perspectivas

Domingo, 14 Junho 2009

O próximo passo uniformizador da União Europeia será o de eliminar as línguas menores do parlamento europeu

Arquivado em: Europa, Portugal — O. Braga @ 3:24 pm
Tags: , , , ,

Quando Cavaco Silva falou recentemente em Nápoles lamentando a abstenção massiva para as eleições europeias, falou em português para as câmaras das televisões portuguesas. Mas Cavaco Silva sabe que a língua portuguesa está morta, a prazo, dentro das instituições europeias. E se ele não soubesse, seria inconsciente; e como sabe, esconde a verdade aos portugueses.

babel

A verdade é que existem neste momento 23 línguas diferentes no parlamento europeu, e 403 tradutores simultâneos para traduzirem 506 possibilidades de discursos (22 * 23 = 506) realizados no parlamento europeu. Para além dos tradutores, existe uma panóplia de ajudantes e assistentes destes na ordem dos milhares de membros.

Já imaginaram a UE encontrar tradutores suficientes para português – búlgaro, ou para grego – finlandês? O que se passa na realidade é que quando um deputado búlgaro discursa no parlamento europeu, a tradução é feita para o inglês, francês e alemão, e depois existe lá um português que faz a tradução do discurso do inglês para o português ― isto é, quando o búlgaro acaba de falar, ainda a tradução do discurso do inglês para o português vai a meio. E o pior não é isso: é que parte do sentido daquilo que é dito perde-se em função de traduções de “segunda ou terceira mão”. Quando o deputado búlgaro inclui uma piada no seu discurso, o parlamento desata à gargalhada passada meia-hora.

Cavaco Silva sabe que, em termos práticos, a situação é insustentável e que as línguas consideradas “menores” serão banidas das instituições da União Europeia, e a curto prazo. Cavaco Silva sabe que a eliminação da língua portuguesa das instituições europeias depende da entrada em vigor do Tratado de Lisboa; Cavaco Silva sabe que é urgente que o Tratado de Lisboa entre em vigor para que a língua portuguesa seja riscada do mapa político da Europa. Cavaco Silva concorda com a retirada da língua portuguesa do concerto das nações europeias.

Para a União Europeia, a língua portuguesa é equivalente à língua búlgara, isto é, o português chegou à União Europeia e “bulgarizou-se”. :smile:

Apesar de existirem perto de 300 milhões de falantes do português em todo o mundo, a lógica europeia é a de circunscrever as línguas oficiais, a saber: o inglês, como não poderia deixar de ser; o francês, não vá ferir-se o chauvinismo gaulês; o alemão, em nome de 80 milhões e da indústria pesada. É natural que os italianos puxem dos galões e façam alarde; mas a exigência europeia em relação aos portugueses será univocamente uma: falem espanhol!

O problema é saber com que legitimidade moral se poderá eliminar o búlgaro ou o lituano do rol das línguas oficiais da UE, e manter o português. Para a mentalidade dos burocratas europeus, todas as “línguas menores” são equivalentes ― português, grego, lituano, sueco, norueguês, dinamarquês, romeno, croata, esloveno, finlandês, holandês, flamengo, maltês, mirandês, alentejano, etc.: é tudo a mesma mixórdia. E depois, ainda temos as línguas que também querem entrar para UE e acrescentar-se às 23 línguas existentes: corso, catalão, basco e gaélico, o que ainda não aconteceu exactamente porque são consideradas “línguas menores”.

Portanto, Cavaco Silva sabe que a médio prazo, os deputados portugueses ao parlamento europeu terão que falar correctamente inglês, francês ou alemão ― ou portunhol! Ele sabe mas não diz nada.

Sem comentários ainda »

Ainda sem comentários.

Feed RSS para comentários a este post. TrackBack URI

Publicar um comentário

  • Visitantes

    • 426,053 hits
  • Spam Blocked

  • Arquivos




  • Actualizações


  • Blog em WordPress.com.