípios de 70, e coincidindo com o pós-modernismo, Gandhi foi reavivado na cultura Pop do ocidente, juntamente com Jesus Cristo Superstar. Porém, o fenómeno pós-modernista da recusa da predominância do “mundo objectivo” das ciências ― predominância esta que se afirmou, desde o Iluminismo, em detrimento do “mundo da vida” (usando a terminologia de Husserl) ― chegou ao seu termo com o “fim da História” que marcou a queda do muro de Berlim. Ironicamente, aquilo que seria a celebração da não-violência gerou uma indiferença social crescente em relação à violência justificada por uma visão cientificista do mundo gerada por um novo fim da História. Passamos de um pequeno período da recusa da prevalência do mundo objectivo da ciência, característica do pós-modernismo, para o Presentismo onde nos encontramos. O Presentismo é o Modernismo mas sem um passado histórico, é um eterno presente de uma realidade desligada das suas causas e origens.

O mundo objectivo do cientismo e da técnica já se entranhou de tal forma na cultura europeia que a defesa dessa visão cientificista da realidade justifica qualquer tipo de meios. As elites ocidental e europeia em particular, considera o mundo objectivo das ciências como sendo o axioma ou o princípio da regulação cultural da sociedade, e neste sentido, basta controlar a ciência de forma a obter os resultados políticos previamente julgados adequados para que toda a sociedade se mova em um sentido pré-determinado. É basicamente nisto que consiste o Robotismo: as “evidências originárias” inerentes ao “mundo da vida” ― que incluem o senso-comum ―, evidências originárias essas que estão na base do “mundo objectivo” da ciência, foram sendo eliminadas da nossa cultura e este “mundo objectivo” das ciências passou a ser a Causa Primeira. A própria subjectividade (inerente ao Eu individual, o Eu que, por sua própria natureza, se reconhece no Passado através do conceito de Husserl de “auto-temporalidade”) só passou a ter algum valor quando consentânea com esse mundo objectivo e presentista do cientificismo. A subjectividade desligada da nova “verdade” presentista, absolutista e cientificista passou a ser uma forma de alienação passível de ser gradual e paulatinamente reprimida com os meios adequados e necessários.

Ora “o mundo da vida é aquele onde vivemos intuitivamente”. E é esse mundo da vida que está na base e é a premissa do mundo objectivo da ciência, e não o contrário disto. E quando o presentismo se vale da ciência alienada (o cientificismo) para tentar eliminar o “mundo da vida” que lhe é anterior, pretende a alienação da natureza humana e o controlo totalitário da subjectividade ― pretende a eliminação radical das diferenças entre o Eu e o Não-eu “cientificamente” determinado, através de uma espécie de uniformização destas duas esferas da realidade, ditada pela política correcta.

Gandhi baseou toda a sua acção nos fundamentos desse “mundo da vida” que se rege pela intuição das verdades originárias que são anteriores ao “mundo objectivo” da ciência, manipulada politicamente ou não.

“A única forma de verdade é a evidência constatada através da intuição”. Por isso, podemos dizer que se fosse possível existir um Gandhi actual, ele seria a favor da resistência passiva e da não-violência contra o totalitarismo do cientificismo político que nos impõe a alienação dessas evidências originárias que se traduzem na “verdade como evidência”. A existir na Europa, Gandhi seria hoje a favor da resistência passiva contra o aborto, contra o “casamento” gay, etc., ou seja, contra o totalitarismo do mundo cientificista que nos censura e nos cala a intuição das evidências originárias.

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