perspectivas

Terça-feira, 10 Novembro 2009

Conservadorismo, liberdade, libertarismo e determinismo

Esta coisa de a gente ter opinião não faz mal nenhum ― pelo contrário ― e não ofende ninguém só por isso. Este artigo no insurgente é, na minha opinião, interessante e merece, por isso, um meu comentário.

  1. As considerações sobre o cristianismo (na minha opinião) estão correctas, até porque se não acontecesse o cristianismo na cultura ocidental não teria sido possível a ciência. Com o monoteísmo ― e principalmente com o cristianismo que deu uma importância superior à lógica e à estética ―, a transcendência divina passou a implicar o facto de que Deus “se retirou” da Natureza, o que significa que o “distanciamento transcendental” de Deus criou um espaço da realidade que se tornou acessível à ciência. Em culturas em que Deus (ou a divindade) permaneceu imanente, isto é, em que Ele não se “distanciou” da Sua obra (que é a Natureza) através da transcendência, a ciência não se desenvolveu, como foi o caso das religiões orientais.

    A dificuldade dos gregos pré-socráticos em ligar a filosofia à ciência consistiu exactamente na impossibilidade cultural de conceber a divindade senão como sendo intracósmica, e só foi possível suplantar esta dificuldade através do conceito de “Ser”, a partir de Parménides e através de Sócrates, Platão, Aristóteles, Plotino, etc. E foi esta qualidade da transcendência divina que floresceu no cristianismo que abriu a possibilidade real à ciência que Nietzsche abomina quase tanto quanto odeia o cristianismo.
  2. Não quero com isto dizer que o cristianismo seja superior às outras religiões universais. Estou só a constatar factos.

  3. A noção de livre-arbítrio significa, em termos clássicos, “liberdade”; e esta noção já existia na Grécia através das diferenças entre :
    • Heraclito e Parménides que deram origem ao determinismo ateísta ou naturalista (Heraclito, os epicuristas, Averróis, a escola de Chartres e Joaquim de Fiore, Guilherme de Occam, Giordano Bruno, Espinosa, Hobbes, Hume, Comte, Engels, Russell e todo Positivismo darwinista até Richard Dawkins),
    • e à liberdade cristã, espiritual e quântica (Parménides, Sócrates, Platão, Aristóteles, Plotino, a Patrística, Nicolau de Cusa, S. Tomás de Aquino, Locke, Leibniz, Kant, Berkeley, Karl Jaspers, Wittgenstein, Louis Lavelle, Russell Kirk, Eric Voegelin, etc.).
  4. Com a Idade Moderna deu-se uma ruptura epistemológica.

  5. No sentido moderno, o livre-arbítrio tem a ver com a capacidade de se escolher entre dois ou mais comportamentos sem se inclinar a priori para um lado ou para outro em função de princípios ou axiomas, ou seja, consiste na alegada capacidade do Homem ser causa primeira e absoluta dos seus actos.
  6. Enquanto que o conceito clássico de livre-arbítrio coincidia com a ideia de liberdade no sentido de “produto da vontade”, embora condicionada pelos limites da razão e da existência humanas ― através da aceitação da transcendência divina ―, o conceito moderno (Nietzsche, Carlyle, Ayn Rand, Heidegger, Sartre, Chomsky, Hayek, Deleuze e Guattari, os neo-pragmatistas em geral e Rorty em particular, etc.) de livre-arbítrio pretende libertar o Homem dos condicionalismos da razão e da existência, seja através do conceito de “facticidade” existencialista, seja através de um antropocentrismo absoluto e da separação entre a filosofia e a transcendência (metafísica), restringindo-a à imanência, e que tem o seu pólo oposto ― determinístico, mas igualmente antropocêntrico ― no materialismo dialéctico (Karl Marx, António Gramsci e o marxismo cultural, e as suas evoluções recentes até à teoria do discurso de Foucault e o desconstrucionismo que atingiu o seu auge em Derrida).
  7. Paradoxalmente, aqueles que hoje dizem defender o primado da ciência (positivismo naturalista e determinista) são os que não aceitam a transcendência que esteve na origem “espacial” da própria ciência. Isso significa que essa corrente conceptual positivista do mundo (que desembocou na imanência naturalista moderna) pode estar hoje a limitar a acção da própria ciência do futuro ― dependendo da capacidade da comunidade científica em não se deixar influenciar por essa corrente de pensamento.
  8. Portanto, ser conservador hoje é seguir o conceito clássico de liberdade. Ser libertário (não existem “libertários de esquerda”; a diferença entre o Bloco de Esquerda e o PCP é de estratégia política e não é uma diferença teleológica; ambos os partidos são “deterministas”) é seguir o conceito modernista ― que surgiu com a sociedade de massas e com o gnosticismo ― de “liberdade”. Ambos os conceitos implicam uma acção política concreta, isto é, não podemos dizer que um conservador não actua na vida política e que só o libertário o faz.

Em resumo:

  • O determinismo (ateísmo e naturalismo) acredita que o Homem é produto de um acaso da Natureza e que a consciência humana não é senão um epifenómeno da matéria cerebral, e tanto a natureza como o Homem serão finalmente compreendidos daqui a alguns mil milhões de anos-luz quando certamente o Homem ainda continuar a existir, depois de ter construído o paraíso na Terra através da divinização do Homem (Marx, Dawkins, Sagan, etc.)
  • O libertarismo coloca em causa o determinismo através do conceito de livre-arbítrio moderno e antropocêntrico que teve origem no gnosticismo, seja este de origem cristã (Carlyle, etc.) ou pré-cristã (Nietzsche), embora adoptando a imanência de algum tipo de divindade (como o “super-homem” de Nietzsche).
  • O conservadorismo segue o conceito clássico de livre-arbítrio.

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