Para além da confusão (propositada) dos argumentos a favor de um “casamento” gay, há uma pergunta a que sistematicamente se foge: deverá ser também alterado o Código Civil para acomodar os “casamentos” entre irmãos e/ou o “casamento” entre um pai e uma filha (por exemplo)?
Reparem neste texto:
Para mim é fácil de entender: o facto de uma irmã e um irmão (adultos e idóneos) não quererem casar não inibiria o “direito” de o fazer ― na mesma lógica do “casamento” gay. O problema é que o argumento invocado ignora ostensivamente todos os “direitos” que possam existir, mas que não estão consagrados na lei, em favor da celebração do “direito” dos gays. De igual modo, e segundo o raciocínio e lógica invocados, um pai e uma filha (adultos e idóneos) teriam o “direito” ao casamento.
Portanto, o problema que se coloca não é o do laicismo contra a religião (ou vice-versa): é simplesmente o de encontrar uma lógica para o argumento do “direito” do “casamento” gay. A tentativa de fazer de conta que não existe uma contradição intrínseca ao próprio argumento, e que tudo se resume a uma guerra entre laicos e religiosos, retira a credibilidade a quem o defende.
A questão pode ser resumida assim: “ou há moralidade ou comem todos”. E havendo moralidade, há que constatar o facto de o casamento ser anterior ao próprio Estado e ao direito positivo; é essa a principal razão porque o casamento é heterossexual e baseado no “tabu” cultural. Podemos, depois, discutir a monogamia, a poligamia, a poliandria, o matriarcado e o patriarcado, etc., mas sempre partindo do princípio do casamento como sendo heterossexual, segundo a lei natural.
Adenda: “A cultura consiste num cânone de tabus ou, dito de outra maneira, uma cultura sem tabus é um círculo quadrado.”
— Leszek Kolakowski



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