perspectivas

Quinta-feira, 18 Março 2010

A construção apocalíptica das religiões políticas

Eric Voegelin é, na minha opinião e não só, um dos maiores pensadores do século XX porque conseguiu pensar a História ― e consequentemente, a Humanidade ― fora de um determinado tempo, isto é, preocupando-se em não estar agarrado aos conceitos e preconceitos da época em que viveu (século XX). Neste sentido, podemos dizer que Eric Voegelin teve uma visão holística da História, da filosofia e da política ― a visão de quem analisa os fenómenos humanos a partir de um ponto de observação externo que não é nem a perspectiva do tempo histórico observado nem o tempo histórico na perspectiva do observador. Isto não significa que ele tenha pretendido formatar a História atribuindo-lhe um sentido formal (eidos da História); pelo contrário, a sua posição de observador externo permitiu-lhe perceber que a História não tinha acabado ― ao contrário do que defenderam as religiões políticas surgidas do Iluminismo, como o marxismo, o comteanismo, o hegelianismo, o nazismo, ou o neoliberalismo hayekiano de Francis Fukuyama.

Eric Voegelin foi à raiz do problema da crise da modernidade, não se ficando pela rama como o fez a maioria dos filósofos do século XIX e XX ― e por isso é que Eric Voegelin, para além de filósofo, era um pensador; existem muitos “filósofos” que não pensam grande coisa.

Uma vez que não existe em Portugal um só livro de Eric Voegelin à venda nas livrarias (ainda não tentei os alfarrabistas), não me cansarei de falar aqui dele. Naturalmente que o critério dos editores portugueses é o do entretenimento (não tenho nada contra; pelo contrário, também gosto de me entreter) em detrimento quase absoluto da cultura ― e aqui já sou contra (entende-se aqui “cultura” essencialmente no sentido lato e antropológico da análise civilizacional do Ocidente, e não só no sentido restrito do objecto de arte ou no sentido comum dos conhecimentos intelectuais do indivíduo).


Uma das razões ― senão a mais importante ― da crise da modernidade ocidental é a ausência actual de uma era arcaica da nossa civilização; a inexistência de uma era mitológica na nossa civilização. Eric Voegelin faz referência ao Antigo Egipto e à crise civilizacional do império tardio que ocorreu por volta de 2.000 a.C.. Nessa altura, os egípcios recorreram às formas culturais do terceiro milénio a.C., de forma a superar o processo de deculturação decorrente da crise que desembocou na crise social e cultural da ordem mítica original. Através do retorno à cultura arcaica do terceiro milénio, os egípcios do império tardio conseguiram suster o processo de deculturação e reposicionar o conceito de ordem política e social. Ora, a civilização ocidental não tem uma era arcaica ou mitológica; os vikings ou os celtas não constituíam em si uma civilização suficiente que pudesse representar uma era arcaica para o ocidente.

Os romanos estiveram no princípio da nossa civilização mas o fim do império romano ocorreu já na nossa era, o que significa que Roma não pode ser considerada como pertencendo uma era arcaica ― está muito próxima de nós. O que nos restou dos gregos antigos pode ser delimitado a partir do século V a.C., e o Renascimento foi também a tentativa de considerar a Grécia Antiga como uma era arcaica quando se recorreu à cultura clássica como forma de tentar um retorno às origens. Porém, esse retorno renascentista às presumíveis origens gregas falhou porque a herança grega chegou-nos através da tradição romana ― foi Roma que deu corpo à nossa civilização, incorporando na sua tradição alguns dos valores da Grécia antiga.

O pretenso retorno à Grécia antiga durante o Renascimento não foi um retorno a uma era arcaica mas antes a procura de uma era mitológica ― como acontece hoje quando as pessoas se tornam adeptas do Zen budista, ou se dedicam ao estudo comparado das religiões ou da literatura, ou quando se dedicam à arqueologia, na tentativa de recapturar a substância aculturada ― e actualmente já praticamente deculturada ― que se perdeu na nossa civilização a partir do Iluminismo.

O fenómeno da alienação cultural, política e social, a que assistimos entre os egípcios do império tardio e a que assistimos hoje no ocidente, tornou-se numa alienação radical exactamente porque o ocidente moderno não tem pontos de referência num passado mitológico, aonde possa ir buscar não só a autoridade, mas também a tradição e a ordem mítica da civilização. Se determinados conceitos culturais são destruídos ― como se destrói hoje a linguagem e o senso-comum ―, as pessoas têm que tentar, de alguma maneira, procurar restaurá-los e reconstruí-los. Foi isso que fez o Renascimento, e foram essas referências culturais ― os resquícios delas, as poucas que existiam ― que ainda tínhamos que foram destruídas pelo processo decorrente do Iluminismo, causando a crise da modernidade.

Na medida em que hoje não temos um mito da nossa civilização ― como os romanos tinham o seu mito, que era o mito da própria fundação da cidade de Roma, ou como os egípcios tinham o seu mito de ordem civilizacional oriundo da fundação do império antigo do terceiro milénio a.C.―, perdemos a noção de autoridade e a tradição e, consequentemente, o sentido da ordem política, social e cultural. Os símbolos deixaram de fazer um sentido universal; entramos numa espécie de torre de Babel cultural dentro da nossa própria cultura e civilização.

Com o Iluminismo, recomeçamos a História que se encontra em um eterno presente; vivemos hoje um presentismo eterno que se constituiu como uma construção apocalíptica através da qual toda a História de antes do Iluminismo foi deitada ao lixo do tempo. Esta é a razão radical da crise do modernismo.

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