Em todas as sociedades existe o sagrado e o profano que funcionam em binómio. Ao contrário do que comummente se julga, este binómio não está só intimamente ligado às religiões propriamente ditas, mas também à religiosidade humana em termos gerais entendida tanto do ponto de vista subjectivo como na relação que essa subjectividade tem com a realidade objectiva [concreta]. Neste sentido, todo o ser humano ― em qualquer época ― desenvolve o seu “sagrado por si mesmo”, que é subjectivo; mas esta subjectividade não está nem pode estar desligada da realidade concreta que sustém a cultura de uma sociedade.
Quando uma sociedade se atomiza ― isto é, quando a sociedade se subdivide de tal forma que as comunidades da sociedade civil deixam de fazer sentido e a unidade sócio-cultural passa a ser exclusivamente constituída pelo “indivíduo face ao Estado” ―, a noção de sagrado e profano passa a ser praticamente entendida em termos subjectivos e sem nenhuma conexão com a realidade concreta que constitui a sociedade e a cultura. Numa sociedade atomizada, instala-se invariavelmente a crise de valores com consequência na economia e em todos os outros ramos da actividade humana. Uma coisa é não existir um consenso sócio-cultural unanimista acerca do que é sagrado e do que é profano; outra coisa é verificar-se que este binómio se dissocia da intersubjectividade necessária à harmonia e desenvolvimento de qualquer sociedade.
Numa sociedade saudável, existe uma tensão entre aquilo que é sagrado ― e que por isso merece o respeito em termos maioritariamente consensuais ― e aquilo que é profano ― que é objecto do desejo de posse. Esta tensão é objecto de consenso alargado na sociedade, isto é, existe um consenso cultural mínimo [denominador comum] entre o sagrado subjectivo e o sagrado cultural e objectivo. Por exemplo, o tabu apareceu como uma forma arcaica do sagrado; sem o tabu, as sociedades primitivas não se poderiam organizar e desenvolver. O tabu regula exactamente essa tensão entre aquilo que merece respeito geral na sociedade [sagrado] e que merece um consenso geral, e aquilo que pode e deve ser objecto de desejo de posse [profano].
Uma das características do sagrado é que se constrói essencialmente a partir do indivíduo para o grupo [de baixo para cima] e não pode ser imposto ideologicamente do topo da sociedade para o indivíduo [de cima para baixo]. Quando o “sagrado cultural colectivo” ― entendido como súmula do conjunto das religiosidades individuais e subjectivas ― se pulveriza e se reduz praticamente à sua dimensão individual e sem uma ligação concreta com o consenso cultural geral, assistimos a uma atomização da sociedade. Esta atomização é imposta pelas ideologias [de cima para baixo] que não respeitam o ser humano na sua dimensão subjectiva, isto é, é impossível que uma ideologia que conduz uma sociedade para um totalitarismo consiga o seu desiderato sem uma atomização prévia da sociedade; assim aconteceu com os totalitarismos ideológicos [nazismo, fascismo, marxismo] na Europa do século XX.
Tudo aquilo que se constituía consensualmente como sendo sagrado na nossa sociedade tem vindo a ser desmantelado pelas ideologias para-totalitárias, sem a oferta de um combustível moral alternativo. Está em curso, de facto, a atomização da nossa sociedade, em que o sagrado passa a fazer parte exclusiva e hermeticamente fechada da subjectividade religiosa de cada ser humano e não se extrapola para o grupo de forma a moldar o “sagrado cultural colectivo”, porque as ideologias [politicamente correcto] não permitem a expressão da religiosidade individual e subjectiva e a sua natural extrapolação para o grupo.
Antes da economia, das finanças e da política, a crise actual foi causada pela atomização da sociedade ocidental. Hoje, o que é sagrado e profano torna-se num “segredo” trancado a sete chaves em cada ser humano entendido na sua subjectividade. Hoje, o tabu cultural é a própria expressão individual e colectiva do sagrado. Estes são os sinais óbvios e evidentes de que caminhamos para um sistema político totalitário.




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