perspectivas

Domingo, 12 Julho 2009

Será que ‘progresso’ é sempre evolução?

Arquivado em: politicamente correcto — O. Braga @ 9:37 pm

Este postal publicado no Falta de Tempo abre com a seguinte afirmação:

«O artigo de Nick Herbert publicado há quatro dias no Guardian tenta interpretar porque é que os Conservadores estão a ganhar votos junto da população homossexual: o argumento clássico da homofobia da “direita” já não colhe porque a “direita” mudou.»


Já lá vou ao artigo do Guardian, mas antes convém dizer que “a direita não mudou”, porque desde Hayek e Von Mises que existem duas direitas: a libertária e a conservadora. No caso inglês, temos que ter em consideração os seguintes factos:

  1. O sistema eleitoral inglês favorece o bi-partidarismo, o que não incentiva o aparecimento de partidos políticos alternativos aos whigs e tories. Existe um partido liberal no RU que não se consegue impôr exactamente devido ao sistema eleitoral inglês; este partido liberal seria o partido da direita libertária, mas devido ao sistema eleitoral e ao tradicionalismo típico inglês, os tories tendem a aglomerar todas as tendências da direita.
  2. Do ponto anterior podemos logicamente deduzir que o conservadorismo é incompatível com o desprezo pelas tradições, sejam elas religiosas ou outras. No caso inglês, simplesmente existe uma colagem da direita libertária aos tories pelas razões apontadas. Naturalmente que os líderes dos tories não rejeitam eleitorado, o que não significa que “a direita mudou”.
  3. É um contra-senso dizer que o conservadorismo é contra a religião. O que poderíamos eventualmente dizer é que os tories deixaram de ser um partido conservador para se passarem para a direita libertária, mas isso não está ainda provado. Aliás, Nick Herbert faz referência expressa à diferença entre o “Conservative party” e o “old Conservative party”.
    Segundo o princípio de identidade, uma coisa não pode ser simultaneamente idêntica e diferente de si mesma. Ou o “Conservative party” é o “Conservative party”, ou já não é.
  4. O articulista do Guardian (Nick Herbert), é um político activista gay, e portanto o artigo foi “moldado” de modo a “levar a carta a Garcia”.
  5. É preciso fazer nota de que não existe “casamento” gay em Inglaterra, mas “uniões civis” para os gays. O que a esquerda portuguesa exige é a equalização das situações, o que não acontece na Inglaterra do Nick Herbert.
  6. A igreja anglicana, como igreja do Estado britânico ( o que não acontece em Portugal com a ICAR, que é independente do Estado), está totalmente controlada pelo poder político de quem depende. A manifestação pública do clero anglicano é altamente condicionada por influências políticas.

Por exemplo, não podemos esquecer que o eugenismo, que tanto criticamos nos nazis, nasceu em Inglaterra e teve muitos adeptos entre os conservadores ingleses. A primeira organização mundial eugénica nasceu em Londres. Nem por isso podemos dizer que a “mudança” que o eugenismo introduziu na sociedade inglesa do século 19 e princípios do século 20, e que se expandiu para os Estados Unidos com políticas de infertilização compulsória de mais de 66 mil cidadãos americanos considerados “inferiores”, foi sinónimo de progresso. Mas naquela altura, quem dissesse que a aplicação política do eugenismo não era sinal de progresso era considerado maluquinho e retrógrado.

A evolução não significa alienação de princípios de forma irracional. Eu estou disposto a alienar qualquer princípio meu desde que expliquem por que é que o devo fazer. A ideia que pode passar no postal do Lino (não digo que foi isso que ele quis fazer) é que a mudança, em si mesma, é sempre positiva, e que portanto o voto gay nos tories traduz uma simples evolução ― no sentido do progresso ― da sociedade inglesa, através da elevação do comportamento gay a um princípio moral. Eu até posso aceitar o argumento de Nick Herbert desde que me provem racionalmente que esse princípio moral é evidente. Contudo tenho imensas dúvidas que alguém tenha traquejo intelectual para me fazer essa prova. Contudo, fica aqui o desafio.

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