perspectivas

Quarta-feira, 2 Dezembro 2009

O ambientalismo das “mudanças climáticas antropogénicas” é uma religião gnóstica (1)

No party da elite jacobina realizado ontem em Belém, onde ― salvas algumas excepções ― se juntou a malfeitoria da pior espécie que existe na Europa, ouvimos [nos discursos] por duas vezes a referência às “alterações climáticas” que nada mais é do que uma versão mais actualizada do “aquecimento global antropogénico” (ou o “aquecimento global por culpa do Homem”).

O que estamos a assistir com as “alterações climáticas” é à transformação da ciência numa religião de origem gnóstica que, por sua vez, é manipulada politicamente. Já venho a escrever isto há três ou quatro anos, chamando à atenção para o “novo clero cientificista”

Dizer o que é o gnosticismo e as diversas formas como ele evoluiu ao longo do tempo até hoje, é uma tarefa impossível de realizar num postal ― Eric Voegelin levou praticamente uma vida inteira a identificar as raízes e o desenvolvimento do gnosticismo até aos nossos dias. Aquilo que interessa reter aqui são as características gerais do gnosticismo. Porém, convém dizer que existem muitíssimas pessoas que se dizem “católicas” ortodoxas ou “cristãs” de filosofia, que têm uma mentalidade gnóstica, e até podem existir ateus (e não “naturalistas” que são outra coisa: um naturalista passa pelo ateísmo para chegar ao naturalismo) que por uma questão idiossincrática e subjectiva, escapam à classificação do gnosticismo.

Que a ciência está a ser manipulada politicamente, já não há dúvidas e de tal forma que até o professor Delgado Domingos o reconheceu. Porém, o problema do ambientalismo ― leia-se, “naturalismo” ― é muito mais extenso e profundo e liga-se directamente a um determinado tipo de culto parasita e de origem gnóstica que sempre acompanhou o cristianismo e muito antes deste, o Judaísmo. Uma das características do gnosticismo é o messianismo de origem judaica que teve os seus seguidores no cristianismo, como foi o caso de Joaquim de Fiore.


O católico propriamente dito (e o cristão verdadeiro) assenta a sua mundividência na objectividade de um universo criado por Deus, e portanto num mundo com uma ordem divina. Isto significa que um católico aceita a realidade do mundo e das leis da natureza tais quais elas são, baseando-se nos seus sentidos e na razão. Para um cristão verdadeiro, o ser humano deve viver numa situação de “tensão entre pólos opostos” ou “dialéctica dos contrários” (nascimento e morte, o micro e o macrocosmos, o definido e o indefinido, o mal e o bem, o positivo e o negativo, o feminino e o masculino, o Yang e o Ying, etc.); esta posição intermédia do Homem em equilíbrio num mundo de “tensão entre opostos” é definida por Platão através da palavra “Metaxia”. A Metaxia é o “campo neutro” ou “meio-termo” onde o Homem se situa face à “dialéctica dos contrários” que impera no universo e que deriva da ordem divina.

Muito antes de Platão, Heraclito tinha constatado a condição da existência metáxica do Homem. Porém, podemos dizer que Heraclito foi um dos primeiros teóricos do gnosticismo ao defender a união dos pólos opostos presentes na natureza como forma de “ultrapassar” a condição humana, partindo do pressuposto de que da própria unidade universal brotariam os opostos da natureza, e que através da investigação (leia-se, conhecimento), segundo Heraclito, o Homem pode “elevar-se” e anular a sua existência metáxica, tornando nulas as próprias leis da Natureza. Ao contrário de Heraclito, a esmagadora maioria dos filósofos gregos (depois de Sócrates) compreendeu que a existência metáxica do Homem resulta da sua posição intermédia entre o microcosmos e o macrocosmos, isto é, o Homem existe em uma condição irremediável de tensão entre pólos que não se anulam entre si senão em condições de excepcionalidade e de probabilidade quase infinita. E esta condição metáxica da existência humana foi adoptada por Jesus Cristo e seguida pelos verdadeiros cristãos. Segundo o verdadeiro cristianismo ― e segundo qualquer outra verdadeira religião ―, a tensão metáxica na verdade da existência leva à auto-realização do indivíduo na medida em que desenvolve nele a compreensão da eunomia (ou princípio da “boa ordem”) e a Prónese (frònesis) como a capacidade de mediar entre os pólos de tensão da existência humana.

A partir do momento em que alguém que se diz “católico” transforma os pólos da experiência humana em entidades independentes (entidades desligadas entre si, e que por isso podem tender à sua inter-anulação: por exemplo, desligando o pólo do nascimento do pólo da morte), incorre num processo de destruição da realidade objectiva da existência, ou seja, assume uma posição ideológica tipicamente gnóstica. Isso significa que esse “católico” só o é de nome, porque na realidade é um gnóstico.
Portanto, tentar sair de uma posição metáxica da existência resulta na alienação humana ― e é uma forma de alienação porque em termos práticos e objectivos essa libertação metáxica é impossível: por exemplo, a partir do momento em que desligamos o facto do nascimento, do facto da morte, estamos a enganar a nós próprios, entramos em um processo de alienação; tanto um facto como o outro são dois pólos opostos de uma tensão metáxica em que vive o ser humano e de onde nunca se poderá libertar !

A teoria anti-metáxica da existência humana segundo Heraclito (dele, mas não só dele) deu origem a determinadas características do gnosticismo presentes na cultura europeia que se desenvolveu em paralelo com o cristianismo, e que constitui o tal “culto parasita” que subsistiu no seio da cristandade e que prevalece hoje numa Europa pós-cristã.

A possibilidade gnóstica de anulação da oposição universal dos contrários ― da anulação da existência metáxica do ser humano ― através do conhecimento humano, levou ao conceito de imanência de Deus (panteísmo), à necessidade de Deus que significa a não-liberdade do próprio Deus, ou o Deus limitado ou condicionado na sua própria acção criadora, ao determinismo do universo e do Homem e à total falta de liberdade do ser humano nas suas acções, e à imanência da escatologia cristã.

Desta necessidade gnóstica da libertação metáxica do Homem resulta:

  • a probabilidade da erradicação total do mal da existência humana;
  • a probabilidade da salvação do Homem em relação ao mal;
  • a probabilidade de mudar a ordem do ser através de um processo histórico que erradique o mal;
  • a mudança da ordem do ser — e respectiva a erradicação do mal — depende da política e do conhecimento.

(continua)

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2 Comentários »

  1. Andei a ver se localizava uma intervenção anterior de Delgado Domingos, não consegui. O artigo recente é este:

    http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/550438

    Comentário por Henrique — Quinta-feira, 3 Dezembro 2009 @ 9:40 pm | Responder

  2. [...] ler nesta série: parte I, parte II Deixe um [...]

    Pingback por O ambientalismo das “mudanças climáticas antropogénicas” é uma religião gnóstica (3) « perspectivas — Terça-feira, 8 Dezembro 2009 @ 3:05 pm | Responder


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