perspectivas

Quinta-feira, 21 Janeiro 2010

A problema da ética na acção económica e na acção política

O André Azevedo Alves escreve aqui sobre a ética nos negócios e sobre a alegada “responsabilidade social das empresas”.
O que se pode constatar é que em função da crescente colocação em causa da legitimidade da propriedade privada, o negócio é transformado num “mal necessário” que deve ser fiscalizado e controlado pela política. Em alguns países, a propriedade privada ainda não foi abolida, mas funciona agora numa espécie de concessão em leasing através da qual a propriedade é implicitamente colocada com um prazo de validade. Trata-se da política neomarxista, influenciada pela teoria de Gramsci, do “deixa-os poisar”.



Benedetto Croce classificou a realidade estritamente humana em quatro categorias: a intuição (arte, estética), a vontade (valor, ética, moral), a racionalidade (lógica, ciência, filosofia) e a acção (economia, política).

Esta categorização colocada de forma simplista é, no entanto, útil no sentido em que apresenta os momentos síncronos que desembocam na acção, seja esta do negócio ou da política. Segundo Croce, a categoria anterior influencia a consequente, mas esta não determina aquela. A estética influencia a ética, mas a ética não determina a estética ou a arte; a ética influencia a lógica racional, mas a racionalidade não determina a ética; a filosofia influencia a acção económica e política, mas estas não determinam a filosofia.

A intuição do Homem inserido na Natureza e plenamente identificado com a sua natureza (princípio de identidade aplicado à espécie: A=A), influencia a vontade que, por sua vez é escrutinada pela racionalidade antes de se transformar em acção. Segundo Croce, apenas a arte não é passível de ser influenciada e escrutinada pela ética, e na medida em que é “arte pura” produto da intuição, e não “arte racionalizada” ― e daí que Croce faça a distinção entre expressão artística, expressão técnica e expressão teórica. A pura arte é produto da pura intuição.

Se em determinado ponto desta cadeia ― intuição/vontade/racionalidade/acção ― é introduzido um factor de alienação da sua lógica intrínseca ou de reversibilidade sincrónica, a realidade humana é alienada e retirada da sua ordem natural, ou seja, assistimos à desnaturação da realidade humana.

A partir do Iluminismo que se afirmou com a revolução francesa, e principalmente no século XIX com o marxismo, a racionalização ― que deu também origem às diversas religiões políticas ― substituiu em grande parte a racionalidade, e através da racionalização, a cadeia sincrónica da realidade estritamente humana foi alienada a ponto de a própria arte ― que existe primordialmente na cadeia ― ser influenciada e determinada pela racionalização do filosofar iluminista, ou seja, toda a sincronia da realidade humana foi alienada.

O marxismo foi mais longe: passou a determinar todos os estádios da cadeia da ordem do ser humano a partir da acção, que seria logicamente a única determinada e não-determinante da cadeia. Segundo o marxismo e a sua racionalização ideológica, a acção determina a racionalidade, a vontade e a intuição ― o que é uma impossibilidade objectiva que vai contra a ordem natural do ser humano (seria como se eu colocasse o carro à frente dos bois).

A propriedade privada sempre fez parte da ordem do ser humano desde a sua aparição, da mesma forma que a pura arte (intuitiva) é indissociável e intrinsecamente propriedade do artista; a arte pode ser apreciada por todos, mas tem um autor e em termos práticos, um proprietário. O problema das crises económicas e culturais sempre surgiu quando a cadeia da ordem do ser foi quebrada ― por exemplo, Platão escreveu a sua “República” em um momento de crise profunda causada pelo “iluminismo sofista” que quebrou a cadeia da ordem do ser, no seu tempo.

Mas o problema não veio só do marxismo. Teorias como o objectivismo de Ayn Rand ou o chamado neoliberalismo de Hayek, também atribuíram à acção um papel determinante sobre as outras categorias da ordem do ser humano que lhe estão a montante. Seria como se eu dissesse que a nascente de um rio existe porque a priori existe a foz, e que sem esta não existiria aquela; é verdade que a foz é necessária para que exista o rio, mas sem a nascente não existiria a foz nem o rio.

Para além de algumas contradições internas do sistema de Hayek (por exemplo, concilia num mesmo sistema o cepticismo de Hume e o optimismo de Kant), ele dá sem dúvida a primazia à acção económica sobre as outras e prévias categorias da ordem do ser, transformando a liberdade num produto da acção em vez de ser um produto da vontade (ética e valor).

Hayek, Ayn Rand e Marx dizem: “eu sou livre porque ajo”. A lógica e a ordem do ser humano dizem: “eu ajo porque sou livre”.

A liberdade da acção depende da vontade que é condicionada pela ética e influenciada pela intuição estética, e que, por sua vez é depois escrutinada pela racionalidade (juízo). A acção é o último elo da cadeia, e não o primeiro, e não adquire por isso maior importância do que as outras categorias prévias da ordem do ser.

Da mesma forma que a ciência (a filosofia, o juízo, a lógica, a dedução e a indução) não pode determinar a ética ― mas apenas constatá-la e analisá-la como conteúdo prévio da ordem do ser ― enquanto a ética pode e deve influenciar a ciência, a acção económica (o negócio) não pode determinar nem o juízo, nem a ética, nem a arte. A arte determinada pela acção não é arte pura, mas arte teórica ou racionalizada, ou seja, é a alienação da arte como produto da pura intuição.

Se a acção económica “não é directamente associável à promoção de objectivos morais explícitos”, ela depende, contudo, da cadeia síncrona da ordem do ser, e portanto acaba por ser um produto dessa mesma ordem do ser; nesse sentido, não podemos dizer que a acção marxista, ou que a acção neoliberal, não podem ser nem são produtos previamente influenciados pela intuição (arte estética), pela vontade (ética e valor), e pela razão (juízo, filosofia). É neste sentido que a acção não pode deixar de ser racional, ética e estética, sob pena de alienar a natureza e a ordem do ser humano.

Em resumo: o chamado neoliberalismo de Hayek e/ou o objectivismo de Ayn Rand, por um lado, e o marxismo e as suas muitas derivas ideológicas, por outro lado, são duas face da mesma moeda na medida em que privilegiam a acção em detrimento das outras categorias da ordem do ser. Fazem parte do problema (o problema causado pela racionalização iluminista que substituiu a racionalidade) e não da solução.

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