
Absurdo com pernas
Eu estou de acordo com esta proposição respigada no blogue do Padre Nuno Serras Pereira. Todos os valores relativos ― aqueles a que nos agarramos na nossa subjectividade ― referem-se a valores absolutos. Todos os fins particulares ― incluídos, obviamente, o meu e o teu ― são apenas os meios ou fases do fim supremo que é o progresso da “consciência” entendida individualmente e colectivamente. Porém, existe a necessidade ― que é fruto da nossa liberdade e por esta determinada ― de contribuirmos para a formação de uma sociedade entre todas as consciências, de modo tal que cada uma delas dê e receba de forma a que, por mútua mediação se estabeleça, por assim dizer, uma criação recíproca da qual depende o despertar das existências mais primitivas.
Quando sabemos que a mentira é o principal meio de acção da política modernista, é sempre um risco submeter a razão à opinião. O princípio do referendo faz parte do “método discursivo” de definição da universalidade da moral proposto pelo marxista cultural Habermas e de que falei aqui. O “método discursivo” é falacioso porque não existe necessariamente uma intenção a priori interior e solidificada no cidadão que afirma um compromisso moral ― um ladrão pode afirmar perante todos nós, a comunidade inteira, que é imoral roubar e continuar a fazê-lo. Portanto, Habermas está errado e o seu “método discursivo” pode-se tornar em mais um instrumento da mentira como principal meio de acção política. Porém, esse método dá-nos ao menos a possibilidade do contraditório em um tempo em que as elites políticas e culturais cada vez mais tendem a impôr as suas vontades e “verdades” sem sequer já olhar ao discurso da opinião ― chegamos a uma situação tal que o próprio “método discursivo” de Habermas já é colocado de parte e desprezado pelas elites.
Uma coisa é certa: a Igreja católica não pode continuar a lavar as mãos como Pilatos, constrangida pelas invectivas irracionais daqueles que pretendem impôr a lei da rolha a uma comunidade da sociedade civil ― como é a ICAR ― que tem todo o direito, não só à opinião individualizada e colectiva dos seus membros (que são todos os cidadãos católicos), como à plena acção política no seio da sua comunidade e da sociedade em geral. A Igreja é o conjunto de cidadãos católicos e ninguém tem o direito de coarctar a liberdade de expressão e de acção política desses cidadãos ― do mais humilde servidor ou crente ao mais alto representante da hierarquia católica.




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Nuno Serras Pereira malha forte e feio! É mesmo assim que se fala.
Comentário por Henrique — Sábado, 7 Novembro 2009 @ 8:45 am