perspectivas

Sábado, 2 Maio 2009

A desordem de Richard Dawkins

Arquivado em: Religare — O. Braga @ 5:19 am
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Chamo a V/ atenção para o seguinte artigo da britânica Melanie Phillips no “The Spectator” :

The Truth Delusion Of Richard Dawkins

The most famous atheist in the world, biologist Professor Richard Dawkins, poses as the arch-apostle of reason, a scientist who stands for empirical truth in opposition to obscurantism and lies. What follows suggests that in fact he is sloppy and cavalier with both facts and reasoning to a disturbing degree.

(ler o resto)

Talvez venha a comentar o artigo noutro postal; gostaria agora de transcrever um trecho de Dawkins no seu livro “River Out of Eden: A Darwinian View of Life” (tenho a versão em PDF; quem quiser…):


“Num universo de forças físicas cegas e réplicas genéticas, umas pessoas prejudicam-se e outras pessoas têm sorte, e não há uma razão para que isso aconteça, nem existe justiça. O universo que observamos (…) não foi desenhado, não tem um propósito ou finalidade, não existem o bem e o mal ― não existe nada senão uma indiferença impiedosa e cega.”



tetraktys

O que mais me surpreende em Dawkins é a sua incapacidade de raciocínio lógico-matemático, e no entanto ele é biólogo. O que Dawkins diz no trecho é que não existe uma ordem cósmica. Eu já não queria que Dawkins reconhecesse a existência de Deus; ficaria contente se ele reconhecesse, pelo menos, a existência de uma ordem cósmica, mas nem isso ele faz.

Melhor dizendo: a ordem cósmica de Dawkins é a “desordem cósmica”; a desordem é a ordem.

Dawkins parte do princípio que o “caos” (o aleatório) não é uma “ordem”.

Pergunto: a ordem de alguma coisa pode ser o caos (desordem)? O caos é o reino do aleatório, tal qual é a ideia de universo que Dawkins defende. Vamos partir do princípio de que Dawkins está certo: “o universo é cego, e por isso não tem uma ordem”.

Existe alguma ordem num sistema aleatório? Claro que existe, porque o aleatório como sistema não pode existir sem uma base lógica que o sustente racionalmente, e essa base racional é o Ápeiron dos gregos pré-socráticos, que consiste no princípio infinito que se regula por uma lei necessária.

O “aleatório absoluto” é uma impossibilidade física porque significaria a negação da própria realidade que determina e circunscreve os fenómenos aleatórios ao espaço-tempo, e é uma impossibilidade matemática porque teria que estar para além do Tempo Total ou Universal ― o espaço-tempo decorrido desde o Big-Bang ― , isto é, o número das possibilidades do aleatório absoluto teria que ser superior a 10,00E + 90 (o número 10 seguido de 90 zeros). Até o aleatório tem os seus limites no próprio espaço-tempo do universo. Neste sentido, podemos dizer que um sistema aleatório é a “ordem do caos”.
O que me surpreende é que os gregos pré-socráticos, que viveram 500 anos antes de Cristo, tiveram uma capacidade de raciocínio que Dawkins não tem…

Portanto, mesmo no mundo aleatório de Dawkins, teria que existir uma ordem cósmica que circunscrevesse o caos, e a partir do momento em que essa ordem é verificada, o aleatório passa a ser uma aparência ― assim como nos pareceu que o sol andava à volta da Terra; assim como nos pareceu que a Terra era o centro do universo; assim como nos parece que a cadeira onde estamos sentados é sólida, quando na verdade é mais espaço do que outra coisa qualquer; assim como nos parece que a luz são partículas, mas às vezes parece que são ondas…

Se para Dawkins aquilo que lhe parece é tão óbvio, para que é que ele tirou um curso de zoologia?

4 Comentários »

  1. E como explica ele algo de tão insignificante como o numero d’ouro ? 1,61803399

    Comentário por D — Terça-feira, 5 Maio 2009 @ 9:38 am

  2. 1,61803399 é o FI de que o “Código Da Vinci” nos fala.

    http://www.michelsouza.com.br/2008/07/161803399-proporo-aurea.html

    http://www.mixtotal.net/2008/12/misterio-da-beleza-o-numero-de-ouro.html

    Comentário por O. Braga — Terça-feira, 5 Maio 2009 @ 11:17 am

  3. …E para quê querer justificar a ordem do universo, se tudo que pressupomos existir pode ser associado a vontade de Alguém ?
    Para aqueles que conversam com Alguém que não responde, é melhor deixar tudo por conta do Mesmo…não ?

    Comentário por Eu — Sábado, 23 Maio 2009 @ 1:40 am

  4. @ EU:

    Sobre a “vontade de Alguém”, ler:

    http://espectivas.wordpress.com/2009/05/23/o-livre-arbitrio-3/

    De facto, a vontade de Alguém não impõe um determinismo na acção senão a níveis inferiores de consciência (na sequência de postais sobre o livre arbítrio falarei sobre o pan-psiquismo e o hiloizismo, embora ambas as teorias sejam redutoras face à quântica).

    Quando falamos connosco próprios — através do pensamento auto-reflexivo [António Damásio] que nos relaciona com a observação da reacção dos nossos próprios actos –, também poderíamos dizer que falamos com “alguém que não responde” senão acontecesse o facto de esse solilóquio estar imbuído de uma dialéctica : tese, antítese e síntese. Portanto, nem todos os monólogos são destituídos de um interlocutor (basta ler o “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa para nos apercebermos disso).

    Segundo Descartes, o grau mais baixo de liberdade é caracterizado pela indiferença. Ao “deixarmos tudo por conta do Mesmo”, escolhemos a escravidão imposta por nós próprios a nós mesmos, e não imposta por outra entidade qualquer.

    Comentário por O. Braga — Sábado, 23 Maio 2009 @ 4:44 pm


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