perspectivas

Quinta-feira, 18 Junho 2009

Karl Jaspers e a verdade

Filed under: filosofia,Religare — O. Braga @ 10:09 pm
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O filósofo é um pouco como o artista: tem fases. Karl Jaspers não foge à regra. Ao lermos as obras dele podemos verificar pequenas contradições ideológicas ao longo do tempo.

Embora existencialista, Karl Jaspers merece-me respeito porque é honesto ― “honesto” aqui entendido como demonstrando a capacidade de reconhecer o que é minimamente óbvio e racional. Para Karl Jaspers, a verdade é limitada pela transcendência inerente à existência; depois de Kierkegaard, Jaspers será o único existencialista que reconhece a transcendência no sentido metafísico clássico do termo. No texto que se segue, a letra a cor azul diz respeito à “lógica filosófica” de Karl Jaspers aplicado ao tema da Verdade.

existenciaA “verdade” não é a “certeza” ― desde logo porque esta diz respeito ao conhecimento racional inerente à condição humana; quantas certezas de um determinado tempo se tornaram falsas noutro tempo? Portanto, as certezas mudam com o tempo e à medida em que o conhecimento sobre a realidade avança ― constato aqui o óbvio por necessidade de articulação ideológica.
Portanto, a verdade pressupõe um “absoluto” e um caminho do conhecimento em direcção e sentido desse absoluto. Quando falamos em “verdade”, esta é por inerência absoluta; quando relativizamos a verdade ― por exemplo: “é verdade que o Homem visitou a lua, embora ainda existam pessoas que não acreditam nessa verdade” ― apontamos um caminho para o absoluto dessa verdade.

Sendo a verdade, absoluta, ela é transcendente, ou seja, transcende o Homem entendido individual e colectivamente. Karl Jaspers diz que se a verdade é “una” no sentido do transcendente, ela não é “única” no sentido em que nenhum Homem e nenhuma instituição humana tem o monopólio da verdade. Portanto, a “nossa verdade” ― segundo Karl Jaspers ― não é a “verdade” entendida em termos absolutos. Por outro lado, a “verdade” não é a soma aritmética das “verdades individuais” dos cerca de 7 mil milhões de seres humanos vivos e dos muitos mais que existiram no tempo e que nos deixaram o testemunho escrito das suas “verdades”.
Se separarmos a “verdade”, da “existência” ― entendida como “realidade existencial”, realidade que engloba o Todo ―, caímos no relativismo e no cepticismo, porque existiriam tantas “verdades” como existências individuais. Reconhecer que há muitas verdades e que todas se equivalem é olhar a verdade a partir do “exterior” ― é transformar a verdade em objecto e olhá-la a partir de nós próprios como sujeitos, é transformar a nossa relação com a verdade numa relação sujeito / objecto.

A visão de Karl Jaspers acerca da “verdade” é interessante porque denuncia a forma como o ateísmo se debruça sobre a existência de Deus. O ateísmo pretende afirmar a não existência de Deus baseando-se numa lógica de observação sujeito / objecto, em que Deus seria o objecto. Ora Jaspers vem dizer que a “verdade” não pode ser olhada numa perspectiva de relação sujeito / objecto na medida em que ela (a verdade) é a própria existência ― exactamente da mesma forma que não podemos olhar Deus numa relação sujeito / objecto porque a existência é parte de Deus. Da mesma forma que não nos podemos colocar de fora da “verdade” para a analisar, não podemos colocar de fora de Deus para O analisar, porque se Ele é omnisciente, omnipresente e omnipotente, Ele está em nós e “para além” de nós.

Karl Jaspers critica o dogmatismo e o cepticismo, e inclui no dogmatismo o exclusivismo do “ponto de vista do catolicismo” (crítica à Igreja Católica). Contudo, falta saber que caminho para a verdade deve o Homem trilhar, porque se o cepticismo não faz parte desse caminho para a verdade e o dogmatismo assume a “nossa verdade” com a verdade única para todos, ficamos sem saber como podemos ir descobrindo a verdade.

Se o reconhecimento da verdade da minha existência deve levar ao reconhecimento da verdade das outras existências, e dado que nenhuma das verdades individuais é uma verdade completa ― se a verdade de outrem é a verdade de alguém que procura comigo a “verdade una” ―, falta-nos definir o caminho certo para nos dirigirmos em direcção a essa “verdade una”, sendo certo que esta é transcendente e portanto inacessível na sua totalidade à compreensão humana. Mas o facto de nós não podermos compreender, sob o ponto de vista racional, a verdade una, não significa que a não possamos intuir ― e a intuição é uma forma de conhecer. Ora esse caminho para a verdade una não é apontado por Karl Jaspers, nem sequer estabelece critérios mínimos para a projecção objectiva desse caminho. A lógica filosófica de Karl Jaspers pretende somente manter aberta a possibilidade de comunicação entre as existências singulares [individuais], cada uma das quais está vinculada à sua própria verdade, mas não dá pistas para o caminho para conhecer a “verdade una” ou “transcendente”.

Eu não tenho dificuldade nenhuma em reconhecer que a verdade de cada um dos seres humanos é uma verdade relativa que depende não só do nível de conhecimentos racionais adquiridos ― que são múltiplos e não só académicos ― como do nível de evolução espiritual em que se encontre esse ser humano. Também me parece óbvio o reconhecimento de que se existe uma ordem universal reconhecida pelas invariantes universais [as Formas, de Platão] das quais se extraem as leis da ciência, essa ordem universal encerra em si mesma uma verdade absoluta que nos transcende, a que Karl Jaspers chama de “verdade una”. Mas o facto de essa verdade ser absoluta e por isso nos transcender, não significa que o Homem desista de a procurar, e nessa procura consiste a essência da própria existência.

Por fim, Karl Jaspers distingue claramente a verdade individual ― o “ponto de vista” ― da “filosofia autêntica”, porque esta nunca pode ser considerada como um “ponto de vista” entre tantos outros, porque supera todos os “pontos de vista” e não é um “ponto de vista”. Portanto, se Karl Jaspers critica o dogmatismo (nomeadamente, o religioso), se critica o cepticismo (nomeadamente, o ateísmo), também critica a verdade individual relativizada e afirmada como sendo válida sem uma sustentação racional e filosófica. Portanto, eu não posso dizer que “a minha opinião se aproxima da verdade una” sem uma fundamentação filosófica. O problema é saber se, mesmo que eu fundamente o meu “ponto de vista” em alicerces filosóficos seguros, se essa fundamentação é suficiente para que os biliões de pontos de vista diferentes concordem com essa minha fundamentação.

Portanto, Karl Jaspers faz um diagnóstico sobre a verdade mas não aponta os caminhos para se chegar à “verdade una”. Ora esse caminho só pode ser encontrado na fé e na revelação, e este será o objecto do próximo postal.

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