perspectivas

Domingo, 17 Janeiro 2010

As características do gnosticismo moderno

Louis Althusser foi o exemplo acabado da mente gnóstica, o superlativo absoluto simples do gnosticismo teórico do século XX. Althusser defendeu sempre o estalinismo e o “marxismo científico” ― mesmo depois de Karl Popper ter demonstrado, através do princípio da falsificabilidade, que o marxismo não é uma ciência (assim como a psicanálise não é uma ciência) porque não é possível a sua refutação (1), mesmo depois do relatório K. ter oficialmente exposto os crimes estalinistas, mesmo depois das denúncias e dúvidas de Merleau Ponty e Sartre em relação ao sistema soviético, mesmo depois da verificação dos Gulag e do testemunho de Soljenitsyne, mesmo depois da evidência do fracasso económico da URSS… e mesmo depois da queda do muro de Berlim!

Para Althusser, o marxismo eliminou a distinção entre o sujeito e o objecto (mas não eliminou o sujeito de Althusser) e ele viu na teoria de Karl Marx aquilo a que ele chamou de “prática teorética”, que consiste no desfasamento entre o conhecimento e o objecto a conhecer ― segundo o conceito dele em relação ao pensamento de Karl Marx, todo o processo de conhecimento é realizado no mundo do pensamento e sem qualquer contacto com o objecto real a conhecer; Althusser recusa a verificação empírica das teorias científicas (“ciência” aqui entendida segundo o método positivista das ciências da natureza), exactamente em reacção ao princípio da falsificabilidade de Karl Popper. Althusser fechou-se no seu mundo e no seu dogma, e de tal forma que perdeu o juízo e acabou por estrangular a sua mulher em 1980.


  1. Uma das características da mente gnóstica moderna é a constante insatisfação com a realidade que se traduz em uma perene tentativa de escapar à realidade. Normalmente, o drogado mete heroína na veia para fugir à realidade; o gnóstico revolta-se sistematicamente contra a realidade, seja ela qual for…
  2. Em função da sua permanente insatisfação com a realidade, o gnóstico moderno atribui essa sua insatisfação à “maldade do mundo”, ou à “imperfeição do mundo”. Para o gnóstico, o mundo pode e deve ser perfeito ― ele acredita que é possível a salvação em relação a essa maldade (ou a essa imperfeição) do mundo dentro do espaço-tempo que condiciona a nossa existência. Essa radical e alienante insatisfação em relação ao mundo leva o gnóstico à convicção profunda de que o mundo é essencialmente mau, o que o leva ao desejo de salvação terrena através do conhecimento das estruturas internas desse mundo maldito e tenebroso.
  3. No intuito de se conseguir a salvação do Homem neste mundo, o gnóstico defende que a única forma de a conseguir é através da mudança da ordem do ser através de um processo histórico (ver «A ideia de “progresso” e do “presente autoritarista”»), ou seja, alterar a essência e a natureza humana através de imposições de fora para dentro em relação ao ser humano (vulgarmente chamadas de “engenharias sociais” a que assistimos hoje na esquerda portuguesa).
  4. As engenharias sociais ― que traduzem a crença na mudança da ordem do ser através de um processo histórico ― são, para o gnóstico moderno, possíveis através do esforço humano, nem que seja à custa do sacrifício ― e mesmo da eliminação física ― de centenas de milhões de pessoas. A mente revolucionária ou gnóstica esteve na origem de cerca de 200 milhões de vítimas só no século XX ― mais do que todas as vítimas de convulsões sociais e guerras entre o século III a.C e o século XIX. Nesse sentido, e através das engenharias sociais, a mente gnóstica acredita que possui a fórmula mágica ou o conhecimento necessários para tornar possível a salvação do Homem na Terra e a criação de um paraíso celestial terrestre.

(1) O conhecimento científico, embora verificando dados que se tornam quase certos, produz teorias que são científicas precisamente porque não são certas: as teorias científicas são sistemas de ideias que trazem consigo a possibilidade da sua refutação e constituem crenças de um grau superior ― crenças que transportam a dúvida no seu próprio princípio.

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13 Comentários »

  1. Excelente artigo que nos ajuda a perceber o que se está a passar na sociedade em geral!

    Comentário por Henrique — Domingo, 17 Janeiro 2010 @ 8:23 pm | Responder

  2. Este texto, para mim, não passa de um amontoado de confusões deliberadas para defender algo que se tornou indefensável nos tempos que correm: o liberalismo.

    O liberalismo foi o causador de inúmeras crises económicas, políticas e sociais entre as quais avultam a de 1929 e a crise actual ainda por resolver.

    Não vou alongar-me sobre o assunto porque acho que nem vale a pena mas chamo a atenção para vários pontos no sentido de fundamentar o que debitei acima:

    – o amigo leu Marx e Estaline? Concluiu o quê das leituras? Que Estaline foi um pensador da estatura de Marx ou um divulgador rasteiro das teorias de Marx acrescentado o que lhe interessou para se manter no poder?

    – se queria falar de herdeiros do pensamento marxista por que não mencionou Kautsky ou Bernstein?

    – que pensa de Keynes que reabilitou o pensamento macro-económico e salvou o capitalismo da crise de 1929? Keynes era liberal?

    – o que tem a ver essa infelicidade de Althusser de estrangular a sua própria mulher com a obra de Athusser? É científico e sério encontrar aí uma relação causa-efeito? Não houve muita gente assassina ou suicida nas hostes liberais? Não pode acontecer a qualquer um cair numa depressão profunda ou fazer uma esquisofrenia ou outra doença psíquica qualquer?
    Esse argumento é claramente um argumento contra “o homem” e não contra as “suas ideias”.

    Nem vou comentar essas questões teóricas sobre as relações entre o pensamento e a “realidade”… dava pano para mangas e nem sequer é questão recente.

    Alfredo

    Comentário por AVSousa — Quarta-feira, 20 Janeiro 2010 @ 8:36 pm | Responder

  3. @ AVSousa

    Eu deixei passar o seu comentário porque você conseguiu resistir (a custo, na minha opinião) ao insulto puro e duro.

    O facto de um estalinista como Althusser continuar a ser estalinista depois da queda do muro de Berlim, revela um desequilíbrio mental ― já não é só uma questão de burrice ― que o levou provavelmente ao estrangulamento da mulher. Não se trata de criticar o homem só pela crítica ao homem; trata-se de constatar um desequilíbrio mental dos estalinistas que não arrepiaram caminho perante as evidências (espero que não seja o seu caso).

    O que é que Keynes tem a ver com Marx ou com o marxismo? David Ricardo já defendia a intervenção do Estado na economia de livre iniciativa muito antes de Marx, e o próprio S. Tomás de Aquino defendeu a intervenção da coroa (do rei) na distribuição da riqueza quando escreveu sobre a mais-valia no trabalho.

    Todas as derivas marxistas (escola de Frankfurt, Lukacs, Gramsci, o existencialismo, a teoria do discurso, o desconstrutivismo, etc.) são apenas formas de tentar remendar aquilo que não é remendável: o sistema de Marx não poderia dar senão no que deu. A ler:

    http://espectivas.wordpress.com/2009/06/16/as-contradicoes-do-marxismo/

    http://espectivas.wordpress.com/2007/11/07/complementando-marx/

    http://espectivas.wordpress.com/2007/11/07/complementando-karl-marx-2/

    Eu não sou propriamente “liberal” no sentido de Hayek e Von Mises. Sou conservador no sentido de Kirk Russell, Eric Voegelin, Barry Goldwater, Roger Scruton, etc. O conservador não coloca a economia acima da cultura e da ética.

    De resto, você diz que “não se vai alongar” e que” não vai comentar”, e por isso fico sem saber quais seriam os “alongamentos” e os “comentários”.

    Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 21 Janeiro 2010 @ 12:32 am | Responder

  4. retirado do blog “Contra Impugnantes” sobre o gnosticismo no filme Avatar:
    .
    http://contraimpugnantes.blogspot.com/2010/02/avatar-dos-infernos.html
    .
    1- Uma nova fase da história humana sepultará a atual e se dará em outro planeta.

    2- O caudilho que fundará essa nova era é Jake Sully (ele próprio fala em “renascimento”, no filme). Sully torna-se líder logo após Pandora quase ser destruída pela maldade dos homens, que por sua vez já tinham arrasado a Terra. Ele não nasce Salvador por delegação divina, mas se faz salvador.

    3- O precursor do caudilho é a cientista Grace Augustine. Anotem bem o nome: Grace Augustine! Ora, para quem não sabe, Santo Agostinho é cognominado “Doutor da Graça”. Só que, no caso cristão, a Graça é o auxílio divino sem o qual o homem não pode manter-se no bem, enquanto a Grace Augustine da película é justamente o contrário disto: encarna a intelectual, a cientista que detém o conhecimento a partir do qual o “salvador” Jake Sully poderá começar uma nova era. Como se vê, os pólos se inverteram: a Graça que Santo Agostinho tão bem retratou vem de cima para baixo, de Deus para o homem, e é gratis dada; a Grace Augustine, por sua vez, representa o poder do próprio homem para “salvar-se”, para chegar por suas próprias forças ao conhecimento que o libertará das amarras do mal. Nada mais gnóstico!

    4- O quarto dos símbolos joaquinistas, o da espiritualidade autônoma, se verifica pelo fato de os Na’Vis não necessitarem de nenhuma instituição “eclesiástica”. Quando Jake está ao lado de Neyriti, diz a todos: “Unimo-nos ante a deusa “Eywa”, e, depois, toda a comunidade dá-se as mãos em frente à “árvore dos espíritos” para rezar, ou coisa que o valha. Como diz o já citado texto do Stat Veritas, se cumpre assim a fantasiosa idéia de uma comunidade que vive em harmonia, sem Estado, sem Igreja e sem polícia, na qual todos adoram a natureza e, por isso, vivem em paz. Uma pax mundi absolutamente naturalista.

    Comentário por shâmtia ayômide — Sábado, 20 Fevereiro 2010 @ 2:43 pm | Responder

  5. [...] gayzismo e o marxismo cultural encaixam perfeitamente um no outro através da tentativa de mudar a ordem do ser (a natureza humana) através de um processo histórico. É neste quadro que se situa a luta [...]

    Pingback por A propaganda política gayzista, bloquista e socratina à custa do dinheiro dos nossos impostos « perspectivas — Sábado, 20 Fevereiro 2010 @ 3:42 pm | Responder

  6. @ shâmtia ayômide :

    Quanto mais vejo o que está a acontecer, mais admiro a visão de Eric Voegelin.

    Comentário por O. Braga — Sábado, 20 Fevereiro 2010 @ 9:49 pm | Responder

  7. uma pergunta nascida do meu desconhecimento: é concebível um ‘gnosticismo de direita’?

    Comentário por pedronunesnomundo — Terça-feira, 7 Junho 2011 @ 3:18 pm | Responder

    • Depende do que vc entende por “direita”. Se Vc considerar, por exemplo, o nazismo como sendo de direita, então é possível. Mas o nazismo não é direita.

      Comentário por O. Braga — Terça-feira, 7 Junho 2011 @ 10:02 pm | Responder

  8. Adenda: ler o que se entende pelo conceito de revolucionário ou neognóstico:

    http://espectivas.wordpress.com/a-mente-revolucionaria/

    Comentário por O. Braga — Terça-feira, 7 Junho 2011 @ 10:41 pm | Responder

  9. [...] geral” rousseauniana que não corresponde, na maioria das vezes, à vontade da maioria. É o modelo das “engenharias sociais” que Obama também segue agora. O modelo francês é o modelo do leviatão europeu que se constrói [...]

    Pingback por Os modelos políticos possíveis para a Europa « perspectivas — Quinta-feira, 5 Janeiro 2012 @ 12:14 pm | Responder

  10. [...] [porque considera a cultura estranha e inferior a si mesmo] como uma estratégia de mudança social mediante engenheiras sociais e em função de um determinado delírio interpretativo (2) da realidade. 1) Segundo o teorema [...]

    Pingback por Um recado de Agustina Bessa-Luís aos “engenheiros sociais” « perspectivas — Domingo, 19 Fevereiro 2012 @ 9:02 am | Responder

  11. Orlando, muito bom e claríssimo o seu post. Parabéns pela exposição e esclarecimentos, principalmente para aqueles que não leram ainda sobre o “GNOSTICISMO”, seja ele de XX séculos passados ou o moderno, o que não mudou, a não ser o enfoque, mas o ideal é o mesmo. Gostei tanto de seu conteúdo que quero pedir permissão, desde já, para usá-lo na minha TCC, com as devidas citações em conformidade com a ABNT.

    Comentário por Flávio da Cunha Guimarães (Pastor) — Terça-feira, 27 Maio 2014 @ 9:32 pm | Responder

    • Desde que mencione o autor, a transcrição é permitida. Mencionar o autor fica sempre bem.

      Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 28 Maio 2014 @ 4:38 am | Responder


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