Eduardo Lourenço lança esta semana um novo livro com o título “Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História?”, através da editora Gradiva. Na versão impressa do Jornal de Notícias de hoje, tive acesso a duas páginas de jornal com uma amostra do livro. Passo a citar um trecho do texto publicado no JN:
Neste ofício angelista o socialismo não deixou a sociedade entregue aos seus demónios, limitou-os e limitou-os como Poder ― mesmo sobre outro nome, como reformismo ― mas a sua impotência, ao menos aparente, está pedindo é uma autêntica revisitação da sua mitologia, simultaneamente sublime e simplificadora. Entre os escolhos simétricos da “má consciência” da História (como capitalismo) e da “boa consciência” dessa História (como socialismo), a senda é estreita. Tão estreita neste momento que aparece fora de alcance. O tipo de sociedade em que nos convertemos é tão alienado e alienante que nem a mais magnífica utopia que inventámos para dar um futuro com o nosso rosto é capaz de convocar a paixão e o sonho que a fizeram nascer. Tanto pior para nós. »

Eduardo Lourenço
A julgar pela amostra, o livro é o reconhecimento da culpa do capitalismo no fracasso do socialismo. É um pouco como aquela equipa que perde e que está para descer de divisão, e que culpa invariavelmente a equipa adversária em cada sua derrota, não encarando a derrota como resultado da própria lógica do jogo, mas como algo que não era suposto acontecer em função de uma mítica invencibilidade apriorística.
Na sua análise, Eduardo Lourenço (Wikipédia) comete o erro de quem vive o sistema fechado de Goedel: estando dentro do sistema, Lourenço não consegue vislumbrar as contradições do sistema que analisa, porque ele raciocina em termos característicos do próprio sistema. Quando Lourenço fala em “socialismo”, logicamente que se refere ao marxismo até porque faz alusão ao “socialismo reformador” ou “social democracia” com algum preconceito negativo. O que Lourenço parece incapaz de reconhecer ― quando fala na necessidade de uma “autêntica revisitação da mitologia” marxista ― é que o socialismo, com a sua consequente base ideológica marxista, é essencialmente contra a natureza humana em duplo sentido: primeiro, a natureza humana não é igualitarista; em segundo lugar, o marxismo é contrário à liberdade que o Homem naturalmente anseia.
Sendo o socialismo ― e o marxismo ― corruptelas do gnosticismo cristão, e em vez de se aliar às religiões que seriam, em princípio, aliados morais válidos contra o tal “capitalismo selvagem”, o socialismo combateu o Cristianismo europeu sem quartel e piedade; basta ver o que está a acontecer com a Espanha de Zapatero ― e a aliança anti-cultura portuguesa demonstrada entre o Bloco de Esquerda e o partido comunista português, com a ajuda do PS de Manuel Alegre (numas coisas) e José Sócrates (noutras) ― para percebermos como o socialismo procede ao seu próprio haraquiri em passo acelerado. Com a queda do muro de Berlim, o socialismo acantonou-se à sombra da religião maçónica tão cara a Lourenço, mas que pouco tinha a ver com a realidade social europeia.
Eduardo Lourenço engaja-se activamente no maniqueísmo politicamente correcto dos “escolhos simétricos” dos bons e dos maus da História, como se esta fosse um filme de índios e cow boys em que era suposto o rancheiro galã levar a dama no fim da estória. A imanentização da escatologia do paraíso na terra através do legado de um messianismo judaico ― que o beque de Lourenço não esconde ―, não percebe que não existe nem a certeza do futuro nem uma ideologia que torne esse futuro perfeito.
E depois, o socialismo tem outro problema que o incompatibiliza com a “guerra” contra o “capitalismo globalizante” : o socialismo é geneticamente internacionalista; mesmo quando o socialismo surgiu na Europa como sendo nacionalista, não hesitou em invadir os países vizinhos na tentativa de construção de um leviatão. Os mais de 200 milhões de mortos causados pelo socialismo só no século XX transformam as congeminações de Eduardo Lourenço num monólogo patético.
Perante um capitalismo “neoliberal globalizante”, o socialismo internacionalista deixou de saber se “há-de evacuar ou dar corda ao relógio” ― as duas estratégias ideológicas confundem-se, e a verdadeira oposição à globalização capitalista sem regras vêm agora das hostes conservadoras nacionalistas que defendem a liberdade de acção humana escorada na ética cristã, e na necessidade de um Renascimento que vá beber às origens da Europa as ideias para que o futuro não seja “alienante nem alienado”.




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