perspectivas

Quinta-feira, 19 Março 2009

O Realismo Naturalista e a sua crítica (2)

Filed under: filosofia — orlando braga @ 2:53 pm

Podemos dizer que George Santayana (GS) foi um materialista e portanto ateu, como todos os realistas. Porém, não sendo religioso, Santayana considerava contudo que a religião era essencial ao ser humano, o que significa que antes do ateu existia o “céptico total”, que duvidava de tudo incluindo a própria ciência. Portanto, Santayana era ateu porque era céptico em relação à capacidade humana de domínio sobre o conhecimento. O que é interessante em Santayana não é a sua filosofia em si, mas a as dúvidas que a sua teoria levanta, isto é, ele não se fecha em conceitos baseados em crenças materialistas, e nessa medida constitui-se como crítico do realismo ― ele foi o exemplo acabado de como um materialista intelectualmente honesto, embora céptico, é sempre alguém que se abre à possibilidade da existência de Deus.

A “essência”

Se olharmos para o quadro da Mona Lisa, nas suas três manifestações, a ver: a mulher, a paisagem e a descrição verbal de ambas; a única coisa que é comum a estas três manifestações é a “verdade” lógica que se encerra no conceito do quadro, a qual está para além de quaisquer palavras. A essa “verdade” lógica, corresponde aquilo que Santayana chamou de “essência”. Por isso é que a “essência” da Mona Lisa tem feito correr rios de tinta, porque a sua “verdade” lógica está para além de qualquer possibilidade de expressão por palavras ou mesmo através da linguagem matemática.

Portanto, a “teoria da essência” de Santayana é exactamente o oposto do desconstrutivismo (Nietzsche → marxismo cultural → Heidegger → Foucault → Derrida → Habermas) que procura e se aproveita da ambiguidade da linguagem humana, escrita ou oral, para fazer prevalecer uma determinada interpretação filosófica e política da realidade.

Aparentemente, segundo Santayana, e na medida em que a “essência” de uma coisa não é passível de expressão verbal descritiva exacta, a substância da “essência” mantém-se irracional. Porém, Santayana parte de uma definição restritiva de “racionalidade” na medida em que não engloba a “intuição” como parte integrante da Razão; para ele, a “racionalidade” ― entendida em termos de descrição empírica da realidade ― não se aplica à essência das coisas e passa a ser secundarizada e relativizada na medida em que só pode ser assumida por um ser natural (ser humano), e a este atribuída pela Natureza.

A noção de “essência” de Santayana tem algo em comum com a noção de “númeno” de Kant; porém, este não definiu o númeno como fazendo parte de um “mundo ideal” criado pela razão material, deixando em aberto a interpretação do que o “a priori” do númeno poderia significar intrinsecamente. Pelo contrário, Santayana define a “essência” como um “mundo ideal” fabricado pela diferença material existente entre os fenómenos (factos, conceitos, ideias); segundo GS, as “essências” não têm existência real na medida em que não se sujeitam ao “impulso irracional” da vida.

Assim, segundo Santayana, o mundo exterior ao Eu é “real” enquanto “construção ideal” e objecto de um conhecimento intelectual, isto é, não imediato. Por isso, o Eu não reconhece a existência (aquilo que existe; os factos e os fenómenos) mas apenas as essências, o que significa que não existe uma relação lógica necessária entre aquilo que existe e aquilo que é percebido pelo Eu como sendo existente. O cepticismo de Santayana chega longe demais ao colocar em causa a própria capacidade do ser humano em conhecer.
Por aqui vemos que a teoria de Santayana não é um materialismo tradicional nem um idealismo, mas a procura do sincretismo entre os dois conceitos.

Em que é que Santayana tem e não tem razão?

De facto, “conhecimento” e “verdade” são coisas diferentes; se o conhecimento fosse a própria verdade, seria imutável e eterno ― e por isso é que a verdade a que podemos aceder e considerar como tal é aquela a que se referem os factos ou conceitos que se mantém validados ao longo de séculos e até milénios; quanto mais antigo e consensual for um conceito ou facto, mais “verdadeiro” é (como é o caso do casamento natural, isto é, entre sexos diferentes).

Porém, Santayana considera a vida como efeito de um impulso irracional ― e aqui começa uma sua longa série de contradições. Santayana não explica como um impulso irracional pode produzir a Razão, e em várias ocasiões contradiz-se.

A resposta que Santayana não descobriu mas que a filosofia quântica defende, é o conceito de “níveis de consciência”. Segundo a quântica, na Natureza tudo é racional (e aqui concordo com Hegel); o que varia são os diferentes “níveis de consciência” que uma multitude de seres vivos ― e mesmo “não-vivos” no sentido biológico ― possuem de forma diferente. A percepção daquilo a que Santayana chama de “essência” depende, pois, do nível de consciência do sujeito perante o objecto, isto é, uma mesma “essência” pode ser intuída de forma diferente por dois seres dotados de níveis de consciência diferentes ― sem que essa essência seja intrínseca e necessariamente alterada, embora podendo ser alterada no caso de interacção entre sujeitos-objectos de níveis de consciência similares. Na consciência última (Deus), o sujeito e o objecto são um só, e por isso é que deixa de existir conhecimento para existir a Verdade.

Por outro lado, a própria “essência”, sendo objecto, e portanto, racional, é simultaneamente sujeito. Ou seja, o quadro da Mona Lisa não é apenas uma “essência” que existe somente num “mundo ideal” formatado pelo sujeito material que conhece, mas o quadro é antes um sujeito-objecto que permanece no seu nível de consciência cósmico (neste caso, o nível de consciência dos objectos inertes é básico). Aquilo que os seres humanos ― nos seus diversos níveis de consciência ― intuem do quadro da Mona Lisa é a “verdade” lógica de algo que é racionalmente consentâneo com o nível de consciência humano (o significado da pintura), mas que varia de acordo com o nível de consciência do sujeito humano que conhece o quadro, e que se enquadra numa estrutura a que a quântica chama de “consciência universal”, que vai desde os níveis de consciência mais básicos até aos mais elevados.

Em suma: eu próprio, como objecto de conhecimento de algum outro sujeito, sou também sujeito que conhece através do mundo exterior dos objectos ― estes, por sua vez, são sujeitos, e todos os sujeitos-objectos que compõem o universo actuam e conhecem segundo diferentes níveis de consciência. Neste sentido, o conhecimento é sempre a procura da Verdade que existe de forma eterna e absoluta mas que só se revela ao sujeito de acordo com o nível de consciência deste. O facto de cada um dos sujeitos que conhece o quadro da Mona Lisa sentir a sua essência de forma relativamente subjectiva, não significa que a Verdade da essência do quadro não exista; o que separa os seres humanos da Verdade dessa essência são os diferentes níveis de consciência que existem a nível universal, e que se aplicam também aos seres humanos. A Verdade é eterna e imutável; no seu processo de conhecimento, os seres humanos intuem a Verdade lógica das essências de forma diferenciada, de acordo com os diferentes níveis de consciência.

A tentativa de explicar a ética, a moral e a estética através da eliminação do transcendental foi sempre a preocupação dos materialistas, onde se incluem os realistas-naturalistas, e Santayana não foge à regra. Porém, o cepticismo de GS coloca Deus e a Natureza como “ideais”, no sentido em que só a inteligência pode descobri-los e utilizá-los. Mas por outro lado, segundo GS, a Natureza e Deus não existem senão como produtos das “forças mecânicas” inerentes à própria matéria. Existe, portanto, um dualismo em Santayana que contrapõe a “existência” à “essência”, sendo que esta última pretende ser um substituto para a transcendência idealista. Em substituição do dualismo platónico do “mundo sensível” e do “mundo das ideias” (matéria e transcendência), GS criou um dualismo puramente material: a “existência” e a “essência”, sendo que esta é um mundo ideal produzido pela matéria que, evoluindo, se torna inteligente. O “mundo das essências” não é transcendente à matéria, isto é, não existe uma ordem nem um sistema que regule o “mundo das essências”; a razão é-lhe alheia, e só a intuição o percebe.

Por isso, Santayana é tão epifenomenalista como Thomas Huxley, Moore, Whitehead ou Alexander. A diferença é que, ao contrário de todos os outros naturalistas, Santayana considera a religião positiva, mesmo que partindo do princípio de que a religião ― como Deus ― é um produto ideal da evolução material.

No postal anterior já vimos que os realistas-naturalistas partiam do princípio de que o universo era eterno, princípio esse que tornou obsoletas as suas teorias. O problema dos naturalistas é que se comportam como um animal irracional nas suas relações com o meio-ambiente: eles só se apercebem do que está imediatamente ao seu redor; para um animal irracional (por ex.: um cão ou um gato), aquilo que está para além de um determinado horizonte geográfico não existe simplesmente. O mesmo se passa com o naturalista: ele constata uma realidade imediata, e é só em função dessa realidade imediata que ele raciocina, não se importando absolutamente nada com as causas dessa realidade, isto é, com o que está para além dessa realidade. O naturalista é, por isso, um imanentista, isto é, alguém que procura na realidade imediatamente circundante as razões para essa mesma realidade, partindo do princípio de que a causa da realidade é a própria realidade, isto é, um universo eterno ― o que é um completo absurdo. Um efeito não pode ser simultaneamente a causa desse efeito.

A concatenação material entre as causas e efeitos não elimina a distinção objectiva entre causas e efeitos. Não é porque as causas e efeitos se misturarem numa miríade de fenómenos que eles deixam de existir separados uns dos outros. Por exemplo, quando o espermatozóide e o óvulo produzem um embrião, cria-se algo de novo que não existia exactamente na condição anterior, e embora exista uma evolução na continuidade, a verdade é que o embrião é um efeito que tem por causa componentes primordiais que se destacam e distinguem claramente dele. Portanto, o argumento naturalista de que “não existe causa e efeito no mundo da matéria”, é falacioso e intelectualmente desonesto.

O imanentismo é um monismo religioso que desemboca invariavelmente num panteísmo, e como diz Santayana, “o conhecimento é uma forma de fé” a que a própria ciência não escapa, ainda que essa fé seja justificada pelo contínuo contacto físico entre o cognoscente e o conhecido. Portanto, como bom naturalista, Santayana era um panteísta. Num próximo postal com o mesmo título deste, explicarei porque é que o imanentismo não é de todo absurdo se for conotado com a transcendência.

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1 Comentário »

  1. [...] por O Realismo Naturalista e a sua crítica (2) « perspectivas — Quinta-Feira, 19 Março 2009 @ 3:11 [...]

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