Erasmo de Roterdão (1466 ― 1536), sendo um clérigo católico, foi o verdadeiro precursor do luteranismo com as críticas que fez à estrutura da Igreja Católica. Porém, quando Lutero o convidou a integrar o protestantismo, Erasmo recusou porque viu no luteranismo algo ainda pior do que o catolicismo: o reforço absoluto do poder temporal dos reis e príncipes sobre os povos. Através do luteranismo, a religião submeteu-se totalmente ao poder político das elites saídas da Idade Média, assumindo perante o povo um determinismo fáctico que o impelia a aceitar a realidade do absolutismo dos príncipes sem qualquer possibilidade de reclamar.
A partir do momento em que se instala o luteranismo na Alemanha, a vida intelectual desaparece deste país, e até meados do século 18 a intelectualidade habitou os países católicos e a Inglaterra do anglicanismo: só com Leibniz a Alemanha teve um reluzir de alguma genialidade até que entrou o Iluminismo ― que não é de origem alemã, mas oriundo de países não luteranos como a Itália, França e Inglaterra ― com o aparecimento de Wolf já em finais do século 17. O luteranismo reforçou o absolutismo político e deu uma machadada decisiva no humanismo renascentista: a Alemanha mergulhou, a partir de Lutero, em praticamente três séculos de vazio intelectual, com a excepção de Leibniz pelo meio.
Portanto, Erasmo foi o ideólogo da rotura com o seu “Elogio da Loucura”, mas foi também aquele que recusou a forma como a rotura foi feita. A partir da Reforma, a Igreja Católica avançou com a Contra-reforma (Concílio de Trento, 1545-1563), que consistiu basicamente na própria reforma da ICAR no sentido do retorno ao período patrístico, que corresponde ao período que decorre entre o século I e o século V da nossa Era (que inclui Santo Agostinho), e um retorno ao tomismo. A Contra-reforma abandona a vida eclesiástica mansa e acomodada para um retorno ao proselitismo dos primeiros cristãos, ao mesmo tempo que recusa o absolutismo do poder dos príncipes sobre a religião e sobre os povos ― atribuindo ao poder político dos estados apenas o fundamento contingente e mutável da vontade popular. A consequência (indirecta) da Contra-reforma foi uma maior liberdade relativa nos países europeus não-luteranos de poderem produzir a cultura e a ciência que permitiu, no século 18, o Iluminismo.
Naturalmente que a História não se repete, mas é sempre interessante fazer um exercício comparativo. O período que se seguiu à guerra de 1939-1945 foi uma espécie de mini-renascimento, que se constituiu como uma pequena e efémera libertação do Homem das garras do controlo ideológico positivista, na medida que as sociedades gozaram da liberdade em termos gerais ― na religião, nas artes, nas ideias e até na interpretação da História. Podemos chamar ao Pós-modernismo um “mini-renascimento”. Com o Pós-modernismo ― que é o período que vai desde o fim da II Guerra Mundial até à queda do muro de Berlim em finais da década de 80 ― assistimos a um retorno do Homem a um classicismo actualizado.
O Iluminismo, que tinha em si um ideário promissor de liberdade pela revolução, descambou nas ditaduras mais sanguinárias que a História conheceu. Podemos falar numa “escolástica darwinista” que dominou todo o século 19 e que terminou com o fim de Hitler e com o surgimento do mini-renascimento do pós-modernismo. O mesmo aconteceu com o luteranismo: prometeu o retorno aos Evangelhos mas acabou por induzir o povo a aceitar, sem remissão, a tirania.
Hoje, este mini-renascimento do pós-modernismo está ameaçado pelo Presentismo. Hoje, embora ainda vivamos no pós-modernismo, pairam já sobre nós as nuvens negras de uma nova era: o Presentismo.
O Presentismo é o retorno à “escolástica darwinista” do século 19, embora assumindo novas formas e uma mais elaborada sofisticação ideológica. O Presentismo é a negação total e radical da História; é o retorno do absolutismo político do leviatão em nome da ideologia da escatologia redentora ― tal como o luteranismo o foi no seu tempo. É a submissão total e absoluta dos povos aos novos príncipes. É a recusa das origens do Homem em nome de um fanatismo ideológico. É a censura das ideias em nome de uma só ideologia considerada correcta e que serve exclusivamente as novas elites. É a procura de uma mundialização política onde não exista lugar para a dissensão e onde o exilado político passará a ser alguém que discorda na prisão ou no cemitério ― como podem existir exilados políticos num governo mundial? É a morte anunciada da liberdade; é uma nova Idade Média que se aproxima.
Seria necessário que a Igreja Católica se empenhasse numa nova Contra-reforma que fizesse valer os valores históricos da humanidade através do retorno às origens. O que fez Bento XVI? Através da Encíclica Caritas in Veritate, soçobrou, submeteu a religião ao poder absoluto dos novos príncipes; o catolicismo cedeu à tentação de Lutero.









